quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Tribe Called Quest: Definition!


Ninguém passou ileso pela década de 1990! Pelo menos quem ouvia (e ouve) Rap: há um divisor na virada da década de ’80 para a seguinte. Há algo de novo que entra em cena, e logo toma conta de grande parte dela. Se hoje o mundo todo – dos japas aos europeus; dos norte-americanos à nós – faz o chamado “JazzRap” isso se deve àquela ‘banca’ que começou a pegar os standards de Jazz, além do Funk e de outras coisas, e “colar pedaços” , uma colcha de retalhos com vários sons para fazer um novo tipo de música (aquilo que a gente conhece por sample - sem traduzir). A Tribe Called Quest – Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad e Phife Dawg – junto ao lendário Jay Dee, também De La Soul, Jungle Brothers, Pharcyde, Premier e Guru etc. – para ficar só nestes  –, começaram com essa ‘brincadeira’ de ‘samplear’ sons – pelo menos no que diz respeito ao Jazz. 
Enfim, quem conhece, sabe o que é; quem não conhece, deve conhecer. O que tem aqui, pelo menos por enquanto, são alguns sons, uma amostra de ATCQ. Mais vale ouvir do que ler o que tenho para dizer. Mesmo assim, por fim, é importante dizer algo: ATCQ, a escavação atrás de cada original ‘sampleado’, faz qualquer um mergulhar de cabeça no Jazz e depois nunca mais sair! 

A Tribe Called Quest: Definition!  |2013|
 1. Midnight Marauders Tour Intro 
 2. Award Tour – feat. Dave Dr.Ama
 3. Mardi Gras At Midnight – feat. Rah Digga
 4. Separate/Together          
 5. Lyrics to Go [Remix]
 6. Steppin’ it Up – with Busta Rhymes & Redman
 7. Can I Kick It? [Extended Boilerhouse Mix]
 8. Scenario [Young Nation Mix] – with Leaders Of The New School
 9. Midnight
10. The Hop
11. I Left My Wallet in El Segundo
12. Oh My God [UK Flavour Radio Mix] – feat. Busta Rhymes
13. God Lives Through
14. 1nce Again – feat. Tammy Lucas
15. Electric Relaxation
16.  Pad & Pen – feat. D-Life
17. 4 Moms – feat. Spanky
18. Busta’s Lament
19. The Love
20. Bonita Applebum [Hootie Mix]

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Música Para Tempo Frio [2013]

Música Para Tempo Frio: é o que o tempo traz. O que há aí é aquilo que gosto de ouvir, o que rodeia minha existência nesses tempos frios, chuvosos. A música expressa (ou contém em si mesma) cores, vibrações, sentidos, sentimentos, devaneios, melancolias... expressa, talvez, vida. Pelo menos uma parte dela. Há muita coisa que os ouvidos aceitam; outras, não se compreende. É um trabalho de fruição que desvenda cada pedaço, cada vibração, cada cor de cada música. Não é simples e - mais uma vez talvez! - não seja para qualquer um. Depende da subjetividade, da história e da historicidade de cada um. Não há garantia, nesse sentido, de que a música "bate" igual em/para todo mundo. Contudo, para além disso, depende de uma abertura frente ao objeto, frente ao som que "desagrada" os ouvidos: desagrada pois desconhecido, estranho - em vários sentidos -; desagrada pois bate de frente com verdades pré-concebidas. Não se trata de "gostar" ou "desgostar", simplesmente. Trata-se de apreender, de fruir, de conhecer, de existir. Em uma palavra: é algo inútil para os "padrões" de nossa época. Assim como é inútil a música erudita, a filosofia, a literatura...
Aconchegante para dias chuvosos... Mas não para qualquer dia chuvoso, tampouco para qualquer ouvido num dia chuvoso. Há coisas várias que agradarão os mais sensíveis (ou aqueles que compartilham de minha simples sensibilidade). Há experiências trocadas, várias. O que se tem aqui é um acúmulo de experiências de muitos. E não é que a vida é isso? Um acúmulo feito de fragmentos, compostos pouco a pouco por vários outros fragmentos de várias outras partes... Música para ouvidos chuvosos; aconchegante para ouvidos atentos, para vidas quentes, vivas e vividas. Não há nada de mais. E é isso que faz tudo ser tão magnífico, pois simples. 

São músicas para dias frios e chuvosos; solitários ou não; duvidosos ou... São músicas simples de uma experiência simples. São músicos simples, ainda que muitas vezes desconhecidos por aqui. Não há nada muito recente. A maioria gira em torno de 40 anos ou mais. Os mais recentes são reformulações daquela época. Enfim, não direi nada sobre eles: dizem por si sós. E, ainda, alguns estão acima de nós, não devem ser comentados, simplesmente sentidos. 

Música Para Tempo Frio [2013]

 1. Here's that Rainy Day - Som Ambiente (Azymuth)
 2. Bridges (Travessia) - Milton Nascimento
 3. Mistérios - Milton Nascimento
 4. Beijo Partido - Emílio Santiago
 5. Meu Tempo - Marília Medalha
 6. Maria - Emílio Santiago
 7. Sem Razão de Ser - Marília Medalha
 8. Morro Velho - Milton Nascimento
 9. Alumbramento - Djavan
10. Ela - Elis Regina
11. Mais do que Valsa - Marcos Valle
12. Cá-Já - Fafá de Belém
13. Cais - Milton Nascimento
14. Fazenda - Fafá de Belém
15. Milagres dos Peixes - Milton Nascimento
16. Sylvia - Arthur Verocai
17. Ponteio - Dom Um Romão
18. Juntos - Airto Moreira
19. Três Pontas - Milton Nascimento
20. Vera Cruz - Milton Nascimento
21. Dedicada a Ela - Arthur Verocai
22. Sagarana (Instrumental) - Marília Medalha
23. Samba de Rei - Dom Um Romão
24. Fabiola - Hermeto Pascoal
25. Manhã - Azymuth
26. Caminho da Roça - Arthur Verocai 
27. Catavento - Milton Nascimento
28. Canção do Sal - Milton Nascimento
29. Flor do Amor - Hermeto Pascoal
30. Pret-à-Porter - Robson Jorge & Lincoln Olivetti 
31. Dona das Meninas - Arthur Verocai & Azymuth
32. Meio de Campo - Elis Regina
33. Bis - Arthur Verocai & Azymuth



Diálogos do Subsolo Urbano!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Depois da tempestade... Reflexões esparsas e pontuais acerca da reviravolta dos tempos


Após a baixa da névoa, talvez seja o momento (quase) adequado a intentar alguma reflexão. Já que o Galo Gaulês marxiano, que desperta na alvorada histórica e canta com força, não despertou tão cedo – ou, de outra forma, talvez tenha despertado meio perplexo e, cooptado pelas raposas, deixou o galinheiro livre para o “sono da Razão” –, é hora de voltar à coruja hegeliana. Contudo, não é necessário se analisar a totalidade dos acontecimentos, e tampouco se têm condições para tal empreitada. O objetivo é, quiçá, voltar atenção para os mínimos detalhes, para as pequenas coisas que passam despercebidas – ou mal percebidas.
Vou me valer dos apontamentos de alguns amigos que li por esses dias, além de vários apontamentos que irromperam com força por todos os lados (apontamentos que, no geral, considero pertinentes, partindo de uma posição não estanque de classe e subjetiva – dizia Adorno, mais ou menos, que toda interpretação é subjetiva e ativa, parte-se das condições complexas do ponto de vista do indivíduo que intenta interpretar...).

