domingo, 1 de junho de 2014

A Esfera Pública do Capital

A atualidade é marcada por uma ampla participação dos indivíduos no debate político. Sobre todas as esferas da vida pública, todos veem uma necessidade em opinar, estranhamente imposta a si como uma força que impele para frente, trazendo suas concepções mais variadas sobre os assuntos mais diversos. Todos possuem, aparentemente, capacidade em marcar suas posições firmemente. Desde questões acerca das condutas individuais mais simples até questões mais polêmicas envolvendo a vida coletiva, os indivíduos trazem verdades subjetivas – e porque não isoladas e absolutas. A respeito de tudo todos já possuem verdades prévias e completamente formadas de modo estanque.
Para que essas concepções fossem efetivadas, isto é, fossem postas de modo público, seria necessário uma “esfera” (um “local”) que comportasse tais ideias e, além disso, essas ideias, ou ao menos seus criadores, fossem abertas ao debate entre si. Esse local deveria, por conseguinte, ser um espaço por definição aberto, apto a aceitar o embate entre os indivíduos e suas ideias, e os mesmos indivíduos aptos a enfrentar-se entre si de modo aberto, num jogo franco (ou seja, aceitando as regras do combate: abertura frente aos argumentos, sabendo reconhecer a validade e a força de um argumento melhor e, claro, abrindo mão do mau argumento). A partir dessa definição sucinta e precisa, teríamos, portanto, uma Esfera Pública.
No entanto, as ideias postas na esfera pública existente, não surgem do nada. Elas são produtos de indivíduos. Os indivíduos, por sua vez, são produtos de várias relações, complexas e determinadas. No âmbito da totalidade (isto é: da estrutura global que rege todas as relações entre os indivíduos), temos a História. A História é produtora dos Homens enquanto indivíduos. E ela é também produto dos Homens enquanto indivíduos coletivos. Portanto temos: a História é produto das relações humanas em geral e é, ao mesmo tempo, produtora de tais relações. Ainda no domínio da totalidade, mas de modo mais específico, temos a sociedade. Esta é produto da História, produto de relações determinadas entre os seres humanos. Relações humanas que se diferenciam em aspectos centrais produzem sociedades diferentes. Uma sociedade que se constitui de relações familiares que não possuem a figura do Pai como central, será uma sociedade organizada de forma diferente em relação à nossa. Todavia, sociedades complexas como a nossa “saem” do controle dos indivíduos e, assim, são produtos não mais deles, mas das classes sociais, compostas por esses indivíduos e determinada por caracteres relacionados aos costumes e hábitos, aspectos vivenciais, aspectos culturais e, principalmente, econômicos (como ganham a vida ou como sobrevivem dentro da sociedade). Ainda, por “sair” do controle dos indivíduos, em alguns tipos de sociedade a própria estrutura social se volta contra os indivíduos e as classes sociais. Tais estruturas se abstraem do controle (não totalmente, é claro) inclusive das classes sociais e passam a determinar o funcionamento das classes e das relações entre elas. E se controla tais relações entre classes, também controla as relações entre indivíduos, determinando, inclusive, como e quem será e se comportará o indivíduo.
Nenhum indivíduo escapa a isso. Ele é produto da História, de uma determinada sociedade, das relações específicas que compõem tal sociedade. E isso demonstra que nenhum indivíduo é autônomo sem conteúdo. O conteúdo da autonomia e da liberdade dos indivíduos é também histórico: depende da formação social. Se quisermos ser mais enfáticos, depende das relações complexas de tal sociedade, de uma ordem, de seu direito, de sua política. Estas esferas (da ordem, do direito, da política e etc.), por sua vez, são produtos das relações de dominação existente entre as classes sociais. Em nossa sociedade, são produtos da relação entre aqueles que têm a primazia do poder (não só político) e aqueles que não possuem poder, os dominados. Estes, mesmo que não se entendam como desprovidos de poder e como dominados, em nada alteram a substância e o conteúdo concreto da dominação.
Na sociedade, produto de um desenvolvimento histórico, que se constitui baseada na produção de um determinado tipo de riqueza – as posses e propriedades privadas – as relações entre os indivíduos passam a ser determinadas por essa riqueza (e pela sua contrapartida: a falta dessa riqueza). Essa riqueza específica, contudo, é produto antes de ser produtora de relações sociais. Ela é produto do trabalho humano: por meio do trabalho se transforma a natureza bruta em bens que podem ser consumidos e trocados, ou trocados para serem consumidos.
No entanto, a troca dos bens produzidos pelos indivíduos que possuem em seu final o consumo, não cria riqueza. Algo produzido e trocado por um equivalente, não pode fazer com que exista riqueza por um motivo mais ou menos óbvio: não há acumulação de produtos por nenhuma das partes, ao menos que deixe de consumir aquilo que precisa para sobreviver, mas aí cairíamos no absurdo de dizer que para se ter riqueza acumulada teria que se privar das necessidades mais básicas, o que é impensável. Mas a riqueza começa a aparecer quando surge um terceiro elemento, que pode ser trocado por todo e qualquer outro produto: o dinheiro. O dinheiro pode ser trocado por um bem de consumo e não necessita ser consumido, pode ser “guardado”, acumulado. Entretanto, ainda assim teríamos um problema: dois indivíduos, um com produto outro com dinheiro, trocam entre si. O produto passa para as mãos daquele que antes tinha dinheiro, e o dinheiro para aquele que tinha o produto. O que tem agora o produto pode consumi-lo e satisfazer suas necessidades. Mas o que tem a posse do dinheiro terá que trocá-lo por um outro produto, com um outro produtor para satisfazer suas necessidades. E assim em um ciclo infinito. A primeira questão é: de onde veio o dinheiro, como ele apareceu nas transações? A outra seria, ainda: como é produzida a riqueza?
Ambas as questões podem ser sucintamente respondidas caso tenhamos em mente a história de constituição de nossa sociedade. Em primeiro lugar, a igualdade entre produtores, que levamos em consideração até aqui, é uma abstração. E é uma abstração na medida em que alguns já possuem certo tipo de riqueza e investem-na para a criação de mais riqueza. Esse investimento (e estou sendo bem sintético, tentando não deturpar o movimento da História), cria a indústria, isto é, alguém investe parte de seu “dinheiro” não em bens para consumir imediatamente, mas em produtos que podem criar outros produtos, que por sua vez podem ser trocados, sendo uma parcela consumida, outra parcela acumulada e uma terceira investida na compra de mais produtos que produzem. Esses produtos que produzem podem ser entendidos como máquinas e assim por diante. Porém, ainda não temos a resposta sobre a criação de riquezas. Se tiver um tanto de dinheiro X, para produzir qualquer coisa devo, por exemplo, investir ½ X, metade do que tenho. Desse ½ X conseguirei produzir exatamente ½ X e, portanto, na troca, receberei ½ X. Não há acumulação de riqueza. Ainda que pense que posso elevar o preço do meu produto em vista de acumular riqueza, esqueço-me de pensar que todos podem aumentar da mesma forma o preço de seus produtos (matéria-prima que compro de alguém; maquinaria que compro de outro alguém e etc.). Além disso, esqueço-me de pensar que não posso aumentar o preço a meu bel-prazer por conta da concorrência: se vendo um mesmo produto que outro pelo dobro do preço, logo não terei compradores. Mas, nesse movimento de um investir e começar e produzir em larga escala, com auxílio de máquinas, outros passam a não conseguir mais competir. Se tenho máquinas que produzem em 30 minutos, com custos mais baixos portanto, o que outros sem máquinas produzem em 8 horas, logo, meu produto terá o valor 16 vezes menor que daquele outro. Em outras palavras, para sobreviver, o outro terá que vender seu produto por aquilo que precisaria para sobreviver um dia (pensando em 8 horas de trabalho = 1 dia). Mas, para sobreviver à concorrência, terá que vender o seu produto 16 vezes abaixo do seu valor real, ou seja, igualar o valor do seu produto ao do meu produto (que foi produzido em 30 min.). Consequentemente, com aquilo que receber em troca não conseguirá sobreviver com as condições mínimas para um ser humano (moradia, alimentação, vestuário e etc.). O outro perde seus meios de trabalho e sua capacidade autônoma de produtor pois não resiste à concorrência. Em contrapartida, para operar muitas máquinas em minha indústria, não posso fazê-lo sozinho. Mas agora me vejo na condição de possuidor dos meios de trabalho e aqueles outros, que perderam para na concorrência, têm de arrumar um meio de subsistência. A única coisa que lhes resta, numa sociedade que se baseia na troca, é trocar sua própria capacidade de trabalho (suas forças físicas e mentais) por coisas ou produtos que necessita para sobreviver. Viram trabalhadores: despossuídos dos meios de produção passam a vender sua força de trabalho para alguém que possua os meios de produção. Assim, aquele que ainda possui a capacidade de produzir (o detentor dos meios de produção), tenderá a acumular riqueza. Ele irá querer acumular para reinvestir na produção, ampliando-a e modernizando-a e, por outro lado, para enriquecer enquanto indivíduo privado. No entanto, como vimos, não é possível a acumulação de riqueza por meio da troca simples com outro produtor, tampouco por meio da negação em relação às necessidades básicas. E, como vimos também, o produtor que possui maquinaria consegue produzir em menor tempo e em maior escala. A riqueza, então, tem seu primeiro fundamento: o tempo, ou, melhor dizendo, a produção em menor tempo possível. Na medida em que emprego, agora, aqueles despossuídos (dos meios de produção) em minha própria produção, e sabendo que é por meio do trabalho que se criam produtos que podem ser trocados, faço com que trabalhem para mim e me deem o que produziram para que eu troque, como minha posse. Em troca lhes dou uma parte: salário. Mas, se pagar os trabalhadores com tudo que recebo na troca, isto é, se trocar os produtos de um dia e distribuir o “dinheiro” com a parte que cabe a cada um, não ficaria com nenhuma parte, pois não produzi nada, apenas deixei que produzissem por mim. E como acumulo riqueza? Não pagando integralmente os trabalhadores, ficando com uma parte do que produziram para mim: em uma palavra, apropriação privada. Assim sendo: por dia “meus” trabalhadores produzem 8X; pago-lhes 2X e fico com 6X. Tomo uma parte do que fizeram. Se produziram 8X em 8 horas de trabalho, então estou lhes pagando apenas 2 horas. Logicamente infere-se que trabalharam 6 horas sem receber, ou seja, trabalharam de graça para a produção de minha riqueza. E são essas 6 horas de trabalho não pago que são acumuladas por mim. Portanto, acumulação de riqueza é igual tempo de trabalho não pago e, consequentemente, riqueza é produto da exploração do trabalho alheio.
A grande questão de toda essa digressão é que essa riqueza acumulada passa a determinar as relações sociais: há aqueles que possuem os meios de produção e aqueles que somente possuem sua própria capacidade de trabalho. Estes são explorados por aqueles. Consequentemente, os dominantes (os possuidores dos meios de produção), passam a determinar o andamento de outras esferas da sociedade na medida em que os beneficie ou, ao menos, não entrave seus “negócios”.
Mas ainda há outro nível por meio do qual a sociedade e as relações que nela acontecem são determinadas. Aquela acumulação de riqueza é acumulação de capital. O capital é produto do trabalho, ou melhor, da exploração do trabalho humano. O trabalho humano direto, explorado, é criador de valor (de troca) e de capital. Todavia, na medida em que todas as relações sociais tendem a ser definidas por uma única esfera – esta esfera de produção econômica –, essa esfera passa a ser o núcleo central da sociedade. Em outras palavras, a esfera de produção econômica passa a ser esfera de produção da sociedade. Por um lado, a produção de capital globalizada faz com que todas as relações globais sejam determinadas pela esfera de produção de capital. Por outro, ela toma dimensões tão amplas que saem do controle dos Homens, inclusive daqueles que detêm o poder sobre o capital (os produtores). Ainda, na medida em que determinada as relações sociais, que seriam a síntese (o resultado) do encontro entre dois indivíduos ou grupos, o capital repõe, ao seu modo, essa mesma síntese, a relação social. Dito de outro modo, é o capital – algo abstrato e inumano – que determina como os Homens devem se relacionar. É ele, agora na qualidade de sujeito primordial, que determina como os indivíduos se portarão, como se comportarão, como agirão, como pensarão, em suma, como e quem serão. O capital, numa inversão, agora produz as relações sociais, consequentemente as pessoas, à sua imagem e semelhança. E como é um produtor inumano, ele produz os Homens como simulacros: como sujeito, torna os Homens objetos em duplo sentido. No primeiro sentido, objeto como coisa: os Homens são coisificados. No sentido seguinte, os Homens são aquilo que faz o sujeito ser sujeito, isto é, relacionam-se com o Capital (o sujeito) como seu outro (como um objeto) – assim como nós nos relacionamos, por exemplo, com os cachorros e nos entendemos como humanos por sabermos a nós mesmos diferentes do animal.
Nessa sociedade, por ser composta em sua totalidade por um sujeito inumano, não há ética. E por ser o único sujeito, “pensa” somente a si mesmo, sua própria constituição e sua ampliação progressiva. Os indivíduos, por serem objeto do capital, serem produtos dele, também não possuem ética: não há como existir indivíduo ético na medida em que o outro é apenas uma ponte para a satisfação de seu egoísmo, reflexo do egoísmo do capital. E se não há sujeitos éticos, não é possível o debate entre eles, já que a ética (ou a eticidade, uma ética na qual os indivíduos se submetam a suas próprias regras, à ordem criada por si mesmos) é aquele aspecto que permeia a vida e confere sentido coletivo e humano a ela.
Voltando-nos aos parágrafos iniciais deste texto, se os indivíduos criam ideias para o debate público, e se esses mesmo indivíduos são produtos do capital – e, portanto, egoístas, fora do âmbito da eticidade, e “necessitam” somente de si mesmos para se constituírem como indivíduos – as ideias são produtos do capital. A própria Esfera Pública é um produto do capital. Ela dependeria de indivíduos éticos e autônomos. Os indivíduos não são autônomos (ou, pelo menos, não completamente; suas autonomias, quando existem, são frágeis e instáveis). Além do mais, esta esfera pública efetiva, esta que temos, é fruto da nossa falta de democracia real. Uma democracia determinada, capenga e limitada, cria seus próprios problemas de forma intrínseca. Um deles é a impossibilidade de criação ética de um debate efetivo, plena e radicalmente democrático. Não somos seres democráticos na medida em que, primeiro, somos egoístas ao ponto de qualquer outro indivíduo representar um nada, um vazio; segundo, por termos nossa própria verdade como a única, absoluta e incontestável. Mesmo pelo fato de esta nossa verdade ser uma reprodução o mais fiel de uma sociedade e de relações coisificadas, ao não percebermos isso, ela aparece como a verdade por si mesma.
A própria esfera do debate público, na qual as pessoas tendem a debater sobre assuntos da vida coletiva, não passa de uma determinação do movimento abstrato e autônomo do capital. Os indivíduos que participam da Esfera Pública dependem de uma formação cultural (não entenda formação cultural como formação acadêmica) que seria criada, por um lado, no âmbito privado da família, da escola e da educação em geral; por outro, no domínio dos conflitos entre capital e trabalho, entre capitalistas e trabalhadores. Porém, a própria família, a escola e etc., são produtos e reprodutores das determinações do capital, não seu contrário. Ou seja, não possuem a capacidade de se contrapor ao poder do capital. O âmbito do trabalho, aquele do conflito constante e latente, também tende a não mais formar por meio da experiência prática das contradições, visto que tal experiência tende a ser sobrepujada pelo controle ideológico, entendendo por ideológico toda a sociedade que procura aparecer a cada indivíduo como se fosse natural e tivesse plena harmonia, fazendo com que os problemas privados não sejam vistos como problemas políticos ou estruturais da sociedade, mas como problemas de uma “inadequação” dos indivíduos em relação ao seu “lugar de direito” na sociedade.
Ainda é necessário ressaltar que “debate” pressupõe abertura frente às contradições, às contraposições entre ideias. Contudo, com o advento da possibilidade de acesso imediato à informação por parte de qualquer indivíduo, os indivíduos podem “criar” suas próprias concepções sem a necessidade da “opinião” do outro (e não percebem que a informação a que têm acesso é, exatamente, uma dada opinião, um ponto de vista, de um outro qualquer). O interessante é que não percebem que é uma “opinião” de um outro porque, de fato, não é: toda a informação que chega à grande massa de pessoas e é prontamente absorvida, não é uma informação criada a partir de um ponto de vista de alguém: pelo contrário, é a verdade – absoluta e intocável. Esse é um dos efeitos mais perverso, e ao mesmo tempo mais perfeito, da chamada “indústria cultural”. É por meio de uma produção determinada do capital – que chamamos de indústria cultural, que é a produção da formação da subjetividade deformada dos indivíduos –, que as verdades são produzidas. Aliás, produzidas a bel-prazer do capital, à sua imagem e semelhança. E elas aparecem, é claro, isentas: são a verdade, não uma verdade.

