segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Incursões no mundo cotidiano: notas sobre o “Criança ‘Esperança’”

Chega nessa época do ano – e a cada ano o negócio começa ‘mais cedo’ – é incrível como a picaretagem com roupagem assistencialista se difunde. E, antes de qualquer coisa, é necessário ressaltar alguns aspectos que parecem isolados, mas são centrais: gente sorridente, tipos de gentes, esperança (qual tipo?), função social da propaganda, da assistência etc..
É interessante notar – é claro que é imprescindível ser ‘chato’, ter um olhar ‘meio-aguçado’ – como é seletiva a programação das mídias. Aliás, é necessário lembrar que essa programação é a da própria vida cotidiana da população. Desde os programas de pseudo-humor (que são racistas, homofóbicos, xenofóbicos etc.) – e ainda dizem que deve haver uma espécie de ‘licença moral’ para esse tipo de transmissão ideológica da dominação. É interessante que os ‘intelectuais pequeno-burgueses’ em suas afazia acadêmica e o senso comum concordam, e riem!, com isso –, então, desde esses programas aos enlatados humorísticos norte-americanos da primeira década, às novelas ‘cômicas’ e outras mais, existe algo de muito significativo. Toda vez que o assunto é pobreza ou mesmo sua suposta erradicação, o número de pretos extrapola a ‘cota’ pedida por lei para propagandas e comerciais em geral. Em alguns casos o próprio ambiente é ‘preto’, isto é, o nordeste, as favelas do Rio, de SP... Por outro lado, quando um programa, geralmente ‘gringo’ – exceção feita a alguns mais recentes, que não cabem no ‘estereótipo’ do que vem a seguir –, tem uma família majoritariamente preta, é, fato!, ‘humorístico’. Não precisa ir longe para constatar isso. Nos nacionais, o ser preto é usado[1] – isso mesmo: usado, com todas as letras!, e inclua-se aí os povos do norte e nordeste – em forma cômica. Isso indica, como já disse, algo significativo: a inferiorização estereotipada e eugênica. Tô pegando pesado? Não, com certeza não. Tudo o que teve início, aqui no Brasil, na era da Colônia, precisamente a partir de meados do século XIX em diante, ratifica-se hoje, no aqui e agora. Não me importa aqui, cabe ressaltar, compreender ou analisar alhures – o foco: Brasil. Enfim, o trato ideológico, racista e opressor, dado ao cotidiano – naturalizado, evidentemente –, é o que mais pesa; ideológico, não cínico. O ser preto não tem identidade. Isto é, sua identidade que tenta se criar por meio da negação[2], é sempre o motivo de seu ‘rebaixamento ideológico’. É por meio de sua resistência – ou mesmo por falta de sentido – que ele é colocado ‘no seu devido lugar’ (diria um reacionário do início do século XX... ou mesmo do XXI!). Incluso, está o ódio, principalmente da ‘nobre burguesia paulistana’, ao nordestino (entenda-se: nordestino = todo aquele que veio de algum canto do norte ou nordeste do país). A combinação perfeita é a imagem do preto, de cabelo crespo – invariavelmente desarrumado ou sujo –, roupas esquisitas, trejeitos sintomáticos, aparência de um primitivo, linguajar peculiar etc., e a imagem, conexa, do nordestino (‘baiano’, dizem). Não se precisa de exemplos; basta olhar para o lado, a qualquer momento do dia, que você ou o achará ao seu lado, ou em sua mente.
Dentro disso, por outro lado, há a figura do gay. É interessante também como é tratado. Caso seja um gay (no caso, um menino, homem) corriqueiro, da rua, ele é representado pelas mídias – e pelo senso comum – todo afetado, como se possuído por uma doença ou um demônio (e a demonização nem precisa ser dita, visto o crescimento do protestantismo em sua versão ‘populacho 2.0’ no Brasil, nos últimos 40 anos). Agora, se ele for branco e for da emissora hegemônica, aí é diferente: ele é ‘aceito’... (olha que bonitinho!). No caso das mulheres, o que parece ser melhor, é talvez pior. Ela pode ser gay, morar junto à outra, passear na rua sem, em sua maioria, ser agredida – ao menos fisicamente. Mas, há algo que pode ser pior que a violência física: a simbólica. Se ela tiver os ‘trejeitos não aceitáveis moralmente’, é logo submetida a algum tipo de ‘escrúpulo inescrupuloso’ (e isso me faz lembrar o “Clockwork Orange”).  Mas, não é disso que quero tratar.