1.      Para alguns, as “manifestações” surgiram do nada. Para outros, ainda que surgindo no nada, serviram como um trampolim anacrônico e neurótico para reivindicar o absurdo, para não refletir e exigir mais pasto às vacas. Esqueceu-se de tentar compreender que não há homogeneidade em lugar algum. Não há “brasileiro” que se dedique à bandeira de forma plena e desinteressada. Existem distinções gigantes entre os habitantes “do lado de lá e de cá da ponte”. Aqui – do lado de cá – os de baixo, de uma forma ou outra, sempre resistiram; do lado de lá, os interesses retrógrados sempre persistiram. O que parece, à primeira vista, é que estes, com toda força da “rebeldia” da juventude, tomaram como causa comum uma pauta. Mas só parece. No decorrer, grosso modo, foram “mostrando a cara” de fato – ou a escondendo, visto as máscaras sem sentido (e máscaras lembram, talvez numa digressão, o Rousseau do 1º Discurso, aquele sobre as ciências e as artes...).
As “manifestações” não surgiram do nada – “como um raio caído de um céu sem nuvens” – e nem não iam para lugar algum. Grupos organizados existem há muito tempo e reivindicam há muito tempo debruçando-se sobre uma pauta concreta, específica – que, claro, não ignora as conexões com outras pautas. Movimentos de vários tipos, à esquerda, existem tanto dentro das universidades (as “grandes”, pelo menos), quanto nas periferias. No entanto, o que mais saltou aos olhos pode se resumir em duas coisas, que se desdobram por dentro: a) uma indignação coletiva quanto aos vários âmbitos do processo sócio-político – a1) indignação, em vários níveis, abstrata e ideológica; a2) a indignação ideológica se dá num vácuo político – um “sem rumo” em busca de um “tudo imediato” – que é facilmente cooptada por um discurso simplista, aparentemente isento, e retrógrado (não vou usar a palavra “reacionário”, pois já disseram que está “batida”); a3) uma posterior “contrarrevolta” à direita que surge no meio da revolta, ou a toma de assalto; b) uma despolitização das “massas” que é facilmente politizada (cooptada ideologicamente) por fora. Neste âmbito, cabe ressaltar que não se trata de uma politização dos indivíduos anterior à própria práxis política. Isso seria utópico e absurdo. Mesmo assim, é importante lembrar que os movimentos históricos de revolta se deram, quase sempre, em torno de uma politização do próprio movimento, pelo movimento histórico. Mesmo os movimentos dos trabalhadores mais pauperizados foram pautados por objetivos claros e específicos, que, claro, em vários momentos extrapolavam suas próprias objetividades, mas não a perdiam de vista. (Penso, aqui, no filme Germinal, por exemplo. Ou em Queimada – filmes, entre outros, que sempre são comentados ou assistidos em formações políticas de esquerda).
Quanto aos pontos A (a1, a2 e a3), indica-se o seguinte: um vácuo político – no sentido de não ter objetivos claros, definidos e o “tomar partido” –, levou as massas a reivindicarem tudo sem, ao menos, perceber o que e como se queria, além de a “indignação” da direita e das classes médias em relação ao governo Petista, como se fosse o “mau do século” por si só. O discurso fácil da direita altamente organizada invade até aquela direita desorganizada e massificada, que reivindica a partir de sua “subjetividade de classe” como um cão raivoso amalgamado a sua egóica criança mimada que define seu Eu. E também invade, o discurso da direita organizada (desde as forças político-midiáticas massivas às organizações “secretas” dentro e fora dos partidos políticos da burguesia e sua sombra mal formada), o vácuo político dos dominados que, quiçá, viram ali naquelas manifestações um momento privilegiado para soltar um grito preso na garganta por muito tempo. Aliás, aqui já se vislumbra, ainda que de forma resumida e grossa, as conexões complexas de ambos os pontos, A e B.

2.      Aqui, não preciso dizer nada, pois a intenção é falar em “tomar partido” e “partido político”, no geral. Remeto ao textículo de meu amigo Marcelo Tomassini:
“Sobre política e partidos. Uma reflexão.
Será que o jeito é me filiar a REDE da Marina Silva? E exercer minha individualidade independente. Como se o problema fosse só a questão organizativa ou nome “partido”? Ou o MPL não é um movimento social que assume também uma forma de organização? Nos jornais, na mídia, todas as falas deles estavam conectadas. Ou seja, partiu de uma discussão coletiva deles e tirou-se uma linha política comum. Por isto teve uma fala comum no movimento. Todos diziam foco na revogação do aumento, e a repressão é a tarifa, além da crítica à polícia. 
Em outras organizações temos o centralismo democrático. Discute-se coletivamente, vota-se se for caso, tira-se uma política comum e todos que fazem parte do partido a defendem no movimento. Independente do nome que partidos e movimentos sociais dão para esta prática, seria possível construir o movimento sem esta organização? O problema a meu ver é que se confunde organização, programa, e a estrutura de regime. 
Organização é a forma que a política encontra para se manifestar. Pode ser um movimento social, pode ser um sindicato, pode ser uma associação, pode ser um partido, pode ser um coletivo e muitos etc.. 
Programa: é o conteúdo histórico, teórico e político a ser manifestado resultado do acúmulo e das experiências produzidas coletivamente durante gerações. E aí tanto MPL quanto um partido expressam um determinado nível do que seria o programa em sua prática cotidiana. 
A estrutura de regime, no caso, parlamentar: é o resultado dos regimes produzidos como legado das revoluções burguesas. Estes regimes por mais que abarquem as contradições de classe da sociedade, as canaliza para um modelo, uma forma determinada de se fazer política. A ressonância portanto por fora deste modelo tende a ficar comprometida. Além, é óbvio, que este modelo favorece a perpetuação de uma determinada classe social.
Quando se engessa a organização e o programa, não se os considera como históricos, temos a crise que vivemos hoje. E ai sim, cabe principalmente a esquerda, organizada em partidos ou não, refletir sobre suas práticas muitas vezes engessadas em sua tradição, ou em sua burocratização. 
Quando se engessa programa e organização se fortalece a cooptação a um determinado regime político. Ou será que o PT de hoje é o mesmo PT da década de 80? Sua adaptação ao regime é resultado de que? Será que todos os movimentos sociais são independentes, tem formas de organização democráticas, horizontais simplesmente por não serem partidos? Será que temos que considerar que os indivíduos não pertencem há uma classe social ou estrato de classe e expressam interesses comuns a isto? 
Temos que ter cuidado a este ataque aos partidos isolando o problema da política somente em sua forma de organização. Já tive experiências políticas com pessoas que diziam ser contra partidos, mas reproduziam uma prática política institucional mais burocrática que muito partido que está no poder.”

Cabe acrescentar a isso que o ranço que existe da classe média e da burguesia é quanto ao Partido dos Trabalhadores estar no poder. Uma digressão rápida à história recente do Brasil mostra que não é o PT o grande vilão. Ele não se isenta. Porém, é uma estrutura sócio-política comprometida. Os governos federais anteriores (FHC, Collor, Sarney, os militares...) não foram tanto quanto “venenosos”? E não é a própria formação do Brasil algo “cordial”, “cínica” e pautada no jeitinho brasileiro? Enfim, isso não é uma defesa ao PT. Muito pelo contrário: aquele que aceita entrar na estrutura e não intenta modificá-la, não está nada isento da crítica teórica e prática. Mas uma crítica à direita, cínica e fácil, não convence quem tem um pouquinho de massa encefálica...