Assim sendo, essa Esfera Pública determinada é um produto coisificado do capital. Sua aparência mais notória, a internet (as redes sociais etc.), é como a ponta do iceberg: é a aparência da aparência de uma Esfera Pública autêntica. Isto é: é um epifenômeno do capital. Ela, como local de um suposto debate, é produto, também, da falta de democracia real e, por isso mesmo, aparece como seu oposto diametral: autoritária e vazia de substância e conteúdo.

Subsolo Urbano!
No play: Milton Nascimento: Courage [1969]

quarta-feira, 16 de abril de 2014

“Intelectuais”

... a grande questão é: quem não é intelectual?
1.      Talvez a questão do cogito cartesiano não tenha sido bem explicada. O simples fato do “eu penso” já traz em si, na própria ascensão, o ocaso do indivíduo moderno: qualquer um pode pronunciar um “eu penso” aos quatros quantos. O ato de pensar se aplica, irrestritamente, a todos em relação a tudo. É um dado, inexorável e que não carece de argumentação: “eu penso” – axioma irrefutável.
2.      A ideia de uma “esfera pública”, na qual o debate se dá de forma “livre”, não implica que qualquer um possa dela participar: mesmo Habermas já coloca o adjetivo, não por acaso, “burguesa”: é necessária formação cultural...  Mesmo que reificada em si mesma, e seus participantes também reificados, a esfera pública pressupõe o mínimo domínio – ainda que alienado e circunscrito ao universo estabelecido, ao Telos dominante. Por outro lado, uma esfera pública não-burguesa pressuporia a experiência material das contradições. Tanto esta quanto aquela não se dão mais, a não ser como sombra, como “aparência objetiva” da “coisa dominante” (capital em sua forma espiritual-abstrata): reprodução fiel e insensata.
3.      E não é que já Adorno dizia sobre a semi-formação? Já que a “formação” se daria como produto da indústria cultural, da produção da sociedade alienada de si mesma, não haveria espaço mais para uma “formação” em sentido lato. Aliás, parece que o que há é a não-formação que aparece como seu oposto diametral: formação espontânea, como que por mágica, divina, nata. Mas só como aparência. Tal “formação nata” é a reprodução mais fiel da própria dominação, inclusive daqueles que pensam que “pensam”.
4.      A Filosofia, no sentido clássico, é abstrata em demasia. O filósofo, no sentido moderno – isto é, o “diplomado mas não-pensador” –, esquece-se da filosofia, exatamente por conta de seu modelo abstrato, no momento oportuno de efetivar seu conceito, na contradição, retirando-o do movimento abstrato do espírito: só profere parvoíces, bobagens, reproduz o senso comum com aparência de um “nível” mais elevado...
5.      Todo mundo pensa; todo mundo sabe de si e de todos; todos sabem do si e não se sabem a si mesmos. A verdade está aí, na cabeça dos intelectuais, esperando o momento exato para se efetivar: Adorno dizia, o momento da efetivação passou – não para esses sábios... A verdade, aliás, está no fato fragmentado, naquele que pode ser “compartilhado” de pronto: sem reflexão, sem contexto e contextualização. O “fato” refletido, pensado e recolocado em seu contexto de origem é sem graça: maçante... O que pensa: pedante. O que acha que pensa: intelectual.
6.      A verdade, ainda, é explícita: está na pseudo-reflexão daquele que diz a si mesmo que sabe: reproduz. Está, além do mais, nua e crua na frente do espectador: só há espectadores. Ela, por fim, depende da reificação do si imposta ao objeto: contrariamente a Adorno, primazia do indivíduo-coisa.