Essa época do ano, principalmente quanto mais se avança para dezembro, o que vira para o chamado ‘brasileiro médio’ (e eu nunca entendi o que quer dizer exatamente esse médio, pois não muda p***a nenhuma) é o ‘senso de solidariedade’: todo mundo fica bonzinho; todo mundo torce contra a vilã da novela; em favor do amor entre os mocinhos; vibra com a ‘ajuda mútua’ – pois, diria alguém, é preciso ajudar o próximo. E, claro está, a maioria, de massificada que é, não percebe que a telinha fica mais preta. Pois, falar de pobreza, de sua erradicação, de ‘esperança para um novo milênio’ (escuto essa baboseira desde o final da década de 1980), de solidariedade com os ‘necessitados’ e algo mais, é falar, ou melhor, é transbordar preto da telinha. E a propaganda é incisiva: faz-se algo; e esse algo ou é treinar ‘criança macaco’ – pois as propagandas do “Criança Esperança” são com negrinhos pulando em chão de terra batido em alguma favela do Brasil –, ou dão violino e tambores para crianças tocarem em algum ‘projeto social’ financiado pela Unesco via “Criança ‘macaco’”. Por um lado, o problema está longe; por outro, a estereotipação mora ao lado, às vezes junto. E assim tira-se um peso do Estado; joga-se na mão do indivíduo isolado que ‘deve fazer sua parte’. Entra em jogo um intermediário chupim, com cara de ‘Esperança’ de um mundo melhor, mais ‘harmônico’ (talvez como as ‘harmonias’ de Schoenberg). Esse intermediário chupim tem um ‘testa de ferro’ como mecenas. E, irônico que deve ser, o mecenas é o ‘nordestino outrora estereotipado’; seu nome: Didi Mocó (e algo mais)! O que se perde de vista, e isso ficou claro hoje – hoje, digo, pelo menos para mim –, quando o clube esportivo da hegemônica midiática trazia estampado em seu peito o símbolo: “Criança ‘Macaco’”. O desvio de “capital público” – que vai além do dinheiro, envolve a vontade, as aspirações, desejos, posições políticas etc. de todo um povo –, a isenção de impostos, a corrupção das mentes e aspirações por meio de sua reificação (e isso é um dos momentos da ideologia burguesa) etc., tudo isso é ‘conquistado’ numa única jogada de ‘marketing’ – poderíamos dizer. Mas vai, também aqui, além do marketing. Todo o movimento do capitalismo, da supremacia burguesa, é como um ciclo. E esse ciclo precisa desse momento ‘solidário’ para se completar. E não se trata de uma posição ética; é uma opção política, um ‘ordenamento’ do capital.
Crianças pulando como macacos de galho em galho não justifica os milhões arrecadados. E mesmo que justificasse, não ratifica a prática de isenção social do Estado, tão pouco dos indivíduos que, até a solidariedade, terceirizam. É justificável apenas a um estamento: para a burguesia, que se privilegia com a reiteração da coisificação dos indivíduos. Quanto mais se preocupam – o tal do ‘homem médio’ – com suas medíocres existências e transmitem suas responsabilidades, sua práxis, para um mecenas abstrato (leia-se: “Criança ‘Macaco’”), mais o capital gira em falso alimentando a si próprio sem estorvo. A assistência social é prestada, sim. Mas não aos pretinhos ‘beneficiados’ pelo ‘projeto’. Ela presta ao capital em geral, à burguesia em particular; ao movimento da sociedade como ‘natureza’ ou ‘naturalização’ (“é assim e assim será para sempre”). A função social da propaganda é não distinguir entre o isso e o aquilo. É deixa-los à opção da autonomia do indivíduo, que pode, não obstante, escolher entre X e Y. E, concomitante, que não percebam que o alfabeto ideológico só tem uma letra (portanto, X e Y = 0). Quanto mais ‘macaquinhos’ pulam – enquanto nas propagandas de pastas de dentes, de planos de saúde, de ‘família feliz’ que come margarina e acorda sem ‘remela’ nos olhos, propaganda de cerveja etc., são gente ‘do bem’, ‘bonitas’, ‘modelos a serem seguidos’, em uma palavra, brancos jovens, ‘superiores’ pois perfeitos –, mais e mais a dominação dá um salto qualitativo.
Claro está, não é, como querem os ‘pensadores’ pequeno-burgueses, um ‘reflexo’ do que ocorre na sociedade, isto é, o retrato do cotidiano. É, sim, algo surgido e extraído do cotidiano e que repõe esse cotidiano; e esse cotidiano, já que reposto pela propaganda, em última instância, pelo capital, é um fragmento reificado do fetiche social. Essa conversinha “o povo que escolhe isso” é positivista, factual. Não é preciso lembrar que a leitura, aqui, é dialética.
Enfim, o “Criança ‘Macaco’” sempre será “esperança”, pois, se ela é a última que morre, o capital e seus mecenas a farão eterna, pois é ela que ratifica a prática picareta e dá aval para que a usurpação seja ‘legal’, ‘legítima’, em uma palavra, ‘solidária’. Enquanto houver crianças saltitantes e serelepes como macaquinhos que são ‘ajudados’ e tirados – segundo a bola de cristal deles – do mundo das drogas, da criminalidade (é, sim, pois, preto e pobre virará o que quando crescer – se crescer? Se não tiver um auxílio – assim como deram aos nativos daqui nos séculos XVI e XVII – a sociedade nunca irá para frente!), haverá, isso é certo, algo com que se preocupar. E, assim sendo, haverá algo com que desvirtuar ideologicamente e corromper – pôr outra(s) no lugar – o imaginário do senso comum, do ‘brasileiro médio’.