3.      Junto a todo esse amalgama maluco, surgem várias abstrações neuróticas, do protestar quanto a tudo, sem se pensar em nada. É o protesto mais fácil: apontasse para o outro e isenta-se da crítica (Obs.: não usarei, em hipótese alguma, o termo crítica como sinônimo de culpa. Não se trata de algo moral, ou ético. É uma questão sócio-histórica e política. Aliás, Maquiavel já havia desvinculado a política da ética. Somente um “retrógrado” faria uma crítica ético-moral sem discernimento histórico-social). Aqui, é importante, em âmbito de exemplo concreto, remeter às pequenas coisas cotidianas; em âmbito sócio-histórico, pensar na formação do indivíduo moderno e, especificamente, refletir sobre a formação do Brasil.
Em primeiro plano, cabe colocar enfaticamente que lutar contra a corrupção, por exemplo, é, por um lado, isentar-se da formação histórica e esquivar-se da crítica, e, por outro, uma pauta moralista de uma direita (quase) fascista e ideológica. Junto a isso, esquecem-se quais as “concretudes” das pautas de reivindicações desse tipo. O que significa lutar contra a corrupção, concretamente? Ora, as “ruas” disseram nesses dias: é lutar contra algo que foi colocado, ideologicamente, como corrupção por excelência: a política, ou melhor, a “governança” do PT. Um exemplo prático (já que não sei desenhar): seria bom um mundo sem corrupção? Sim, seria. Seria tão bom que fulano que vai para a manifestação pedir o fim da corrupção não corrompesse... Que ele não tentasse levar vantagem em nada; que também não fizesse, supostamente escondido e solitário, perversidades que não faz no público... Enfim, não sei desenhar... A Corrupção é algo histórico. E não foi com escambo “jeitinho brasileiro” que, segundo a “historiografia oficial”, os do além-mar tiravam Pau-brasil a rodo daqui? E não foi com “corrupção” que se deu toda a história do Brasil, em âmbito generalizado?
Sem aprofundamentos, é mais ou menos isso...
Em segundo lugar, junto a toda essa neurose, surge movimento virtual-esquizofrênicos “pedindo” toda sorte de coisas bizarras. Uma delas é o impeachment. É mais ou menos assim: faz-se “revolução” (sic!) dentro da lei. E gentes se debatem pedindo impeachment de todo mundo. “Queremos impeachment da presidenta”; “queremos impeachment do governador”; “queremos impeachment do presidente do senado”; “queremos impeachment do pica-pau”; “queremos impeachment da Diabolin”... E assim vai o carro sem rodas das manifestações bizarras.
No entanto, a grande pergunta é: para quê? Que proposta política se tem para se pedir um “impeachment”? Trocar de líder? Ora, e não é Kant que fala no texto sobre a Aufklärung das vacas que não conseguem sair do carrinho pois foi dito a elas que não podem andar? E não é isso, esse troço de impeachment, pedir líderes morais e retrógrados que sejam mais rígidos e severos, beirando ao totalitário? E não é a necessidade de um líder “forte” que se quer? A República de Weimar que o diga! A classe média, principalmente a paulistana, se assemelha à criança mimada que “bota o terror” e, inconscientemente, no fundo, pede limites para o pai, exige um pai mais “autoritário”... Mas ainda é um pai generoso. Pede-se um pai autoritário, mas generoso. A figuraça recente na história é, sem dúvida, FHC.
Enfim, não faz sentido essas reivindicações bizarras e abstratas, que são concretamente esquizofrênicas e neuróticas. Ter um horizonte (quase) concreto nas/para as reivindicações, sejam elas quais forem, é o mínimo que se deve ter. Sem elas, vira-se qualquer coisa e se é facilmente cooptado pelas “forças obscuras” – Anakin (Skywalker) que o diga!

Política não é coisa que se faz de improviso. Não se trata, como dito, de politização individual, simplesmente. Ela é importante, mas não imprescindível. Trata-se de horizontes concretos, politização do movimento histórico. E é necessário discernir sobre todas essas “manifestações do Espírito” para que, aqueles que possuem algo de crítico, consigam se posicionar legitimamente, longe das “verdades absolutas”, mas nem por isso menos resoluto. E que se saiba o principal: o momento de ficar em silêncio e ouvir, simplesmente; o momento de abrir mão do que se pensa, refletir e mudar; o momento de saber dar passos atrás para continuar andando para frente. 

Subsolo Urbano!

sábado, 15 de junho de 2013

Todo ato de violência deve ser condenado!


Basta-nos saber o que é violência...


Violência é a estrutura de uma sociedade que oprime, a cada segundo mais, os mais pobres. E também oprime os mais ricos, pois o capital cria um padrão que anula a autonomia inclusive do burguês portentoso. Violenta é a forma como são tratadas as pessoas por si mesmas, como tratam os outros. Violenta é a forma como o Estado se diz democrático. Violenta é a “forma-sardinha” ao andar de ônibus. Violento são os míseros quilômetros de linha férrea de trens e metrôs numa das maiores cidades do planeta. Violento são os programas de TV (aberta ou não) que oprimem o cérebro. Violenta é a padronização da vida pelo consumo, pelo status. Violenta é a exploração do trabalho, o trabalho alienado. Violenta são as “ONGs”, sanguessugas sociais e cínicas. Violenta é a “pseudo-esquerda” que se perdeu desde 1989, e se tornou direita das mais ferrenhamente cínicas. Violenta é a direita que se transmuta em fascista. Violento são os programas “jornalísticos” ideológicos que adentram as casas dos mais pobres (material e espiritualmente). Violenta é a novela. Violenta é a fachada democrática das universidades, do conhecimento como semiformação. Violento é o cinismo que transforma todo tipo de preconceito e anulação das diferenças em “bullying”. Violento é o trocar educação das crianças por “bens” materiais – violento é o “responsável” por criança que troca educação, afeto etc., por “bens” materiais, por programas que padronizam, por falta de própria educação. Violenta são as propagandas direcionadas aos “jovens” consumidores. Violento é “formar” pessoas no ensino médio sem que saibam ler. Violento é o formar semi-indivíduos. Violência é falta de vontade para fazer coisas simples. Violenta é a não percepção dos nexos históricos de cada atitude aparentemente simples. Violenta é a redução da audição. Violenta é a redução do conhecimento à técnica. Violenta é a alternância da “segurança pública” entre capitães-do-mato e feitores. Violenta é a pequena-burguesia que finge refletir e só sabe atacar, como se fosse “crítica”. Violenta é a propriedade privada burguesa. Violenta é a proteção da propriedade privada pelo Estado. E também a primazia do capital sobre as vidas humanas. Violência é ser subjugado por tudo isso e ainda defender essa aberração. Violento é “ter opinião” como verdade absoluta. Violento é fingir ser politizado e não ouvir nada além do ego. Violento é não tomar posição e ficar em cima do muro. Violenta é a opressão. A manipulação. A anulação pelo poder. Violento, então, é o próprio “poder”. Violento é o medo, a paranoia social. Violento é a espionagem social que controla tudo por câmeras. Violento é concordar com isso sem o mínimo esforço. Violenta é a pena de morte autoproclamada pelos capitães-do-mato nas periferias. Violenta é a posição política que se embasa na vingança pessoal e arbitrária. Violento é dizer de algo que é “público” e excluir o “público”, concomitantemente. Violento é o rumo que a vida toma na “calmaria” da hipóstase, da servidão. Caso contrário, não! 