7.      O Silêncio dos Intelectuais – aqueles mesmos que são o que são – faz sentido: não há objeto a ser pensado, refletido; há fatos, estão todos aí, e os fatos não os servem, aliás, não servem a ninguém, por mais que aqueles outros, os “Intelectuais”, se achem no direito legítimo da crítica. Qualquer contraposição a estes é revertida em ad hominem, ponto final. 

Subsolo Urbano!

no play: Milton Nascimento e Lô Borges - Clube da Esquina [1972]

domingo, 12 de janeiro de 2014

Mais um ataque: Capitães-do-mato e outsiders na farsa histórica brasileira

Nota: a “ideia” de escrever o presente texto veio de dois lados: primeiro, meu amigo Clayton Rogério [Pepo] me instigou a “dizer o que estava acontecendo em SP”; segundo, a necessidade, mais subjetiva do que objetiva, de tentar entender o que (e porque, e como, e etc.) estava de fato acontecendo. É claro que o objetivo de “dizer o que estava acontecendo em SP” – uma escrita mais jornalística, mais clara – foi por ralo a baixo logo na primeira linha do texto. Saiu uma espécie de “ensaio”, de um ponto de vista um tanto quanto particular, envolvendo a sociologia e a história, tendo como fio condutor, como pano de fundo e como escopo geral, a filosofia, a dialética.
O texto foi escrito entre fins de novembro e dezembro de 2012, ainda no “calor do momento” do conflito entre capitães-do-mato e outsiders – curiosamente terminei a primeira versão em 24 de dezembro, já à noite. Meu amigo Marcelo [Tomassini] leu a primeira tentativa e, claro, sugeriu leituras que agreguei ao texto nesse meio tempo. No entanto, o texto ficou “à crítica roedora dos ratos”, ou melhor: à crítica destruidora dos ‘cavalos de troia’ (Trojan Horse), já que só o imprimi para fins de correção textual etc.. No decorrer de 2013 fui o incrementando, alterando algumas partes, revisando o texto – nada muito substancial –, o que fez que a versão atual fosse uma revisada entre agosto e setembro daquele ano.
Como não é possível perder a atualidade enquanto ela não se transforma radicalmente, o texto é atual. Talvez, os casos (explícitos) no Maranhão, os ‘rolezinhos’ em SP, e tantas outras coisas sejam desdobramentos do que tentei forjar aqui como fundamentação histórica. Ainda, como o texto é relativamente extenso e, por isso, “difícil” para ser lido no blog, abaixo vai um link para download do mesmo em PDF. O texto parte de um “ponto de vista” (por mais que eu não goste dessa expressão) crítico e, por esse motivo, é parcial e engajado (no sentido marxista e também sartreano). Fica ao critério daqueles que se dispuserem ler criticar. Aguardo por isso.
NOTA 2: é importante dar atenção às "notas de rodapé" (que aqui constam ao final do texto). Isso não é muito usual. Mas, para não perder o 'ritmo' do texto, foi necessário explanar assuntos relevantes nas notas que não poderiam ficar de fora. Por isso, aqui as "notas de rodapé" são de suma importância para o texto.


Mais um ataque:
Capitães-do-mato e outsiders na farsa histórica brasileira
Vinicius dos Santos Xavier*