E, claro, revoltado sou eu. Temos sempre que ajudar o próximo. O individualismo egoísta é um erro. E o posicionamento político é só, como dizem, “sua opinião”...

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[1] Nem é preciso lembrar que o grande ícone do humor brasileiro nos últimos tempos é Mussum. E, claro: cômico, pois preto, cachaceiro, cheio de trejeitos, linguajar peculiar e outras coisas mais. Sua inferiorização marca uma geração, ou mais. Mas, como falar isso? Por que falar isso? “Ele era engraçado e ponto final!”, diria alguém. Assim como engraçado era ver 4 pessoas, de fato, engraçadas: o mais engraçado o já citado Mussum; seguido de um cheio de trejeitos “gays”, como o gay é representado; o outro, o líder – e o líder não pode ser preto, tampouco gay! – nordestino, também cheio de trejeitos (mas não gay, nem preto). E o quarto? Bem, o quarto – Dedé – um zero à esquerda: não era engraçado pois não tinha a ver com o que tem graça no Brasil; sem trejeitos, sem sotaque, sem ‘cabeça chata’, branco etc.. Por que ele seria engraçado? Nem ‘qualidades’ ele possui...

[2] Já tratei um pouco sobre a ‘identidade negativa’ em outro lugar. Cf.  http://dialogosdosubsolo.blogspot.com.br/2012/05/no-calor-do-momento-sobre-o-rap.html



Subsolo Urbano!

domingo, 13 de maio de 2012

No calor do momento (sobre o Rap)

[NOTA: Aqui, as discussões sobre o que vem a significar esse movimento no início do século XXI. Extraído de uma proposta de explicação, de meu entendimento, sobre minha "visão pessimista" e "intransigente" ao que constitui todo o movimento da realidade, afinal. Por mais que apenas um fragmento, a crítica está feita. O texto foi, como disse, extraído de uma discussão "no calor do momento", escrito à pauladas - e numa paulada só! - e se encontra, no mais, no Blog do meu amigo Igor Muller. Aqui o texto está reformulado; digo, está 'ajeitado', tirando os vícios de língua e algumas confusões mais. No que diz respeito à ideia central, está intocado. No mais, é apenas um fragmento crítico (assim como tudo que faço).]  