Subsolo com Vinagre + R$ 0,20!!!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A inumanidade da existência cotidiana: puxadinhos, modernização, especulação, exclusão


Meu avô, analfabeto de tudo – assim como minha avó, diarista –, graniteiro (profissão que hoje nem existe mais), paraibano, comprou um terreno pequeno, na periferia, em fins da década de 1950. Num lugar, até a década de 1970, ermo, sem asfalto, sem luz na rua (iluminação pública), sem rede de esgoto, onde se abriam poços nos quintais para ter água. E isso ocorreu em e para muitas e muitas famílias até a década de 1980 (com algumas alterações). Lembro, ainda pequeno, nos fins da década de 1980 e início da seguinte, que os poços começaram a ser fechados: jogava-se tudo dentro dos buracos para tentar fechar; quanto mais jogava, mais cedia. Não, não estou falando do sertão da Paraíba ou de algum lugar longínquo: é São Paulo, capital. Exatamente, a periferia distante do centro – agora, por conta de variados aspectos, nem tão distante. Isso tudo para quê? Para que dizer tudo isso?
A criação histórica das periferias, das favelas etc., é – grosso modo – fruto de um processo de marginalização dos “indesejados”: pobres, pretos, nordestinos e nortistas retirantes... Naquele período, por vários motivos, era, até certo ponto, “fácil” adquirir um terreno e construir um cômodo ou dois que não ocupava nem um quarto do terreno. Mas era o que dava. Só no decorrer do tempo a casa ia aumentando, por conta da necessidade prática (família que crescia, agregados, casamentos dos filhos, “puxadinho”, economias de anos para ampliar certo tipo de conforto etc.). – Em tempo: os cômodos mais antigos aqui, os dois dos fundos, são feitos, por completo, de “barro”: tijolos de barro superpostos e “colados” com uma mistura de barro e argila, coisa comum “antigamente”. Os conjuntos habitacionais também proporcionaram moradia para essas pessoas. É claro que dependeu de luta por parte de movimentos sociais por habitação etc..
A “cultura dos puxadinhos” se deu por uma necessidade prática, não somente, ou não exatamente, por conta da ampliação das rendas. Com o raio estrondoso da globalização (ou do “globalitarismo”) atingindo as periferias transmutado em consumo massivo, as necessidades (ou falsas necessidades; necessidades impostas), crescem vertiginosamente. Uma ânsia por modernização atinge o coração das pessoas mais simples. Era necessário que se fomentasse algum tipo de inserção das periferias no mundo, de forma plena (ainda que coisificada). Isso é visto, a partir dos anos 1970, por conta do acesso direto ao centro por “ampliação” do transporte público urbano (que ainda é uma ampliação de fachada e mal feita). Além disso, essa inserção também se dá no plano espiritual: fazia-se imprescindível que o consumo de tudo, a cultura do acesso, a vida como um todo, se assemelhasse àquela vista e implantada no inconsciente pela grande mídia. Toda a falsa necessidade do capital leva em sua torrente revolta toda a simplicidade da vida anterior e, por extensão, cria um padrão ideal a ser seguido e, quiçá, alcançado. Toda a “modernização” que, na década de 1990 e nas seguintes, fazia coisas brotarem do chão (supermercados, lojas de todos os tipos, todo tipo de comércio formal e “ambulante” etc.) – acarretando, entre outras coisas, o fim dos terrenos baldios que serviam de campinho e outros, e também o fim dos campos de futebol de várzea, as áreas de “lazer”, que não passavam dos mesmos terrenos baldios e etc. –, fez o tal do “custo de vida” subir vertiginosamente. Aquelas famílias que chegaram aqui entre 1950 e 1980, que, como era costume, possuíam filhos à rodo (de dois à quatorze ou mais), só podiam – ou o espaço só comportava – um “puxadinho” para o que primeiro casasse ou para o mais velho. Em alguns casos, os puxadinhos fizeram os terrenos e casas de outrora virarem cortiços familiares, no qual se comportavam várias famílias (geralmente de mesma matriz matriarcal ou patriarcal) num mesmo quintal. Casebres de um cômodo ou dois amontoados num espaço pequeno.
A “modernização”, a inserção das periferias ao mundo globalizado (“capitalizado”), fez, ainda, com que a especulação de todos os tipos, principalmente a imobiliária, se estendesse e se instalasse com toda força por aqui. Aqueles que nasceram na década de 1980, principalmente, não tiveram (e não têm; e não terão) espaço no mesmo terreno de seus pais: ou porque seus pais já se situavam num puxadinho de seus próprios pais, ou porque já haviam cedido espaço para os outros filhos etc.. Teriam, com toda força do acaso, que fazer suas vidas sozinhos. Os resultados foram a criação de outras periferias ainda mais distantes do centro. O problema é que toda essa “expansão” da cidade não se deu como outrora, como se os que foram mais para o fundo fossem bandeirantes: eram excluídos e, além do mais, duplamente excluídos na medida em que o desenvolvimento do capital, do assalariamento – os empregos em massa – continuava concentrado no centro da cidade. O que os geógrafos chamam de “cidades dormitórios” ou “bairros dormitórios”, pode ser visto sem muito esforço. Aqueles que no período anterior eram assim (bairros dormitórios), agora se tornaram – e continuam com vento em popa! – bairros de classe média. Os trabalhadores (mesmo aqueles “qualificados”) ou se enforcam numa dívida eterna (sem superlativos!), ou, por outro lado, fogem sem escolha para margens ainda mais distantes. E estas extrapolam as margens geográficas da cidade, em muito.
Essa “modernização” das periferias é algo, por si só, contraditório: faz o local o mais habitável possível e, ao mesmo tempo, expulsa seus antigos habitantes. Ora, a chegada do metrô em muitos bairros é algo esperado por muitos há mais de 30 ou 40 anos. Agora que chega, essas pessoas devem sair, pois não conseguem arcar com as “consequências” e mazelas desse desenvolvimento. Agora que teriam garantido acesso rápido ao centro e tudo mais, o mesmo espaço é tomado pela nova classe média, ou pela antiga classe média decadente. Além, as empreiteiras – sanguessugas especulativas do capital – e os especuladores imobiliários, aproveitam-se da “oportunidade” criada e saem desvairados pelas ruas das periferias comprando casas antigas, com terrenos com, em média, 10X25, derrubam tudo e constroem, no mesmo local, “becos” – 3 ou 4 – que chamam de casa, geminadas, e vendem cada uma por um preço superior ao que foi pago no terreno e casa que compraram. Mais ainda, os edifícios construídos (chamam de “condomínio”), são cada vez menores, não o edifício em si, mas os apartamentos. Apartamentos que chegam a medir 40m², vendidos à preço de ouro, chegando a custar, à vista, mais de 180 mil. Nas prestações a perder de vista, no mínimo o dobro. Apartamentos maiores (aqueles que chegam a caber, apertado, um sofá de 3 lugares) são “luxuosos”: ou se desembolsa meio milhão em prestações, ou nada feito.

Enfim, duas conclusões (ou algo desse tipo) são possíveis e se interligam. O desenvolvimento do capital é contraditório por si só e consigo mesmo. Isso acarreta uma morte lenta e sofrida para alguns, uma morte instantânea para todos. Por outro lado, se é doutrinado para que não se revolte com a situação insuportável engendrada em altas doses na veia que, se por um lado mata, por outro alivia de algum modo esquisito, atordoante e inconcebível. E inconcebível pensar que ainda se mantém sem uma convulsão prática profunda. Perdeu-se a capacidade de sonhar para além do que é exigido: ganhou-se uma outra capacidade de sonhar. A proliferação das igrejas e dos botecos, entre outras coisas, tem relação direta com isso: é necessário algum tipo de alento imediato que aja em dois âmbitos: na aceitação desse estado de coisas insuportável por si só, e na busca ilusória para se inserir nesse mesmo estado de coisas insuportável. Não há explicação plausível e não contraditória dessa situação. Se Marx dizia que o trabalhador assalariado “ganhava” o “suficiente” para se manter (ter casa – mesmo que alugada –, comida, roupa e que conseguisse reproduzir), ele não tinha noção do que a segunda metade do século XX iria criar. E se a situação mais escabrosa poderia criar algum tipo de “consciência revolucionária”, de fato, ela criou algum tipo de “consciência”: a do medo, que engendra a fuga, que é fomentada pela ideia de fracasso individual, que faz retornar com mais força e sede de inserção. E isso conseguirá permanecer insustentável por mais quanto tempo?  
Subsolo (pois só o subsolo restará!)!