Marx inicia seu 18 Brumário dizendo que os grandes fatos e personagens da história ocorrem duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.[1] A única coisa que aparece ‘limitada’ é o número de vezes. Toda encenação histórica se repete recorrentemente de maneira cômica e sórdida: a primeira como tragédia, todas as demais como farsa. Os exemplos históricos são vários, e o Brasil está cheio deles.
As manifestações de violência que assolaram São Paulo – não pela primeira vez[2] – deixaram atônitos os mais entusiastas e trouxeram à flor da pele a irracionalidade fática que procura respostas e soluções acabadas para os pseudoproblemas, ideologicamente colocados. Ressuscitam-se velhos paradigmas que pareciam há muito superados, e outros que pouco foram notados no decorrer histórico. E cabe lembrar que a violência física, que ora volta ao primeiro plano com força, não é a única que vem à tona, tampouco está isolada em meio ao processo onde vários fatos, aparentemente desconexos, também estão em cena. Aqui se faz necessário remontar à história do Brasil como objeto para que seja possível, ao menos, compreender a imanência de tais manifestações. Mesmo que arrebatadora, toda a farsa presente é decorrência e desdobramento dos desenvolvimentos oblíquos e não resolvidos – e escamoteados – da tragédia histórica. Nas entrelinhas, os problemas latentes do país e de seu povo estão todos aí, alguns mais outros menos visíveis.
A recorrência ao movimento histórico e suas manifestações, passadas e atuais, são de primeira ordem para que não se coloquem à força conceitos e resoluções pré-fabricadas e estanques, vindos de fora com o intuito de reduzir toda a movimentação legítima do objeto às categorias e conceitos a priori – isto é, falsos. Além do mais os sujeitos, sejam eles individuais ou históricos, tão falados por várias bocas, críticas e comuns, não devem tomar o lugar do objeto, a não ser quando eles mesmos, sujeitos, são tomados como objeto, mediados dialeticamente pelo processo histórico. Nesse sentido, os caminhos e descaminhos que podem fazer chegar à compreensão de fatos supostamente novos e isolados são retirados do próprio objeto, deixando-o dizer por si só à medida que se tenta apreendê-lo[3]. Isso não deve indicar que aqui as conclusões são totais ou mesmo fechadas. Não obstante, cabe ressaltar, o percurso feito pelo pensamento a fim de compreender a realidade efetiva, que aparece com uma lógica própria aos olhos, não é o mesmo da lógica dessa realidade. As manifestações mais visíveis talvez não sejam o local adequado para se fiar e fincar bandeira; em suma, a realidade, como ela aparece empiricamente, não é da mesma ordem do pensamento, ainda que este sempre se remeta, dialeticamente, àquela e a ela retorne[4].
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Desde a invasão da América Latina pelos europeus, especialmente o Brasil é dono de uma história de sucessão de domínio, exploração e exclusão. Com a introdução de especificidades daquele povo, ainda que amalgamadas ao que foi aqui encontrado e, posteriormente, introduzido – principalmente o elemento africano e, mais tarde, o elemento burguês –, sofre-se com algo peculiar. Os vários tipos de escravismo que vigoraram, além da hegemônica escravização dos povos africanos na América, traçaram uma espécie de desenvolvimento histórico ímpar. Tais elementos – por mais que aqui não seja o lugar para serem abordados de modo profundo, tão pouco levados ao esgotamento, e os quais apenas surgirão como apontamentos e pontos de confluência e base para a análise[5] – são de suma importância para se compreender a natureza do que ocorre em São Paulo em fins do século XX e início do XXI, e o que ainda está por vir. O engendramento histórico-social da violência urbana remonta, à primeira vista, à própria falta de urbanização e ao surgimento das comunidades marginalizadas e favelas com a exclusão dos povos rebaixados para a margem, ou mesmo para além dela – geográfica, econômica, social, cultural e moral –, da prematura sociedade capitalista burguesa que se erigia. Junto ao açoite da escravidão está, paralelamente, o quilombo como forma não somente de resistência, mas de criação de uma ordem fora da ordem vigente da colônia. Junto à favelização das metrópoles brasileiras, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, a organização marginal aparece como forma orgânica e legítima de associação e sociabilidade, diga-se assim, daqueles que somente existiam para o Estado e para a protoburguesia de forma pontual: para um, como excluídos e marginais, foras-da-lei e inferiores por natureza; para outro, como força de trabalho e mão-de-obra barata e descartável em um país em crescente construção – isso levando em consideração quando eram requisitados para tanto.
Paralelo ao inicial aburguesamento da sociedade brasileira, a passagem truncada da colônia para o capitalismo dependente, vem a reboque as teorias eugênicas e o movimento abolicionista – este, segundo Florestan, uma “revolução social dos ‘brancos’ e para os ‘brancos’”[6] – que intentaram ‘excluir os excluídos’ de forma permanente. As leis criadas na segunda metade do século XIX, que diziam respeito ao sistema escravista, atestam isso. E, é claro, a Guerra do Paraguai que, além de destruir aquele país de modo que eles jamais conseguiram se reconstruir, eliminou mais da metade dos pretos que aqui existiam. Além do mais, o mito de uma sociedade sem “barreiras” ou “fronteiras de cor”, fez com que, entre outras coisas, a marginalização permanente do povo recém-liberto recaísse como problema inato de preguiça ou falta de aptidão para o trabalho livre, para a acumulação de riquezas e para o progresso e evolução pessoal, jogando, assim, todo problema nas costas do indivíduo atomizado e excluído[7]. Cabe ressaltar que a tão glorificada mestiçagem brasileira, que na primeira metade do século XX marcou a literatura vigente, só se deu – e isso se esquecem vastas interpretações acadêmicas – na parte mais baixa da pirâmide social: somente entre os já marginalizados que o “cruzamento racial” ocorreu de fato[8]. Fora isso, com a introdução do elemento protoproletário e proletário europeu inflaciona-se ainda mais as recentes margens geográficas – as periferias. No entanto, mesmo tendo sido marginalizado num primeiro momento, o europeu branco, na condição de imigrante, logo iria se tornar pequeno-burguês: seu trabalho prosperou e logo ele pode se emancipar, não sem luta, e, consequentemente, assumir posição de comando já no início do século XX. É claro que não se pode generalizar essa ascensão dos brancos vindos naquela virada de século. As periferias, assim como os quilombos de outrora, também se constituíam – e constituem – de elementos brancos relegados. É necessário lembrar que o sistema capitalista, ainda que um capitalismo dependente, é tributário da exclusão, grosso modo, para aquisição e elevação do mais-valor relativo e para a vigência de uma vontade abstrata única – ideológica. Nem todos puderam se dar bem; assim como nem todos os pretos foram suprimidos da realidade brasileira. Mesmo assim, os brancos de ascendência européia adquiriram rapidamente um posto geográfico e moral, dentro das periferias, que os distinguiam do preto: a constituição do imaginário de uma “natureza inferior” conferida aos pretos pelas teorias eugênicas não foi suprimida do espírito do povo brasileiro desde então.
Aqui é importante ressaltar que o problema objetivo não se dá, simplesmente, pela “cor da pele” ou pela “raça/etnia”; não é de cunho individual ou mesmo moral. Os elementos constituintes da realidade brasileira devem ser tomados como categorias históricas e sociais e não simplesmente, como vociferam os eruditos, como indivíduos empíricos. Nesse sentido, a mestiçagem, mesmo alterando o fenótipo dos indivíduos e criando uma multiplicidade de diferenças, não altera o fator crucial do racismo: o “moreno” (mais “claro” ou mais “escuro”), o “pardo”, o “mulato” e toda a gama de “cores/definições” que surgem da mestiçagem, dos cruzamentos étnico-raciais, são todos anulados pela discriminação racial e sócio-racial. Os traços mais sutis identificam mais o ser preto do que propriamente a cor da pele: formato de nariz, tipo de cabelo, espessura dos lábios e etc., por um lado; e isso se aprofunda, por outro lado e consequentemente, dada a classe social a qual esse indivíduo pertence, identificando-se isso pelo tipo de vestimenta, o “cargo/função” no mundo do trabalho, os lugares que frequenta e etc.. Isso indica, em suma, que o racismo vai para além da simples cor de pele, por mais que as várias tonalidades da pele preta ainda sejam de interferência majoritária. Portanto, qualquer interpretação que queira ser radical – ir até a raiz – no que tange ao racismo, deve tomar o objeto pelo prisma de categoria histórico-social.
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O Feitor e o Capitão-do-mato são reencenados historicamente no palco do Estado: a polícia civil e a famigerada polícia militar. Toda a tentativa de inclusão dos inferiorizados sempre foi feita de modo bruto e autoritário. Na ordem colonial, como caça e captura dos pretos fugidos ou dos “preguiçosos” que ou insistiam em não trabalhar, ou eram açoitados por suas próprias fadigas. Na ordem protocapitalista, já na República, além da ordem do Estado a ser seguida, a implacável dominação burguesa, ainda que incipiente neste momento, se fazia vigente. Com a rápida e decadente modernização do Brasil a partir de meados da década de 1950, o país tende a entrar na roda do capitalismo mundial, já apontando para o que viria a seguir: o “globalitarismo”, como diria Milton Santos[9].
O Estado, como ratificador das vontades de uma pequena parcela da sociedade, esteve à frente de uma ordem rígida para aqueles que não faziam parte, não eram integrados a ele. A truculência com que se tratavam os que foram postos à margem com a virada do século XIX ao XX, sempre fez com que nenhuma de suas ações – do Estado –, mesmo as “positivas”, fossem, de fato, efetivadas fora do âmbito violento. Com a entrada em cena da ordem burguesa, progressivamente a integração dos marginais foi sendo feita, ainda que paliativamente, em vistas de sua anulação sócio-histórica. Somente se “integra” na medida em que não oferece mais o perigo da diferença para uma ordem pautada na mesmice. O elemento excluído, preto ou periférico, representou desde sempre uma dupla negatividade: primeiro com a criação de uma identidade negativa, pois intrínseca à sua condição de marginal; segundo, na medida em que, em vista da famigerada integração numa sociedade de classes, se negava a si próprio numa anulação de si para se tornar um ser-outro na ordem capitalista[10]. A violência do fetichismo da produção de capital vem à tona como o espírito da situação histórica. Os excluídos para se “incluírem” deveriam deixar de sê-lo – ser quem eram por definição e “natureza” –, para continuarem a ser marginais, portanto, excluídos, mas agora de modo subsumido. Aliás, esse movimento da sociedade foi relegado e por vezes completamente negado por aqueles que lutaram e lutam para a superação dessas condições de exclusão e rebaixamentos sociais – isso para não se falar na sociologia pequeno-burguesa que nega o problema do racismo brasileiro e das diferenças imanentes da condição de exclusão permanente. Por um lado, o movimento negro brasileiro sempre pecou por não levar em conta o elemento burguês e o que ele trazia de novo à cena e à condição de si mesmo[11]. Por outro lado, o movimento das esquerdas anulava a situação de exclusão e racismo, subsumindo esta à luta de classes[12], ou a tratando de modo maniqueísta.
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Ainda no início do século XX, a expressão máxima na literatura vigente era a “malandragem carioca”, como aquela que definia a marginalidade urbana das capitais (especialmente Rio de Janeiro e São Paulo): o arquétipo desse “malandro” é o preto do morro ou o sambista malquisto. Desde já, ele era perseguido pela ordem como um fora-da-ordem por natureza. Entretanto, nem se precisava ser de fato um malandro para ser caçado. Ele era a caricatura autoprojetada de si: tido como fora-da-lei, excluído desde o ventre, portava-se como tal. Já nas décadas posteriores, e também no período da ditadura militar[13], esse malandro se profissionaliza como marginal ou, de outro modo, como porta-voz[14]. Em fins da década de 1980 e início da seguinte, a expressão da insatisfação e o clamor por integração, além da denuncia da violenta ordem burguesa – tendo o Estado como escopo –, dava-se por meio do Rap. Toda a década de 1990 é marcada por isso: a violência física e simbólica era noticiada assim como sentida na pele. Em São Paulo, a constante e truculenta violência física é demonstrada por meio do “esquadrão da morte”, morte de “marginais por natureza”, do Estado: as Rondas Ostensivas Tobias Aguiar – a Rota[15]. Além disso, o encarceramento em massa marca a década. É aqui que se dá o ponto máximo de confluência: a ordem burguesa constantemente englobando a todos, reduzindo a esfera da experiência e da vida ao movimento abstrato do capital e de todas suas vicissitudes, e também à sua ordem moral acoplada a isso; e, ao mesmo tempo, a “antiordem” de marginais que se utilizavam de “métodos oblíquos” para se chegar à mesma finalidade. Tudo isso faz com que a sociabilidade se reduza a um único ponto: a dessublimação repressiva do capital[16].
Com a “popularização” da ordem de consumo, a sociedade reduzida a um único ponto – o capital como natureza – compondo uma totalidade falsa, a inclusão se dá, entre outras coisas, por meio da aparência do status, da aquisição de mercadorias. A própria vida humana se reduz à reificação e à hipóstase das formas, à mesmice. Contudo, as “possibilidades” dadas a essa integração reificada não são as mesmas para todos. Isso indica, além do mais, que é autoimposto como condição de vida, na medida mesmo em que é negado aos marginais que ocupem espaço nas formas institucionais, ou ainda apenas sendo sujeito subalterno e, mais uma vez, marginalizado. A inclusão dos rebaixados começa, por sua vez, a ser feita em meados da década de 1960 e 1970, com a massificação da educação, por exemplo. Mas, cabe ressaltar, essa abertura só se efetiva quando da pauperização das formas de inclusão e da criação de novas e mais eficazes formas de controle. Quando a reificação atinge um grau no qual é possível se controlar sem a necessidade de se excluir, inclui-se, massificando o já previamente doutrinado. Ainda assim, a doutrina se dá em relação aos fins, ao dever ser, os meios não sendo “democratizados” para tanto.
A ideia de “estado de exceção”, tão propagada pelas recentes leituras sócio-filosóficas e históricas no Brasil[17], já estava presente para os outsiders desde sempre: primeiro, com a tragédia histórica do escravismo e da inferiorização dos pretos; depois, com a segregação burguesa, conjunta à dominação abstrata do capital, em relação às periferias das grandes metrópoles brasileiras. O elemento incluído no movimento abstrato de uma falsa sociedade – composta por uma sociabilidade cínica e ideológica – é aquele subsumido: somente com a anulação sócio-histórica, ainda que precária, de sua condição de negação da suposta ordem harmônica, de sua assimilação como elemento positivo, é que a inclusão malfadada é possível. Isso é mais que perceptível: a aceitação (inclusão) leva em conta a eliminação da diferença de fato, escamoteada e suprimida, tendo-se, quando muito, uma diferença visível, mas falsa. A pseudo-diferença que permanece é uma cabeça de Jano: por um lado, ela vigia a não acusação do elemento dominante de segregação etc.; por outro, inviabiliza a visão do problema como relação social dentro de uma sociedade específica e joga com toda força o estigma sobre o indivíduo a-histórico.  Ainda assim, a luta contra o racismo em busca de uma integração, mas não de uma assimilação suporia, por um lado, uma identidade étnico-cultural dos grupos em questão, em última instância, uma consciência-de-si que, no entanto, é apenas transitória e dialética – negativa; por outro, a necessidade de uma superação da hipóstase do objeto, da sociedade e seu movimento naturalizados, suprimindo e rompendo, além do mais, as pretensas e falsas identidades criadas nesse processo.
Todavia a inclusão, mesmo reificada, não é um “privilégio” de todos os componentes históricos da sociedade brasileira. Aqui, o mito da democracia racial liga-se à própria mistificação da democracia real. A especificidade do racismo e da condição do povo preto no Brasil deve ser levada em consideração. A ideia de uma sociedade e de um Estado democráticos desconsidera a constituição histórica e eleva uma categoria abstrata e metafísica que reside somente enquanto “ideia abstrata” na cabeça das pessoas – a ideia de democracia –, ao posto de algo concreto, realmente efetivo. No entanto, por ela se reduzir a simples fatos isolados e pontuais, altamente manipulados, a própria ideia se perde enquanto efetividade e só aparece como patologia numa sociedade que fecha os olhos quanto a si mesma. Destarte, uma democracia leva em consideração a existência de indivíduos participantes e minimamente autônomos frente aos interesses e ao processo de constituição dialético da sociedade. Indivíduos que, enquanto proliferação de uma falsa ideia, existem na realidade efetiva; e na realidade efetiva só existem enquanto ideia. 
Ainda, um dado importante é notar que o Estado está pautado em um autoritarismo da via única[18]. Essa via única se dá quando o Estado (supostamente nação) ou se neutraliza ideologicamente, aderindo de forma naturalizada a uma “opção”, invariavelmente a majoritária e dominante no processo histórico, ou, ainda, quando o Estado de direito, “neutro” perante a anulação das diferenças – “todos somos iguais” – se isenta de atuar já que sua ação é inviabilizada por sua própria constituição burguesa e falsamente abstrata[19].
O racismo brasileiro, muito mais forte e pernicioso que a segregação estado-unidense e do que o apartheid sul-africano, por exemplo, efetivou-se tanto mais quanto mais abstrato foi se tornando no decorrer histórico. Além do mito da democracia racial, do paraíso racial e similares, as formas de manipulação do preto se deu pela sua anulação sócio-histórica, introjetando o racismo como cultura, como natureza. A falta de uma luta direta, de uma segregação visível, fez (e faz) com que o elemento já marginalizado fosse reduzido ainda mais, sendo sempre tratado como igual no discurso oficial e achincalhado na prática cotidiana e no discurso enviesado cínicos[20]. O Racismo brasileiro é um inimigo oculto, escondido dentro do ser estigmatizado e, por fim, transmutando-se nele próprio. A ideia de um racismo não passa simplesmente, ou não deve ser reduzido a um único fator: corpo, imaginário etc.. É no amálgama do processo histórico de exclusão e anulação que entram “dados mais concretos” que servem de aporte para a prática cotidiana. Isso indica, mais uma vez, que não é somente no processo de constituição de um Estado tal e qual ou mesmo de algum elemento externo que se devem interpretar os problemas mais latentes do Brasil: é na imanência do movimento histórico, na constituição sociocultural de seu povo, em suas entrelinhas históricas, que se deve buscar aquilo que fomenta o presente – tentando interpretá-lo em vista de sua superação prática (e também teórica)[21].
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Historicamente, há duas ordens dentro da colônia: uma, oficial e dominante; outra, ainda que singular e pontualmente submetida àquela, aparecendo como uma espécie de antiordem relegada pela ordem oficial, de sociabilidade e relações específicas, e que, intrinsicamente, existe também como resistência – cultural e social. Desde sempre banidos para além da marginalidade, sendo submetidos e “incluídos” como patologia social e, concomitantemente, como além do escopo social e de sociabilidade, os outsiders para cá trazidos ou aqui rebaixados à condição de antissocial criaram para si, sem alternativas, uma ordem avessa à ordem dominante[22]. Com o fim da colônia, esses mais que marginais, ainda achincalhados pela nascente ordem burguesa e pelo Estado são obrigados a se incluírem mas não recebem os meios para isso. Muito pelo contrário, são estigmatizados ideologicamente como inferiores já que, na ordem da sociedade de pessoas “iguais”, não conseguem individualmente forças e aptidões para tanto. Suas incursões na vida burguesa são enviesadas, oblíquas e, consequentemente, reprimidas pela força dominante. São caçados como fora-da-lei e inferiorizados como portadores natos de insuficiências genética, mental, intelectual, física e racial. As “oportunidades de inclusão” somente aparecem quando sustentadas na mesmice, sob a já reificada existência – ainda que, mesmo assim, tratados como diferentes pois desiguais por natureza (ou por naturalização do dado e estabelecido).
Outra ordem se fez necessária na colônia tanto por resistência, quanto por questão de sobrevivência. Sob uma ordem que não conferia nenhum espaço para a humanidade do escravo, surge a necessidade de transmutar e adquirir uma identidade, ainda que precária, por meio da cultura e de uma ‘resistência do espírito’; o quilombo aparece como, grosso modo, associação da resistência física e a criação de uma ordem que contestava e atribuía um mínimo de humanidade ao escravo fugido ou liberto. No pós-abolição a aglutinação nas favelas e o samba, ainda que de forma parca, davam ao elemento marginalizado um status de identificação, de lamento e, grosso modo, de resistência e criação de um espaço legítimo para si, ainda que um espaço aquém do desejado. No pós-ditadura militar, o encarceramento em massa dos outsiders e o desprezo quase que completo pelas periferias das capitais – e ainda com uma execução também em massa de marginais, fossem ou não fora-da-lei –, levou à criação de novas alternativas que, se por um lado tentavam lutar pela inclusão, por outro, diferentemente, aceitavam sua condição quase-natural de permanente exclusão e na qual apenas foram inseridos na ordem burguesa por meio da necessidade instintiva de consumo, competição e a finalidade do vencer na vida[23] – capitalistamente falando –, finalidade de alcançar o mesmo objetivo, posto no céu estrelado do capital como ciclo e busca intrínseca e natural da vida, independente do modo de vida que se leva.
Já se pode vislumbrar, por aqui, que o Primeiro Comando da Capital não é uma criação ex nihilo. O próprio movimento e desenvolvimento histórico da sociedade brasileira fomenta esse nascimento que, aliás, já estava em germe – como conceito – no desdobramento do espírito. O enclausuramento efetivo de grande parte dos marginalizados no processo histórico pós-abolição, especialmente no período de fins da década de 1980 em diante, sem um mínimo atendimento social e humanizado, produz o escopo de uma ordem que se engendrará dentro das prisões, já que o “estado de natureza” de cunho hobbesiano ao que foram submetidos necessitava, assim como, por exemplo, em Hobbes ou em qualquer um dos contratualistas[24], da criação de alguma ordem para a própria sobrevivência para além do lema da selva, para além da lei do mais forte. Uma antiordem como ordem própria e à parte nasce da necessidade histórico-social daqueles que foram submetidos, e se afundaram ainda mais, a uma dupla desumanidade: primeiro numa desumanidade da vida reificada sob o capital, da qual estão excluídos; segundo, àquela que os joga à própria sorte nas prisões superlotadas e completamente desassistidas pelo Estado e pela ordem vigente, dependendo de sua “índole”, de seu “caráter”, ou ainda de alguma conjuntura completamente contingente para sua “salvação” – individual, diga-se.
A histórica exclusão permanente, desde o período colonial, que uma parte da população foi submetida, aparece como base da criação de um “Estado paralelo”, ao mesmo tempo dentro e à parte do Estado oficial. Todas as tentativas de luta por uma inclusão na ordem, ou mesmo por um revolucionamento dela, não atingiram uma parcela dessa população de outsiders. Mesmo o movimento da sociedade do século XXI que, no Brasil, tendeu a incluir, ainda que de maneira brusca, tudo e todos[25], não atinge a totalidade das pessoas, principalmente nas periferias. Aliás, isso é um dos requisitos da ordem capitalista. Mesmo assim, no que diz respeito às periferias e ao povo que nela está no nível mais baixo, majoritariamente preto, os que foram incluídos, só o foram de modo fragmentário: as exclusões, inferiorização, rebaixamento – e agora também endividamentos – etc., persistem de modo cada vez mais bruto o quanto mais sutil se tornam. Não simplesmente uma consequência natural, contudo, os desenvolvimentos da sociedade brasileira, além dos constantes modos de escamoteação do problema levaram ao que se tem hoje. É claro que não se pode reduzir tampouco fechar conclusivamente os desdobramentos. No entanto, é evidente que não é por uma “má índole” ou por opção individual que isso tudo surge e toma corpo; e, ao contrário, não é pela brutalidade do encarceramento, do julgamento popular – a justiça que mais se aparenta à vingança[26] – etc., que o problema pode ser resolvido ou jogado para debaixo do tapete enquanto a consciência do “cidadão de bem” fica tranquila.
Uma antiordem é criação da farsa histórica. O não-atendimento do Estado e da ordem burguesa aos marginais, a constante marginalização intrínseca que vige na sociedade brasileira desde o período colonial, as ações factuais, isoladas e brutalmente inconsequentes para a resolução de um “problema” histórico estão fadadas a fortalecer ainda mais e fazer expandir esse tipo de situação. Não se trata de cair no determinismo e dizer que não havia (ou não há) alternativas. Todavia, cabe ressaltar que a hipóstase do movimento em falso da sociedade capitalista leva a desenvolvimentos cada vez mais fechados e fadados a se darem conforme o barbarismo e a desumanidade do movimento abstrato e autônomo da coisa por si mesma (capital). É, também, inconsequente e irrefletida a opção pela interpretação do problema hipostasiado por fora dele: é necessário situar-se mediado pelo processo – mesmo com o “distanciamento crítico” – para que não se coloquem resoluções pré-fabricadas, estanques e que sirvam apenas à satisfação pessoal e não à leitura do objeto.
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O Primeiro Comando da Capital surge, imediatamente, de um amálgama histórico entre isenção do Estado quanto à política prisional–encarceramento em massa–necessidade de organização interna e um “contrato social” entre os presos[27]. Desde os fins da década de 1980 e em toda década de 1990, o enclausuramento de marginais se deu na mesma medida em que se crescia a marginalização. O grande déficit econômico deixado pelo período da ditadura militar, os altos inflacionamento e desemprego ou subempregos, aliados ao grande movimento de migração norte/nordeste-sudeste desde a década de 1970 e ao aumento numérico e qualitativo das favelas em São Paulo, além do crescimento do “grande abastecimento” de drogas nas periferias, levou, mais uma vez e em contrapartida, à brutalização do Estado e do ideário burgueses em relação aos excluídos e às margens. A falta de perspectiva global e em relação à inclusão no sistema de consumo – na roda capitalista – leva a uma crescente criminalização dos outsiders. As cadeias se enchem de periféricos de todos os tipos. Logo há uma superlotação: pessoas jogadas de qualquer maneira e em uma situação qualquer, de desprezo quase que total. Concomitante ao crescimento massivo do número de prisões e de encarcerados há um aumento substancial no que tange à criminalidade e à violência direta, e também no número de mortes. As periferias, principalmente as favelas, recaem numa desorganização quase caótica por conta tanto da “criminalidade sem parâmetros”, quanto por meio da truculência sem lei dos novos capitães-do-mato.