sábado, 8 de junho de 2013

Pequenas Coisas


As pequenas risadas. Os sorrisos. A amizade cúmplice. A amizade simples. O pôr-do-sol. E também o nascer. A garoa fina. As folhas secas. E também as flores desabrochadas. As pequenas lágrimas, escondidas, de alegria e de tristeza. O renovar por meio delas. Cada segundo da existência bem existida. As viagens com Goethe, Dostoiévski... com Benjamin. A simplicidade da luz do daion. As coisas velhas e bem guardadas. Coisas antigas... As pequenas lembranças, pois todas são bem pequenas e gigantes pela apreciação de cada uma, pela renovação e pela reelaboração de cada uma. Os pequenos chistes de infância. As andanças com a cabeça longe... As histórias dos mais velhos. As histórias dos antigos. Os apuros passados juntos, e também os que ninguém sabe, que se passou só... A comida da avó. Os abraços. O cheiro do café, da terra após a chuva. As noites mal dormidas pela ansiedade. As fotografias granuladas que possuem, cada uma, uma história completa e incrível. O retorno a algum lugar que há muito não se ia. Anos de memórias boas que revivem... As noites com brisas quentes do mar, olhando para o infinito, pensando em tudo, em nada. As pequenas conversas. Aquelas que se fazem à luz da lua. As que fizeram tudo ter outro sentido. O demorar-se numa ideia, às vezes sem sentido. Os banhos de descarrego. As histórias de terror quando faltava luz... Os medos de infância. As minúsculas alegrias que se perderam no tempo. Os sorrisos que ficaram para trás. Os passeios mais singelos. A despreocupação com o tempo. Os conselhos de mãe...

As pequenas coisas que se esquecem, que se vão. Que revivem, rememoram-se... Aquelas que, num ato messiânico, utópico, romântico, poderiam salvar o mundo, salvariam as existências individuais. As mesmas que, perdidas, fizeram as relações congelarem, tornarem-se frias “desemoções”, descabimentos... Que tornaram a técnica a confluência e ponto necessário e teleológico de toda vida. Que suprimiram o tempo, aquele mesmo que cria a memória, que guarda tudo que poderia dar sentido à existência individual. As pequenas coisas simples que, não existindo mais, tornam a vida danificada. Transformam a vida em algo objetificado, e o objeto, por sua vez, aquele que toma posse irrestrita da vida. A perda do sentido das emoções, sendo elas apenas um produto já mastigado, posto pela técnica, pela “techno logos”. Pequenas coisas que se esquecem, que se esfacelam no tempo suprimido, que se perdem. Que não voltam. Que podem reavivar, mas...  

Subsolo Urbano! 

[Ouvindo: Ronnie Laws - Night Breeze]

domingo, 19 de maio de 2013

Panis et circenses: o circo trágico do cotidiano



Jouissance! Mesmo que pouco se tenha lido de Lacan, ou de seus interpretes, é o que fica na cabeça: gozo (ou “gozai”, como imperativo)[1]. Menos ousado e abstraindo menos, qual o pseudo-indivíduo, hoje, que não quer realizar todas suas fantasias mais perversas? Talvez não consiga, e talvez nem saiba exatamente quais elas são. Mas, consegue exteriorizar de alguma forma, imediatamente, sua perversão conforme a perversão social indica, ordena, e “conceda” espaço para tanto: a sociedade naturalizada desses dias é aquela que libera o indivíduo para agir da forma que bem entender. No entanto, será que esse “bem entender” é autônomo? O movimento naturalizado e hipostasiado da sociedade faz com que os “movimentos” do indivíduo sejam em torno de si mesmo, como uma galinha semimorta (com o pescoço quebrado e ainda “viva” – quem teve a oportunidade de ver isso, talvez tenha ficado atônito com a cena), sejam “movimentos” repletos de uma aparência de autonomia e legitimação: em uma palavra, reificação. A equalização entre o que “está dentro” e a abstração naturalizada do capital – mais ou menos, chamada de dessublimação repressiva –, é, talvez, a fase última de desenvolvimento do capital: permite tudo ao bloquear tudo. Goze! Mas, o quê? O que deve ser gozado? Não importa: o indivíduo autônomo dessa sociedade, esse existente específico, sabe muito bem o quê e como. É-lhe dada a capacidade inata e insuspeita de decidir e agir, imediatamente, para a efetivação de sua felicidade. Quaisquer designações em contrário são rechaçadas como opressivas e repressivas.
Nesse imbróglio o “outro” – um outro indivíduo, uma “plateia”, espectadores da ação etc. –, são, em uma só monta, interferência radical e intermédio para a realização plena da ação. Interferência na medida em que o outro é um empecilho para a ação, devendo ser eliminado espiritual e, quiçá, fisicamente. Contudo, é fundamental sua participação na ação: esse “outro” qualquer é o que faz a ação ser ela mesma, efetivar-se plenamente, é necessário que ele exista e, sem ele, não há ação nem indivíduo. Ora, em exemplo simples, ninguém “age” na medida do imediato por si só, para si só, na intimidade; só o faz ao tornar o espaço público o lugar privilegiado de sua ação “privada” e de sua efetivação enquanto indivíduo da jouissance. Por outro lado, por engraçado que seja, há o “poder do bando”: o indivíduo somente consegue ser selvagem (no sentido da dessublimação repressiva e, também, no sentido hobbesiano) quando está “protegido” e “espectado” por seu bando ou, de outra forma, quando precisa mostrar seus “poderes” para seu “bando menor” (o seu mesmo), ou o “bando-outro” (as pessoas de entorno). Sua ação do goze! só se dá na, reiterando, injunção das observação e eliminação (como subjugação ou como morte mesmo) do outro. Este é reduzido ao complemento básico do si... Enfim. Entretanto, tanto o si quanto o outro já entram na jogada como complementos, como coisas daquilo que já está hipostasiado. A sociedade (em abstrato mesmo) determina que assim seja. Pelo contrário, o indivíduo que não o faz, enquanto tenta retirar-se para qualquer outro canto, é o patológico.
Não é possível, em nossa época, falar em ética, em relação com o outro que não seja firmemente baseada pela expressão última: morte! O outro é aquele que deve perecer para que a ação do indivíduo, do si, seja efetivada plenamente – assim como o si já morto e perenizado sob o movimento abstrato dessa sociedade quase-total. Essa “dialética” esquisita, da morte, é o que há de mais sensível: qualquer outro deve ser subsumido ao si, à ação insuspeita e legitimada pelo abstrato. E, do mesmo modo, decreta-se a morte de todas as mediações sociais. Melhor: a subsunção delas ao plano do indivíduo da jouissance reificado. Como pensar uma Öffentlichkeit, uma esfera pública do debate ético-político, nesses termos? Como pensar uma relação que aceite o outro enquanto instância autônoma? Como pensar qualquer coisa que envolva o coletivo, a sociedade, quando, estes mesmos, se reduzem ao plano do si reificado (e coisificado na medida em que esse mesmo “si” é, num movimento de retorno, jogado para debaixo do tapete sujo da abstração social-capitalista)? Só é possível discursar sobre ética, política etc., quando há indivíduos sociais (ou quase isso) razoáveis (ao menos).
O imperativo do gozo não causa somente dor individual, subjetiva: ele elimina qualquer vínculo social ao se apresentar como violência. E das mais brutais! É óbvio que a paixão pelo imediato, pelo gozo sublime e abstrato (e como um fetiche concreto), somente pode desembocar em atos de violência. E não é a violência isolada como querem os mais entusiastas. É uma violência estrutural: da estrutura complexa e coisificada do indivíduo atomizado e subsumido, à estrutura violenta da sociedade que impera com seus “feitores abstratos” comandados por uma coisa vazia – capital. E a pergunta que fica não é o que nos espera no futuro; mas como digerir nosso passado e reelaborar nosso presente trágico.




[1] Fique claro: este texto não tende a interpretar Lacan – quem me dera! –, tão pouco qualquer pensador. A intensão, menos ousada, é tentar refletir sobre o cotidiano por meio da filosofia e do pensamento contemporâneo, a partir de um ponto qualquer desse cotidiano. 

Subsolo!

sábado, 11 de maio de 2013

O Crack em SP e a “grande jogada” do Estado


         Não é de hoje que o tema “droga” é um problema nos grandes centros urbanos. Remontando ao passado recente, tem-se a “injeção” de “drogas” nas periferias como “estratégia”, por um lado; também se tem, por outro lado, a grande discussão sobre “o que é droga?”, já que o fato simples do ilícito não determina nada e, ainda, ideologicamente se separa em campos distintos o que é, o que não é, o que nem é definido como etc.. Enfim, é um tema difícil de ser abordado, ainda que se possa se livrar da ideologia pela negação dos discursos moralmente cristalizados, mesmo que seja um trabalho árduo.
Ainda assim, o que chama a atenção é o tratamento classista burguês dado pelo Estado – e pela ideologia oficial – ao tema. Primeiro, droga só deve ser tratada enquanto tal – no trato policialesco – na periferia e para o lumpenproletariado. Não é muito difícil ver, nos bairros burgueses e pequeno-burgueses, junto às grandes universidades etc., a “droga”, mesmo a ilícita, como coisa corriqueira, aceitável e, até certo ponto, venerável. É muito simples tratar os meninos pretinhos das margens como “drogados”, nóias e tudo mais; ao passo que o lutador profissional – mercadoria de um grande especulador – ou o jogador profissional, o ator (assim como outros “profissionais”), como o “inspirado”: é o cara que usa a paradinha para ter mais inspiração, para “compreender” melhor os movimentos, as nuanças etc.; é o “experimentador” e o “alternativo”. É claro, o “rebelde” burguês e o rebelde das classes baixas são, mesmo que ambos “rebeldes” de causas próprias, distintos pelo trato dado pelo Estado e pela ideologia oficial.
No entanto, ainda não é somente isso que espanta. Como “deu merda” a parada da internação compulsória dos lumpens na Cracolândia em SP, já que gerou debates – interessantes até certo ponto – e viu que a prática só não era mais higienista por falta de discurso apropriado por parte do Estado, a onda virou fazer PPP (parceria público-privado) com cara de bom mocismo reacionário. O que se quer, no fim, é limpar as ruas, encher os bolsos, desviar. A jogada do Estado é insuflar dinheiro público em mãos privadas, fazendo a velha limpeza da região central – que, depois que supostamente “acabaram” com a Cracôlandia, os lumpens se espalharam pelo centro todo: “deu merda” o jogo da direita reaça –, além de dar uma resposta “positiva” à “sociedade” de parasitas. Um texto na Revista Época[1] diz que o tal Cartão Recomeço terá uma “bolsa” de R$ 1.350 que, entretanto, “será repassada a clínicas de reabilitação conveniadas”, e “O valor deverá ser repassado diretamente às clínicas de reabilitação conveniadas.” Opa! Peraí! Diretamente às clínicas? Isso não cheira, fede. É o “modelo social de reabilitação”, dizem os “entendidos”. Diz a Revista:
'O dinheiro do auxílio mensal só poderá ser usado, exclusivamente, para o pagamento de serviços prestados por clínicas de reabilitação conveniadas para recuperação dos pacientes. Não é para comprar roupa, alimentos, etc.', afirma Laranjeira. Existem vários tipos e graus de dependência. Ele diz que 'nem sempre a internação é adequada para determinado paciente, nem é o tratamento final. É necessário todo um processo de recuperação, até mesmo pelo fato de as recaídas serem comuns', afirma. 'Esse dinheiro vai tornar possível que as famílias dos viciados proporcionem, sob supervisão médica, o tratamento necessário para seu parente'.  
[...]
Para o psiquiatra José Moura Neves Filho, especialista na gestão de saúde mental e que não esteve envolvido na idealização do programa, R$ 1.350 é um valor baixo para custear o tratamento nas clínicas de reabilitação, de acordo com o que foi divulgado até o momento sobre o programa. 'Só a diária em uma clínica mediana de reabilitação costuma girar em torno de R$200. Fora todos os custos, já que é um tratamento demorado e custoso', diz. 'Se o auxílio fosse destinado a outras necessidades, como alimentação e moradia para o período pós-internação para os usuários sem-teto, por exemplo, o cartão seria mais útil.' O secretário Rodrigo Garcia defende que, com o valor do auxílio, é possível, sim, custear esse tipo de tratamento.  
[...]
Os idealizadores do Cartão Recomeço afirmam que o programa deverá incentivar indiretamente a criação de novos centros especializados e a modernização dos já existentes, uma vez que o repasse da verba só poderá ser usado em instituições credenciadas. 

O que está em jogo? É claro: debate (ou o falso debate) sobre sociedade, saúde pública, higienismo, educação pública, combate às drogas (ou melhor: aos “drogados”, àqueles que são eleitos enquanto tal), enfim, políticas sociais e políticas públicas num âmbito generalizado. Não se pode tratar de vício como crime. Tão pouco criminalizar ou tratar como incompetente o sujeito que não se adapta à sociedade da concorrência. Isso é tão necessário e intrínseco ao capitalismo que chega a ser bizarro pensar as contradições sociais vistas do ponto no qual se encontra a ideologia oficial. É um discurso, dizia Marx, “sem história”. O Cartão Recomeço deveria se chamar Cartão Capital, pois é o movimento do capital, suas vicissitudes, que estão entrando com os dois pés no peito. Esta sociedade cria suas infâmias e as resolve, a sua maneira, é claro. E as maneiras são, em um ponto, criadoras e escoadoras de in-gentes, seres inumanos, e criadoras de valor pela via oblíqua e cordial. É ridículo, pois não há projeto, não há nada pensado para além do dado. Mas não pode haver tratamento humano numa sociedade que perdeu seu status, perdeu sua humanidade por completo. Não pode, ainda, haver humanidade numa sociedade na qual “a coisa” é o que importa, é quem comanda. É absurdo – e real – pensar que a malfadada Cracôlandia foi esvaziada (ou melhor: está sendo higienizada) por conta da especulação capitalista de todas as ordens. Os debates visam, são visados e ordenados, pela “coisa” que se move por si só e leva junto seus autômatos. As in-gentes são levadas por essa maré. O termo “lumpen” não é mais um privilégio de alguns: só há lumpens por aí. A problemática é que alguns mandam, e nenhum vive. E, por fim, escoa-se, mais uma vez, para a sarjeta social todo o lixo inumano: todos.  


Subsolo!

sábado, 4 de maio de 2013

Crítica: “Por que tudo custa tão caro no Brasil”[1]

 [por que ideologia, meu amigo, aparece inclusive na crítica]


       Um artigo “crítico” aos custos em relação ao consumo no Brasil, publicado na Revista Superinteressante do mês de abril deste ano, chamou a atenção pela “lógica do absurdo” que se vivencia por aqui – mas não só isso.
     Pois bem. O artigo inicia sua explanação pelo curto período histórico brasileiro no processo de “crescimento dos emergentes” (da década de 1990 a 2008, antes da “crise” mundial e, claro, passando sorrateiro por ela). Mostra, ainda, uma comparação com os custos de consumo em relação a outros países (especialmente os países da Europa e os EUA, isto é, países, capitalistamente falando, “desenvolvidos”). Até aí, sem problemas. Ou quase isso. O que já se percebe, desde o início, é a ligação não tão explícita entre o “problema” inflacionário o qual, por ora, o Brasil vive e, além, a paranoia do “estado de pânico” que se instala por conta de “descobertas científicas” dessa monta.