Da mesma forma que os pretos da Colônia se refugiavam e criavam, ou se adaptavam, em uma ordem avessa a oficial ou, de outro modo, sujeitavam-se serem subjugados pela subexistência medíocre, os marginalizados de hoje aceitam a naturalização do dado como prescrição metafísica ou natureza imanente individual e do movimento da sociedade (grosso modo, o indivíduo isolado como fracassado perante a realidade), ou, ao contrário, criam formas de organização para além das formas vigentes – já que, socialmente, quase totalmente invisíveis. Mesmo que a finalidade e o objetivo sejam os mesmos – a inclusão massificada ou forçada no status quo –, faz-se necessário criar outra forma, já que não existia (e ainda não existe) espaço na ordem social imperante para a totalidade dos marginalizados. Quando muito, são levados a reboque pelo movimento da sociedade. O pelourinho de hoje não tem o tronco, a chibata e o feitor; mais sutil e não visível a olho nu, chama-se de “estilo”, “modo” ou “padrão” de vida (isso quando não se adiciona o “crescente” para indicar ascensão e, em última instância, “vitória” perante a realidade efetiva). Além de tudo um grito de protesto contra a situação vigente, contra a completa exclusão, as ações fora da lei daqueles que não tomaram nota do que era a lei, também compõe uma negatividade, mostrando uma das contradições da sociedade brasileira.
O encarceramento, e toda sua complexidade social, sem quase nenhuma assistência por parte do Estado, faz com que cadeias superlotadas tornem-se barris de pólvora prestes a explodir. Num estado selvagem, os presos passam a ser conduzidos pela lei do mais forte – aliás, mesma lei que vigorava nas ruas, nas periferias nesse mesmo período. O PCC engendra-se nesse processo de forma intrínseca, vista a necessidade de conferir uma ordem que assegurasse um mínimo de convívio dentro dos presídios. Organização, além do mais, que visava, já aqui, uma complexa rede de condutas, desde acabar com as matanças entre os presos, até dispor sobre rebeliões etc.. Em suma, uma forma orgânica de organizar de fato aquilo que havia sido posto de lado pelo Estado e aceito como “consequência natural e justa” pela maioria que estava de e por fora do processo. A completa exclusão pela sociedade burguesa e o não atendimento do Estado em relação aos outsiders gera a necessidade da criação de uma ordem à parte, própria, um “Estado paralelo” que dê conta de organizar e reger a situação caótica presente.
Num primeiro momento, um esquema hierarquizado de maneira rígida; após, algo mais “democrático” e mais a altura da situação desses outsiders[28]. Nas cadeias, as mortes indiscriminadas quase que sumiram, sendo, basicamente, criado um tribunal popular que julga e ordena, inclusive, quem e como paga suas “dívidas”[29]. Tanto dentro como fora dos presídios, a hegemonização do “Partido” faz com que a existência desses marginais se organize para além do âmbito e da tutela do Estado. Mesmo aqueles que não são “filiados”, mas são próximos ou associados indiretos, favorecem-se com a estruturação organizativa do “crime”. E, ainda mais, inclusive aqueles que nada têm a ver com o “crime”, ainda que sendo parte histórica da marginalização, são, de certa forma, beneficiados[30].
Entretanto, nem tudo são flores. Da forma quase como uma corporação que o PCC se organizou, ele hegemoniza sua presença, dentro ou fora dos presídios, por meio, principalmente, do medo. Se por um lado o Estado age brutalmente e impõe um medo sem retornos à população periférica, pela imposição do poder pelo poder, demonstração de força da ordem e destruição – assim como capitães-do-mato –, por outro, o medo trazido pelo “crime”[31] possui, intrinsecamente, uma espécie de retorno. Os chamados “acertos de contas”, por exemplo, não acontecem mais tão livremente e pela “lei do mais forte”; os “estupradores” logo somem; os assaltos e furtos são organizados, inclusive sendo feitos, às vezes, por “encomendas”; etc.[32]. Mesmo aqueles que são beneficiários indiretos (a população que não é do “crime”) e que tem em sua vida certa tranquilidade por conta disso, mesmo que não tenham consciência clara desse processo, não respeitam por princípio, mas por medo, já que a vida vale pouco e, no fim, ainda se resolve pela “lei do mais forte”. Quase como um exército mercenário maquiavélico[33], no qual não se pode confiar inteiramente, os “irmãos” se organizam quase que autonomamente, por fundamentos de conduta, tendo uma base ética própria; porém, tudo ligado ao poder de disposição da força, das armas de fogo. O medo é a figura exógena, heterônoma, que dispõe da vida de outrem por sua própria autonomia. Ainda que traga benefícios, ele poda movimentos, limita “liberdades” etc.. Todavia, quem irá se importar em ter sua liberdade limitada, já que essa liberdade tinha uma existência ainda mais circunscrita – quando existia – antes disso? Mesmo assim, ressalta-se, o medo realmente efetivo pode surtir efeito de “sociopatologia” em situações limites – que, aliás, vimos acontecer em 2006 e agora, 2012 – e encaminhar com mais afinco e força irracional em direção ao barbarismo generalizado e totalizante.
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O Levante do dia das mães, de maio de 2006, atingiu o senso comum, os desavisados e também os mais entusiastas como um raio caído de um céu sem nuvens[34]. Como primeira demonstração pública de força e poder de combate, o “salve geral” e o “toque de recolher” imposto – que fique claro, não pelo PCC, mas por conta do conflito com o Estado e com os novos capitães-do-mato –, levaram a sociedade e seus indivíduos a se retraírem ainda mais no irracionalismo e na sede de vingança contra a “criminalidade” que assolou, ex nihilo para aqueles, a cidade. Combate direto não somente entre outsiders e capitães-do-mato, mas entre o poder violento do Estado e seu alter ego, seu filho bastardo. Em suma, combate direto dentro de uma situação histórica de barbárie insustentável. Entrementes, por outro lado também demonstrou o poder organizativo e de disposição de força e rebelião contra a situação vigente, historicamente estabelecida. 
Dentro de uma situação de selvageria quase absoluta no interior das prisões – também como reflexo distorcido da barbárie social –, e todas suas complexidades e consequências, num estado de natureza hobbesiano, o “salve geral” assemelha-se à vontade geral rousseauniana[35]. De forma mais democrática que o Estado burguês, o PCC pós-2002/2003 organiza-se conforme a vontade dos “bandidos”, a partir de suas necessidades imanentes. É claro que não se pode pensar em algo estritamente racional ou criador de uma sociabilidade pacífica em todas as instâncias. Porém, pacifica, unifica e organiza os presos a partir deles mesmos, sem a necessidade de um comando superior ou externo. A finalidade ainda está na força, e aquele que não cumpre uma “missão” é cobrado junto à coerência desse sistema e por meio de seu tribunal. É democrático – mais até do que a pseudodemocracia burguesa – na medida em que as resoluções são previamente debatidas numa espécie de “esfera pública da bandidagem”. O “salve geral” é um chamado, uma conclamação a ser seguida após e por meio de aclamação geral. É patente que isso se dá para o combate com os capitães-do-mato e, como foi em 2006, uma demonstração de força e poder e a imposição sem precedentes do medo generalizado, até para fins de crescimento e coesão do próprio “Partido”, mostrando quem era e quem mandava, não aceitando rivalidade que não fosse de seu irmão gêmeo, o Estado.
Todas essas intempéries, assim também como o período de maio a novembro de 2012, evidenciam que uma sociedade que escamoteia seus problemas e só os enfrenta de maneira oblíqua, não está à altura da situação de competência histórica para resolvê-los. Ainda mais, num todo ideológico, falso por excelência, é quase que impossível os problemas serem enfrentados de forma séria e coerente. O embate entre a polícia militar e os “irmãos” confere, entre outras coisas, aval para a explicitação do poder irracional do Estado, com a matança indiscriminada, direta e desvelada – que na periferia já era desde sempre, e é, constante e velada – de marginais de todos os tipos, especialmente os pretos. A matança de inocentes, principalmente e inclusive, por parte dos capitães-do-mato, dado o aval popular e do Estado, foi o que marcou os combates de 2012[36]. Isso evidencia, por sua vez, que não se trata de combater o “crime” ou mesmo suas manifestações empíricas. Ele somente aparece como um dos fenômenos numa sociedade desorganizada e violenta por si só, dona de uma história ímpar, excludente e mal resolvida. O que acontecia na Colônia com os escravizados e com os quilombos, repete-se de forma parca e confusa na retomada da tragédia que parecia adormecida. Mas o monstro que hiberna não morre: acorda e retorna com mais força e fome.
Os novos capitães-do-mato saem à caça daqueles que transgridem a ordem burguesa e do Estado, assim como nas caças aos quilombos e aos pretos fugidos, na qual se seguia a ordem do Senhor e, em última instância, da Colônia. No entanto, o capitão-do-mato é a imagem mal feita e distorcida do poder, já que ele é parte integrante dos marginalizados, isto é, em linguagem marxiana, é um trabalhador assalariado – na ordem burguesa, mal remunerado – que garante, psicossocialmente, a passagem alienada de seu infortúnio como glória e “dessublimação” por meio de um poder não seu, impróprio. Ele reproduz a opressão quanto mais é oprimido, interna e externamente. 
Outra ordem dentro da efetiva e oficial foi, na história do Brasil, gestada para dar conta da organização do protesto daqueles que foram mais que marginalizados, seja ele – o protesto – explícito ou implícito. Na atualidade, ela não visa romper o status quo, sendo, antes disso, um produto dele, reflexo imanente da realidade efetiva. O Primeiro Comando da Capital é a imagem de Narciso dessa situação de exclusão e tentativas recorrentes de eliminação; e sendo uma peça do quebra-cabeça histórico-social, sem ele a realidade fica incompleta. A sociedade moderna-capitalista é feita por meio de contradições, e são as contradições que a impulsiona. O progresso de uma sociedade que contradiz o indivíduo, que está para além e oposta a ele, é aquela que não somente engendra as contradições macrossociais, mas é criada por elas; e, ainda, cria as contradições na realidade efetiva a partir de seu automovimento descolado do indivíduo existente. Essas contradições são vistas apenas à luz da totalidade social, ainda que essa totalidade seja falsa por ser incompleta e não ser fruto do indivíduo humano, sendo, antes, contrária a ele e subsumindo-o ao seu automovimento cego. Inevitavelmente, tal sociedade só pode caminhar para sua própria morte, ou, em outras palavras, para sua superação, pois traz em si o germe que coloca uma contradição total – não simplesmente relativa e isolada – dentro de si: ou ela se destrói por si só, destruindo sua base real mas relegada – o humano reflexivo; ou ela é suprassumida, pois traz em si o fruto de sua negação determinada: a exclusão total, que se transmuta em inclusão coisificada e forçada. Esse movimento real é o mais patente e mais esquecido, consequentemente, quando do trato frente ao problema real. Como o animal neurótico que se automutila, tanto a ordem burguesa global quanto a peculiar história brasileira tende a extinguir a si própria eliminando suas vísceras. Mais um motivo, todavia, para a sustentação de uma situação que parece insustentável.
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A farsa histórica brasileira, que se repete constantemente de maneira sórdida, está inscrita no “desenvolvimento do espírito”. Um problema estrutural, ainda que não se possa falar em totalidade, se desenrola. Os desdobramentos históricos não resolvidos, escamoteados, falsificados e transmutados em ideologia permeiam o presente como uma sombra real e efetiva que assola o espírito dos vivos, uma situação insustentável que se arrasta em lamento, que como o canto dos escravos nas plantações – ou nas “plantations” –, devoram e regurgitam a tragédia com toda força. Não se trata, portanto, de se posicionar frente à situação como querem os mais céticos e entusiastas. Isto é falso e, não obstante, autoritário na medida em que confere realidade ao factual e nega a presença histórica do espírito cambaleante. Posicionar-se frente à dualidade é desumano e cômodo, ao mesmo tempo. Tão somente no desarranjo da situação, na desconstrução – ainda que teórica – do estabelecido, da hipóstase do objeto é que se pode se dispor radicalmente frente ao dado. Posicionar-se, nesse sentido, é não se acomodar em um dos lados, mas combatê-los ambos, mostrar sua falsidade e superá-los. A violência não está tão à vista: o que aparece como efetivo e fático, é a expressão da positividade do capital e do desenvolvimento oblíquo histórico-social. A violência é aquela do movimento da realidade efetiva, da história. A situação não se resolve, e o problema não some, pelo grito de indignação – e tal grito de indignação é, quando muito, desumano por si só. A barbárie está posta; e se arrastará com toda força do espírito. A história atravessada, sórdida e cômica, atesta isso. Antes de qualquer coisa, até mesmo antes de propor resoluções como o Barão de Münchhausen – que sai da lama puxando-se a si próprio pela cabeça –, é necessário que os mortos enterrem seus mortos[37].