    No entanto, a problemática mal desenvolvida do artigo começa quando se alia o crescimento do PIB ao do consumo (e, claro, a suposta transição ascendente de classe social – no estilo tipicamente positivista), e, ainda, esses “crescimentos” ao aumento vertiginoso dos preços e do custo de vida. Isso, diz o artigo, ocorre por mãos “individuais”: indivíduo A ganha uma grana, compra uma rede comerciária; indivíduo B, gerente dessa rede, compra um carro; indivíduo C, dono da concessionária, “investe” em algo (comércio, no geral); e assim o “capital” gira sem uma estrutura social por detrás: “Só isso já começa a explicar o boom dos imóveis. Agora o gerente da pizzaria, o dono da concessionária e a equipe da SUPER não dependiam mais do Baú da Felicidade para tentar o sonho da casa própria. Sentiram que dava e foram atrás de apartamento.” Bem, é claro que, ainda, se alia o “montante” ao nexo “oferta-procura”.

     O Artigo continua, fala sobre a carga tributária exuberante como as matas do Brasil (nem dá para acreditar que ainda existam!), expõe, ao seu modo, a burocracia de causar inveja a qualquer weberiano fanático... Enfim. É prolixo em exemplos para mostrar o Brasil segundo sua (da Revista, dos autores etc.) visão. Tudo isso é “chover no molhado”. Em outras palavras, diz o que é visto, ouvido, lido nas redes sócio-virtuais a rodo, comentado, explanado (pelo senso comum, é claro) e etc.. Porém, a máxima do século XXI é criar “micro estados de exceção”, como algo “fora do normal”, ainda que dentro do normal e nada de exceção, já que é a regra básica e cotidiana. Assim, a tática atual para criar o pânico de modo “cômico” e trivial é quase idêntica ao modelo parasitário e sensacionalista dos programas da TV aberta (Datena, Ratinho e toda essa facção de exímios senhores).

      Entretanto, o que aqui se quer destacar são questões pontuais que aparecem do meio ao fim do texto. Em primeiro lugar, o que o artigo chama de “má vontade”, no sentido político – isto é, dizendo que o Brasil não tem investimento em produção, em questões sociais etc. –, não é analisado enquanto tal. Uma breve digressão história, da colônia ao século XX, já daria outra conotação ao problema. O não aprofundamento – já que se trata de um artigo de revista e, por isso mesmo, os autores se dão ao luxo de “jogar verdades” aos quatro ventos sem, ao menos, as embasar – é, de fato, o grande causador da dicotomia e do “pânico” sensacionalista. Historicamente nunca houve incentivo ou incremento da produção (num sentido amplo), menos ainda no que tange a questões sociais. Somente se investe, isso vindo do Estado, em questões sociais quando não se tem mais como negá-las explicitamente. Em relação à produção, o Brasil investe muito bem, muito pelo contrário do que diz o artigo. Para uma burguesia dependente e parasitária, os investimentos se dão não como incremento do capital – a não ser em casos tanto no período militar quanto no que diz respeito à década de 1990 em diante, com transnacionais e multinacionais aqui instaladas. Os investimentos ocorrem, majoritariamente, no fomento e manutenção do baixo custo do trabalho – criador de valor e que faz girar o capital –, na isenção de taxas e nas obscuras transações oligarcas, que são, nada mais nada menos, que resquícios vivos do período colonial. Sem falar, é claro, no movimento do capital abstratamente financeiro que enxerta a produção de insumos de primeira monta: matéria-prima barata e abundante (até parece que estamos no séc. XVI ou XVII). Não faz sentido falar de má vontade política quando se resume a própria política aos profissionais burocratas do Estado. Não faz sentido, tão pouco, dizer que falta investimento em produção quando, pelo contrário, o Brasil produz o que tem de produzir enquanto país dependente e, ainda, o que deve produzir enquanto “celeiro mundial”.

    Ainda há a contradição, de um típico proudhonianismo infantil, de dizer que o investimento em produção baixa os custos (para o último consumidor, isto é, para o “povão”): “Investir em mais meios de produção é ótimo porque baixa os custos lá na frente. É um PIB que gera mais PIB. A argamassa não fica valendo ouro porque o país passa a produzir mais e melhor argamassa (ou placas pré-fabricadas). [...]. Os preços não partem para a irracionalidade. Não dá.” Gerar mais PIB não significa engendrar melhores condições de vida. Aliás, nunca significou. A comparação que o artigo faz é com a China dos anos 2000 em diante. O que será que é ocultado? É muito evidente para qualquer um que acompanhe um pouco mais de perto (nem precisa ser especialista) o “desenvolvimento” da China capitalista: superexploração do trabalho com baixíssimo custo da mão-de-obra (em todos os sentidos); muita gente, ou seja, muita mão-de-obra ultra-barata; compra de matéria-prima a preço de banana (do Brasil, diga-se). Por outro lado se dá a comparação com países desenvolvidos, os chamados de “primeiro mundo”: ora, comparar com, por exemplo, EUA, que se beneficiaram da ordem ascética protestante, da escravidão, das grandes guerras, da dizimação de povos inteiros, da dependência de seu povo e de outros povos à sua burguesia e ao seu Estado, é quase uma afronta ao raciocínio! Comparar, por outro lado, com o Japão fica mais fácil: um país que foi dizimado por uma “bombinha” e que, em seguida, se tornou extremamente dependente; país no qual, entre muitas outras coisas, a exploração da mão-de-obra lembra de perto o taylorismo, com 16h de trabalho diário, sem leis trabalhistas amplas; país, em fim, que faz seus trabalhadores terem dormitórios, não casas: cubículos no qual passam as horas de descanso – e não é de lá, também, que vem o toyotismo e todas suas vicissitudes? O que se tem, no artigo, é o absurdo da comparação deixa de lado todo seu fundamento por uma “impressão” mal feita. É mais ou menos a discussão de duas crianças que se debatem para provar que as estrelas que veem no céu têm cinco pontas. Mal sabem elas do que estão falando.

*    *    *

 “Nossos juros altos, nossa energia cara e nossa logística do século 19 (sic!) são grandes freios para o PIB. E aceleradores dos preços altos.”
Mas claro! Os juros e o encarecimento de coisas tão fundamentais são uma afronta para o crescimento do PIB! Ora! Mas, e aí, só isso tem a dizer, amigo? Os preços altos não estão relacionados aos juros, pelo menos não em primeira instância. Vamos lá: existem taxas que os produtores devem pagar, não pagam. E onde elas aparecem? No produto final, é claro, para o comprador final. Os altos índices de lucro estão ligados ao mais-valor, na superexploração contínua do trabalho, e os altos custos que o produtor capitalista deixa de pagar e repassa, sem mais nem menos, para o consumidor final. No entanto, isso ainda é chover no molhado. Os juros não são inimigos da burguesia num capitalismo dependente. Basta ver que não é o Estado por si só que comanda toda a parafernália. Os bancos, que são os que mais enriquecem na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, na riqueza e... Enfim, os bancos coordenam, por um lado, as taxações. Por outro, os órgãos internacionais controlam como, quando, onde e por que será investido o capital. Nossa logística é atrasada não por acaso. Têm-se vias férreas, ainda que não suficiente. Mas, quantas funcionam? Qual a “vontade” que se tem quanto a isso funcionar? Não se trata de má vontade ou mau planejamento. Pensemos: o país começa a fazer o escoamento interno por vias férreas e fluviais (um com custo quase pela metade do transporte rodoviário, ou quase que um quarto – 25% – aquele custo). Ótimo! Não fosse o lobby e a dependência. Quem não permitirá? O Grande Capital: as transnacionais dominam o mercado (a produção) de caminhões, pneus, asfalto (por isso o asfalto por aqui é tão vadio!) etc.. Isso faz o capital girar, faz o movimento da produção, da maquinaria, de produtos “essenciais”, de dinheiro. Por exemplo: o país precisa prestar contas a “alguém” – chamemos de “Grande Irmão” – e o Grande Irmão empresta uns trocados, ou mesmo “comercia” conosco, ou deixa que “comerciemos” com outros. O Grande Irmão é o pai reacionário que não dá “liberdades” ao filho. Bem, investir em educação, saúde etc.? Não! Pelo menos não como quisermos. Pode-se “investir” em questões sociais, mas só o tanto que o Grande Irmão deixa e impõe. Bem, por aqui, sem estender muito, já dá para perceber que, se por um lado não se trata de “vontade” simplesmente, por outro, o país está indo de vento em popa, pois permanece em grande parte no século XIX, e, à reboque, com tudo que o século XIX teve de “melhor”... 

                                                                *    *    *          
Parece necessário reler o “capítulo do dinheiro” – e a “Introdução” –, nos Grundrisse do “Véio Barbudo” e tentar entender como o consumo (a distribuição, circulação, troca etc..) não tem autonomia frente à produção. E, ainda, como a especulação, em todas as frentes, é algo intrínseco ao movimento capitalista, ao movimento de capital-dinheiro (ainda que abstrato), e como os preços altos não estão somente relacionados a juros etc..
Pois bem, no fim do “grande e eloquente” texto, pode-se ler:
 Talvez o problema esteja mesmo na “realidade do mercado”. Nessa realidade, pagar R$ 100 mil em carro passou a ser uma despesa aceitável, mesmo que isso comprometa uma fatia gorda do salário. A verdade é que preços altos têm uma força magnética no País. Gostamos de gastar, de ostentar. É status. A ponto de lojas de preços acessíveis na Europa, como a espanhola Zara e a inglesa Topshop, virarem grife aqui. A regra no Brasil é consumir muito e poupar pouco. Segundo o instituto de pesquisas Nielsen, os brasileiros guardam 27% do que ganham – contra uma média de 39% no resto da América Latina. No ano passado, consumimos quase 10% a mais que em 2011, em especial nas concessionárias (30,3%) e nos supermercados (28,8%). Isso não é ruim na essência – no Japão, gastam pouco e poupam muito, e a economia deles está estagnada. Mas se a produção não acompanha o consumo, não tem jeito: os preços sobem. Outro problema é que nos endividamos muito. Uma pesquisa recente do Ibope diz que 41% dos brasileiros têm dívidas. Entre os alemães, por exemplo, são 10% (e isso é um recorde histórico lá).
“Nunca tivemos tanto crédito e, por falta de educação financeira, o pensamento é: ‘Estão me dando dinheiro, vou gastar’”, diz o economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas. Para Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, “as pessoas não estão acostumadas a lidar com isso. Doce é bom, mas demais lambuza”. Temos uma boa desculpa, até. Não faz tanto tempo, em 1993, a inflação medida pelo governo alcançou estratosféricos 2.477%. Todo dia 5, os brasileiros corriam ao supermercado para abastecer a despensa de arroz e feijão e o freezer de carne. Porque, no dia 6, os preços já teriam sido remarcados. Como pensar em poupar em um cenário desses? O negócio era gastar, antes que o dinheiro – ou seus zeros à direita – desaparecesse.
A verdade é que temos muito a aprender sobre como lidar com dinheiro. “Agora chega”, diz a economista Virene Roxo Matesco, da FGV. “A inflação foi debelada em 1994. Já temos uma geração de consumidores que não sabe o que é isso”, diz. “As pessoas não têm ideia do custo-benefício de poupar”. Pois é. Uma hora a gente aprende. Mas, se o governo e as empresas não colaborarem, investindo mais em produção e cortando tributos excessivos, não vai adiantar grande coisa. E vamos continuar enxergando os preços justos como uma atração turística do exterior. (grifo meu).
A “culpa” de endividamentos, custo alto de “vida” (entenda-se o que quiser por vida!) e etc., é por conta do “status”. Isto quer dizer a “culpabilidade de Robinson Crusoé”, ou seja, do indivíduo isolado, por isso autônomo, e “burro”, já que não tem “educação financeira”. Não faz muito tempo o Fantástico, “grande e honesto” jornalístico dominical – que sua trilha sonora de fechamento indica o depressivo e derradeiro suspiro do final de semana –, tinha um “economista” (pode-se chamar assim qualquer um que use uma HP e faça cálculos primários) que “tentava educar” as pessoas a economizar etc.. Todo o problema do capital e da mistificação da realidade se dá por causa do “indivíduo incompetente” e em busca de “status”. Como se necessidade falsificada e supérflua nascesse naturalmente no indivíduo, assim como a fotossíntese ocorre nas plantas. A propaganda, há muito tempo, não é considerada por qualquer sujeito astuto como “gasto” ou mesmo um apêndice do capital: ela mesma é capital, já que ela mesma é produção por si só. Quando se fala de produção, vem à mente produção de coisas empíricas, materiais. Mas desde que a burguesia começa seu trajeto, antes mesmo das revoluções burguesas, a produção da necessidade (não produção do humanamente necessário) é o primeiro quesito a ser pensado. E, além do mais, o status custa, é óbvio, mais caro que um produto qualquer. Fulano não compra em Miami porque é mais “barato”. Isso ele pode fazer no Brás, com bugigangas de todos os tipos produzidos a preço de trabalho escravo. Compra em Miami, pois dá status, é importado. É muito fácil falar que “brasileiro adora gastar”, coisa e tal. O difícil é pensar como a produção, em um estado cordial e cínico, é altamente corrosiva. Empréstimo, crédito, é, em uma palavra, produção: é investimento e superexploração por agiotagem de banqueiro. O crédito capitalista nada tem a ver com “bondade” ou “aquecimento do mercado”, com “consumo” ou coisas mais.
Por outro lado, insistir que “consumo” e “produção” tem que crescer juntos, invertendo os polos – “Mas se a produção não acompanha o consumo, não tem jeito: os preços sobem” – é uma afronta e uma aceitação passiva do capital como natureza primeira. Os meandros e contradições da estrutura do capital não são questionados, tão pouco levados em conta. A produção é produção de distribuição, troca, consumo. Capitalismo não produz coisas. Produz abstrações, modelos que são “comprados” antes das coisas. O próprio movimento do capital, em todas as suas etapas (se é que se pode desmembrar), cria o tipo específico de consumo e o consumidor alienado que nada tem a fazer de modo isolado. O consumo deve ser repensado por meio da produção. Pois mesmo o consumo “consciente” (se é que isso existe sob o Capitalismo) ainda é consumo de coisas supérfluas, ainda é “consumo capitalista”. Assim, levar a crer que o indivíduo “robinsoniano” é o “idiota” da vez, pois ele que fomenta o capital e suas contradições, é fazer o discurso do próprio capital e aceitar seu ultimato. E não é que está na moda fazer tais discursos? Se assim se aceita, não há problemas em tirar a culpa da burguesia, do Estado, da luta de classes, enfim, da própria historicidade do capitalismo e jogá-la em cima dos Robinson Crusóes! Aceitando isso, estamos certos em aceitar a culpabilidade dos indivíduos fragmentados e quase que completamente sem autonomia: joguem os meninos pretinhos na cadeia; curem os gays; não aceitem cotas (já que é esmola) etc.. O indivíduo no seio do capitalismo é filho legítimo de uma má gestação: é açoitado pelo capital abstrato em todas as frentes. Dizer que ele pode “poupar” (e a pergunta: para quê?), é dizer que ele pode, assim, acumular capital para o próprio capital.
Por fim (ufa!), um artigo de revista que expõe “verdades” não problematizadas, estanques e incontestáveis – omite com o intuito de vender –, não “conscientiza”, tampouco faz crítica: antes, produz a pseudoconsciência necessária para que o ritmo do sujeito abstrato não cesse. Produz capital ao produzir – aqui no sentido de expor – ideologia.
________
[1] Por Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen. Matéria da Revista Superinteressante, Edição 317 – Abril/2013. Pode ser lido na íntegra aqui:  Por que tudo custa tão caro no Brasil . 


Subsolo!