REFERÊNCIAS

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* Graduado em Filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.

[1] “Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Tradução e notas: Nélio Schneider; prólogo: Herbert Marcuse. São Paulo: Boitempo, 2011.

[2] Em 2006 houve o chamado “Levante do Dia das Mães” que, no dia 15 de maio, com a saída de encarcerados por conta do dia das mães, colocou a cidade em “pânico” com um toque de recolher que a fez, literalmente, parar. Mesmo assim, Paulo Arantes afirma que foi a segunda vez que São Paulo parou, referindo-se à greve de 1917. Cf. Duas vezes pânico na cidade. In: ARANTES, Paulo Eduardo. Extinção. São Paulo: Boitempo, 2007, pp. 295-311.

[3] A tese adorniana sobre a “primazia do objeto” aqui é de suma importância. Para Adorno, inclusive o sujeito deve ser apreendido em sua condição de objeto, mediado socialmente. Cf. Sobre sujeito e objeto. In: ADORNO, Theodor W.. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Trad. Maria Helena Ruschel. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, pp. 181-201. Além desse outro texto é igualmente essencial. Cf. O ensaio como forma. In: ADORNO, Theodor W.. Notas de literatura I. Trad. e Apresentação: Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003, pp. 15-45.

[4] Na Introdução aos Grundrisse, Marx mostra como a ordem da realidade não é a mesma ordem do pensamento, por mais que o pensamento tente apreender a realidade e a ela retornar. Cf. MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Tradução de Mario Duayer, Nélio Schneider (colaboração de Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman). São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011. Há, igualmente, uma bela tradução inglesa feita por Martin Nicolaus: MARX, Karl. Grundrisse: foundations of the Critique of Political Economy. Tradução e prefácio de Martin Nicolaus. Londres: Penguin Books, 1993.

[5] Para uma melhor e mais profunda abordagem que satisfaz a presente e pretensa análise Cf. FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Prefácio de José de Souza Martins. 5. ed.. São Paulo: Globo, 2006.

[6] FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil, op. cit., p. 36.

[7] Sobre o Mito da Democracia Racial, e suas consequências – apesar de não serem satisfatórias as conclusões extraídas e alguns desenvolvimentos do texto –, cf. GUIMARÃES, A. S. A.. Democracia racial. In: http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/Democracia%20racial.pdf, acesso em: 26 nov. 2012.

[8] Apesar de Gilberto Freyre, entre outros, afirmar que a miscigenação ocorria dentro da Casa-Grande, no presente texto esta tese é refutada tendo em vista que a miscigenação efetiva, aquela que não rebaixa ou exclui totalmente o elemento miscigenado ou não-branco, não ocorre dentro da Casa-Grande, tanto a efetiva quanto a simbólica.

[9] Cf. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2008. Aliás, fora o objeto de análise ser outro, assim como o contexto, tese muito próxima da teoria marcuseana acerca do homem unidimensional. Cf. MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Tradução de Giasone Rebuá. 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979. 

[10] Florestan sustenta a impossibilidade do negro se integrar como tal na sociedade de classes. Pode-se dizer, aqui, que essa impossibilidade se dá através de uma espécie de “dialética negativa” da condição histórico-social do negro. Cf. FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. 3. ed.. São Paulo: Ática, 1978.

[11] Importa indicar que esse problema também é efeito da rigidez do marxismo tradicional que, antes, retira a dialética do capital de cena em uma leitura reducionista de Marx, baseando-se, principalmente, na simples luta de classes. Para uma maior dimensão e aprofundamento dessa problemática, cf. POSTONE, Moishe. Necessity, Labor, and Time: A Reinterpretation of the Marxian Critique of Capitalism. In: Social Research, Vol. 45, nº 4, winter 1978, pp.739-88. E, do mesmo autor, Time, labor and social domination: A reinterpretation of Marx’s critical theory. Nova York: Cambridge University Press, 1993. Para uma dimensão da luta teórica contra o reducionismo da teoria marxiana, cf. LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. Tradução: Rodnei Nascimento; revisão: Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2003. E, também, cf. KORSCH, Karl. Marxismo e filosofia. Apresentação e tradução José Paulo Neto. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2008. Além, é claro, dos textos do próprio Marx.

[12] Somente muito tardiamente, principalmente a partir da década de 1970 em diante – ainda assim de forma tímida – começou a se cogitar a ligação prática entre o “problema do negro” e a exclusão capitalista. Problema que continua até hoje. Por um lado, o movimento negro leva em consideração o “sujeito empírico”, o negro real e existente fático, não o tomando como categoria histórica e como problema social. Por outro lado, as esquerdas ainda necessitam de um “setorial de negros”, na medida em que a problemática se isola, já que parece ser, de fato, um “problema à parte”. Nem aqueles que lutam conseguem suprimir a “especificidade” da situação, tendendo ainda a sectarizar o “elemento negro” e seu problema como um apêndice, ou como um problema a ser tratado para além da situação de classes, esta não importando.

[13] O que aqui talvez seja polêmico, porém, grosso modo, real, é que a ditadura militar “não chegou” às periferias e à favela. Todo o problema da ditadura só foi percebido por aqueles que de fato eram beneficiários da ordem ou mesmo contra ela. Os “marginais” estavam, todavia, para além dela. Para esses excluídos por natureza, a militarização – mais uma vez! – da sociedade era apenas a extensão para o restante daquilo que, grosso modo, já se vivia.

[14] Bezerra da Silva é o grande porta-voz do morro nesse período. Para uma maior dimensão, cf. Bezerra da Silva: Onde a Coruja Dorme. In. http://www.youtube.com/watch?v=ItdIRrJjZUc
[15] A gestão municipal de Paulo Maluf é o ápice desse momento.

[16] Sobre “dessublimação repressiva”, confira a interpretação que os pensadores frankfurtianos fazem, a partir de Freud e Marx, da ordem burguesa da metade do século XX. Cf. MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Op. cit.., especialmente o cap. 3 da primeira parte. E, também, MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 7. ed.. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

[17] Vide a Coleção Estado de Sítio, organizada pela Editora Boitempo e coordenada por Paulo Arantes com textos que tratam da problemática a partir da virada de milênio.

[18] Cf. MUNANGA, Kabengele. Todos no Mesmo Barco. In. Revista in Tolerância: Laboratório de Estudos sobre a Intolerância – LEI/USP, vol. 1, nº. 1, jan.-jun., São Paulo, 2010, pp. 56-69.

[19] Um “Estado laico e democrático”, por exemplo, que não adere a nenhuma religião e, além do mais, saúda a liberdade de expressão como uma de suas grandes características, deve deixar o ódio e a intolerância religiosa tomar conta do debate público? É o que acontece por ora no Brasil com a questão referente à homossexualidade, como um dos exemplos. Um Estado que não se coloca, já que não tem como se postar diante de uma discussão e de uma prática na qual ele se hipostasia a priori, não é um Estado laico e democrático. Antes, é uma espécie de Estado “abstrato”, apto a aceitar quaisquer embates e, assim, ficando de mãos atadas. De certa maneira, a anulação política do Estado por outras forças (economia, principalmente) é um dos problemas que o levam a inação. Quanto a isso, é interessante o texto de Habermas – apesar dos pesares – sobre a “constituição da Europa”. Cf. HABERMAS, Jürgen. Sobre a constituição da Europa: um ensaio. Trad. Denilson Luis Werle, Luiz Repa e Rúrion Melo. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.

[20] Além da exclusão institucional a que o elemento preto foi submetido, a força violenta da exclusão que recobre e dá o tom do racismo à brasileira não é o da eliminação física; antes, elimina-se o espírito e reduz-se o elemento preto ao barbarismo da condição inumana do objeto de chacota, inclusive para os próprios pretos, que não se veem refletidos nesse processo. Basta, como exemplo simples, conferir o “humor” brasileiro e o seu elemento central; ou mesmo as telenovelas. Ainda, se se quiser aprofundar, a maneira como as religiões de matriz africana e as vertentes culturais que não foram assimiladas são tratadas mostra o quanto o “perigo da diferença”, criado como ideologia histórica que é a história do Brasil, é permanentemente desconjurado e tentado a ser eliminado.

[21] De certo forma, as tentativas da antropologia e das teorias raciais hoje se aproximam muito de um debate em torno da ideia de “esfera pública”, ainda que grosso modo, assemelhada à teoria habermasiana de esfera pública, debate público, democracia etc.. Cf. HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Trad. Flávil R. Kothe. 2ª ed., Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. Também, HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e interesse. Introdução e Tradução de José N. Heck. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987; e, HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2009. Isso, na presente interpretação, constitui um problema na medida em que relega, mais uma vez, a primazia do trabalho alienado e da constituição burguesa, do fetiche capital e da reificação. Uma esfera pública que trate de cidadãos sem indivíduos é vazia de conteúdo por si mesma, na medida em que aqueles que participam dela – os indivíduos – estão subsumidos à ordem abstrata do capital. No entanto não se quer problematizar isso aqui, fugindo ao tema central abordado, ainda que seja importante pontuar a necessidade de uma guinada em direção à tentativa de compreender, mesmo que fragmentariamente e tendo em vista as peculiaridades históricas, a totalidade do capital – falsa – e uma teoria do indivíduo e da individualidade como objeto mediado e suprimido numa sociedade abstraída de si.

[22] Grosso modo, essa ideia de se criar outro tipo de sociabilidade dentro – e, ainda, majoritariamente, subsumida pela sociabilidade oficial, é tratada por Oskar Negt num pequeno texto. Cf. NEGT, Oskar. Formas de decadência da esfera pública burguesa e o problema de uma esfera pública proletária. In: ___. Dialética e História: crise e renovação do marxismo. Trad. Ernildo Stein. Porto Alegre: Editora Movimento, 1984.

[23] É necessário que não se confunda o “instintivamente aqui colocado com algo natural e intrínseco ao ser humano em geral. Aqui, os instintos também sociais, isto é, reificados e equalizados com o movimento abstrato do fetiche do capital. É, grosso modo, a externalização de instintos previamente equacionados com a reificação social – em certo sentido, é dessublimação repressiva.

[24] Cf. HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed.. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os Pensadores). E, também, cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social: princípios do direito político. Tradução de Antonio de Pádua Danesi; revisão da tradução Edison Darci heldt. 4ª ed.. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Especialmente o que tange à passagem do estado de natureza ao estado civil e suas consequências. 

[25] Vide, por exemplo, as “políticas compensatórias” e “assistenciais” da gestão federal de Lula, além da massificação inclusiva pela ordem de consumo e da pseudo-mobilidade social – tão profanada pelos entusiastas e pela grande mídia. 

[26] Segundo uma pesquisa feita pelo Datafolha, divulgada em novembro deste ano, 43% dos paulistanos considera que policiais que matam “bandidos” devem ficar impunes. Ou seja, isso demonstra o quanto ser “fora-da-lei” depende de um ponto de vista: de qual lado se posta. E, ainda, o quanto, tacitamente, se aceita a violência descabida e factual, dependendo apenas do lado do qual provém e de “quem” julga, no seu íntimo, o “bandido”. A sede de justiça imediata e irracional que emana do senso comum e se une, como irmã mais velha, à vingança e ao sadismo, é, de certa forma, resultante de um processo histórico bruto, no qual todas as relações são tratadas como “exceção” e prostradas para além de qualquer parâmetro racional ou racionalizável, legal ou ético. Cf. Para 43%, PM que mata bandido não deve receber punição, In: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1190938-para-43-pm-que-mata-bandido-nao-deve-receber-punicao.shtml, de novembro de 2012.

[27] Não só entre os presos, mesmo que seja o mais evidente e o “estopim” do processo. Também se trata de, além, “organizar a vida” fora das prisões, o “movimento” etc., dos “bandidos” e, de certo modo, de parte das periferias.

[28] Quanto a isso, remeto à excelente e elucidativa entrevista com quatro pesquisadores sobre o assunto: 16 perguntas sobre o PCC, In: http://blogs.estadao.com.br/crimes-no-brasil/2010/01/23/16-perguntas-sobre-o-pcc/, de janeiro de 2010. O PCC, segundo eles, tinha no começo uma hierarquia no qual alguns mandavam e outros eram “lagarteados” – feitos, basicamente, de massa de manobra. Enfim, quando da derrubada desses, em fins de 2002 e início de 2003 – dizem os pesquisadores –, a organização se democratiza. O salve geral é um reflexo disso: grosso modo, não é uma “ordem” de um superior, mas uma aceitação refletida e reflexiva de certas condutas e objetivos, imediatos principalmente. Essa organização não tão hierarquizada – na qual não há, diferente do que prolifera a grande mídia, um chefe ou um grupo que comanda –, cabe ressaltar, atende muito mais diretamente a necessidade histórica de organização dos “bandidos” (bandidos, aqui, não é pejorativo). Uma ordem rígida e que só “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é quase um reflexo da ordem do Estado e, desse modo, não atenderia a necessidade de outro tipo de organização, latente e historicamente requerida. Pautado em quatro diretrizes basilares – “Paz, Justiça, Liberdade” e, após a guinada, “Igualdade” – o PCC se estrutura de forma a seguir crescendo e englobando vários âmbitos da vida social relegados pelo Estado.

[29] Aliás, o rapper Dexter, ex-presidiário saído a pouco do confinamento, relata como a situação nas prisões melhorou, no que tange ao assunto ora tratado, substancialmente. Aquilo que no fim da década de 1990 a música “Diário de um Detento”, do grupo Racionais MC’s, relatava, transmuta-se de forma significativa. Cf. a entrevista com Dexter: O resgate do soldado Dexter, In: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-resgate-do-soldado-dexter,964340,0.htm, de novembro de 2012.

[30] Exemplos: 1. Seu José (fictício), dono de um pequeno comércio próximo a uma favela na periferia de São Paulo, não é mais assaltado vez ou outra. Ele tem uma espécie de proteção por conta da organização do “crime”. E mesmo quando é assaltado, sabe a quem recorrer e tem confiança que aquilo que lhe fora espoliado será ressarcido, devolvido e o “sujeito” que o cometeu será punido. 2. Dona Maria (fictícia), moradora de um barraco em alguma favela, não se depara mais, vez ou outra, com um cadáver em seu beco ou mesmo em sua porta, ao amanhecer quando sai de casa para trabalhar. 3. Para qualquer morador da periferia, especialmente homens jovens e negros, não é mais tão inseguro andar pelas ruas à noite – ao menos que se depare com uma viatura da polícia, ele sabe que estará seguro. Isso não quer dizer que a violência não acabou. Muito pelo contrário! Contudo, para quem vive – ou tenta sobreviver – na periferia, a situação fica ruim, quase que só e principalmente, por dois aspectos: a) por causa dos “nóias”; ou, b) por conta da presença da polícia.

[31] Cabe lembrar que “crime”, “Partido”, “irmão”, “bandido”, “missão” aqui estão entre aspas, pois, é assim que se referem a si mesmos. Aliás, isso é lugar-comum para qualquer jovem da periferia, faça ou não parte do “crime”.

[32] Vide os exemplos da nota 28.

[33] Sobre isso, cf. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser; revisão da tradução de Zélia de Almeida Cardoso. 3ª ed.. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

[34] Cf. o prefácio à 2ª edição de O 18 de brumário, de Marx, op. cit..

[35] Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques, op. cit..

[36] A grande mídia e a “mídia especializada” não perderam tempo em tomar uma “posição firme” diante dos ocorridos deste ano. As propostas de “resolução” do problema são várias e variadas, todas elas postas sobre o problema, de forma positivista, factual. Não se pensa sobre as origens e, de outra forma, não se atenta para o velho ditado popular “violência gera mais violência”, sendo aquelas propostas todas elas tendo por princípio a necessidade de força do Estado em vistas de combater a força dos “bandidos”. Ou, também, do enfraquecimento do Estado frente a esse “fenômeno acidental”. Tratado como um problema de “(in)segurança pública” e não como um problema estrutural e histórico-social, os fenômenos “PCC”, “toque de recolher” etc., são vistos como uma questão pontual. Cf. A (in)segurança pública em São Paulo, In: http://www.teoriaedebate.org.br/debates/inseguranca-publica-em-sao-paulo, de novembro de 2012. Por outro lado, há, afirmam alguns, um “código de conduta” implícito entre PCC e polícia que foi por ora rompido, acarretando em novos ataques. Retaliações, vinganças etc.. Cf. Mortos tiveram ficha criminal checada antes de crimes, diz delegado, In: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1189393-mortos-tiveram-ficha-criminal-checada-antes-de-crimes-diz-delegado.shtml, e Mapa de homicídios em SP mostra “efeito retaliação” e levanta suspeita sobre grupos de extermínio, In: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/11/23/coincidencias-em-locais-de-homicidios-em-sp-apontam-para-acao-de-grupo-de-exterminio.htm, ambos de novembro de 2012. Toda a irracionalidade e o poder acima da lei que foi conferido – e é garantido por aclamação popular – aos capitães-do-mato e ao Estado, gera o desconforto daqueles que não conseguem ver para além do factual. Além, é claro, das análises que levam em conta toda a parafernália transferindo o ponto de incidência não apenas ao PCC, mas mostrando como também a polícia e o Estado são “criminosos” tanto quanto. Cf. Só o PCC ameaça São Paulo?, In: http://revistaforum.com.br/blog/2012/11/so-o-pcc-ameaca-sao-paulo/, e Por trás da guerra nas ruas de São Paulo, In: http://ponto.outraspalavras.net/2012/11/01/por-pm-e-alvo-unico-pcc/, ambos de novembro de 2012. Até a mídia internacional se debruça sobre o fenômeno “First Command of the Capital” o chamando, assim como a mídia local, de “facção” (gang). Cf. São Paulo security chief Antonio Ferreira Pinto resigns, In: http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-20424681, de novembro de 2012. Cf. também: Descontrole da PM volta a pressionar Alckimin, In: http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/87601/Descontrole-da-PM-volta-a-pressionar-Alckmin-Descontrole-PM-volta-pressionar-Alckmin.htm, e Com menos armas, Brasil tem 3 vezes mais mortes a tiro do que os EUA, In: http://www1.folha.uol.com.br/bbc/1202986-com-menos-armas-brasil-tem-3-vezes-mais-mortes-a-tiro-do-que-os-eua.shtml, ambos de dezembro de 2012. É claro que a irracionalidade vai além. Uma das propostas do candidato à prefeitura de São Paulo neste ano, José Serra (PSDB), era a de tratar alunos da rede municipal como potenciais criminosos. Ora, qualquer um que não seja tolo o bastante sabe em direção a quem e a quais locais vai esta proposta – e é claro que isso não é um mérito de Serra; muito pelo contrário, é uma amostra do “espírito da situação”. Cf. Serra propõe tratar alunos como potenciais criminosos, In: http://revistaforum.com.br/blogdorovai/2012/10/22/serra-propoe-tratar-alunos-como-potenciais-criminosos-na-cbn/, de outubro de 2012. O que fica evidente é que não existe problema efetivo, já que ele não é atacado efetivamente. O que existe é um pânico transmutado em raiva irracional, um problema criado e existente apenas na cabeça dos mais céticos e, por isso, atacado de maneira apenas a satisfazer o falso ego e a vontade de vingança e justiça (!) desses selvagens sociais. O papel da mídia tem sido duplo: trazer confusão e pânico; e conferir o aval necessário para a matança indiscriminada, para a continuidade da guerra civil absurda que se instalou na farsa histórica brasileira.


[37] MARX, Karl. O 18 de brumário, op. cit..

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