        O Rap é uma sequência de um processo histórico de contestação de uma realidade social específica que traz à tona os espólios e resquícios da escravidão nas Américas. Esse processo se inicia, no mínimo, com a guinada da música deixando os círculos burgueses e pequeno-burgueses no final do século XIX, quando surge algo para além do “espírito europeu” da música erudita e de uma gama de música popular feita por brancos e para brancos. Não se trata, como querem os ressentidos, de uma simples cor de pele; antes, de um conjunto de pensamentos e práticas sócio-históricas que divide o mundo entre o “nós” e o “resto”. Surge o Blues e o Jazz como música afastada, nos guetos (e é o que leva, entre outras coisas, Adorno a dizer que o jazz era composto por “lumpenproletariado”). No entanto, a simples expressão de pretos fazendo música já ia para além do quadro reinante. Não como simples contestação do racismo como problema histórico, mesmo que isso estivesse no bojo de um movimento nascente; além, de uma negação do dado e do estabelecido (e é esse o elemento que, em meu entendimento, Adorno não tem em mãos). Por mais que depois, assim como tudo, e principalmente com o nascimento e ascensão do Rock, o Jazz e o Blues tenham perdido força, a expressão da negação é e foi um germe que se desenvolveu conforme o movimento da sociedade. É claro que também posteriormente grande parte é engolida pela Indústria Cultural etc.. O Funk surge como a sequência disso: por mais que tenha sido algo mais “mainstream”, naquele momento se expunha como a negação por ser um elemento da resistência cultural dos pretos, que, não obstante, eram impedidos de vivenciar a cultura dominante. Com os movimentos da década de 1960, tanto os políticos, quanto os político-culturais – isso nos EUA – se inicia, em meu entendimento, o rap propriamente dito. Esteticamente, o rap deve ao Funk e ao Jazz. Politicamente, além desses, ao Blues. E o grande iniciador do que viria a ser o Rap no final da década de 80 e início da seguinte – tirando o fato que muitos consideram James Brown como o grande predecessor, por seus beats, seus gestos, seu modo de dançar etc. –, é Gil Scott Heron, com suas letras extremamente politizadas, nas décadas de 60 e 70. Isso influencia todo o mundo preto. O Funk e o Jazz e, especialmente, esse Funk ligado aos movimentos radicais pretos nos EUA, influenciam tanto os Africanos, quanto os Latino-americanos, em especial, Brasil.  
      Aqui entre nós, é o Samba de Morro e o Partido Alto que cria toda a imagem concreta da desigualdade, não simplesmente denunciando a desigualdade, mas “dando a cara à tapa”: “marginais” fazendo músicas para “marginais” e, com isso, construindo todo um legado de auto-afirmação negativa. Ainda na década de 70, o Movimento Black Rio se distancia da vigente Bossa Nova e da “música de protesto” da pequena burguesia carioca. Na junção Samba-Funk, expressava-se o legado originário do Samba de Morro e se colocava para além do “amor, sorriso e a flor”, que norteou os primeiros anos da Bossa, da zona sul. Era movimento que vinha na esteira dos movimentos pretos norte-americanos, com menor radicalidade política, mesmo assim, com o elemento negativo em seu núcleo. (Não se precisa falar, ainda assim, da influência de dois grandes músicos desse período, por claras que estão para todos: Tim Maia e, principalmente, Jorge Ben (sem o “Jor”)).

      Além disso, com os Bailes Blacks em 60 e 70, criaram, em SP especialmente, todo um enraizamento auto-afirmativo daquilo que, segundo o “colonizador”, deveria ter sido eliminado na Guerra do Paraguai e com a eugenia ultra-violenta – por isso o “negativo”: a própria existência de “marginais” é uma negação, não do racismo, mas do capitalismo enquanto sistema europeu. Nesses Bailes, aqui em SP, no final dos anos 70 e início dos 80 – Bailes que representavam alguma resistência, pois, entre outras coisas, eram locais onde pretos se sentiam “em casa”, para não dizer que não éramos aceitos nos círculos musicais brancos –, surge o “tagarela” (e isso os mais velhos dizem, além dos pesquisadores sobre o assunto): num dado momento, o baile parava para alguns “cantarem-falando” em cima das bases de Funk. Isso antes do surgimento “oficial”, no metrô São Bento. Na década de noventa, com a “abertura democrática” e o Brasil falido, as desigualdades sociais vinham à tona com toda força. Os resquícios de ditadura expressos na ROTA e os bairros periféricos “escuros” e esquecidos pelas “políticas públicas”, criou todo o cenário na qual o Rap se ergueria com força contestatória e negativa. (Basta ouvir qualquer coisa da década de 90, por pior que seja).

       O que quis dizer até agora, na tentativa de concluir essa parte, é que é um movimento, não-linear, de negação e, por isso, ficou restrito aos âmbitos negativos: os pretos e a periferia. Contudo, como sabemos, a partir do novo milênio, se efetiva com toda força o que Adorno e Horkheimer haviam dito na década de 40 (ou 50): o fetichismo da Indústria Cultural – e a consequente naturalização do estabelecido, a reificação etc.. Isso tudo aliado ao “way of life” tupiniquim que, entre outras coisas, se estabiliza com o aumento do “poder de consumo” do indivíduo-coisa. Os problemas sociais, que afetam a periferia não sumiram; antes, tomaram uma dimensão mais sutil (é mais ou menos o que Marcuse diz no Homem Unidimensional). E isso fez parecer que tudo estava resolvido. O Rap deveria (deveria no sentido de Dever-Ser dialético) evoluir junto à contradição do capitalismo, de forma negativa. Em meu ver, um dos poucos com alguma visibilidade que consegue esse feito (ao menos em parte) é o Parteum (e o Mzuri Sana, por consequência).

       O que ocorre com esse “pop-rap” dos Meninos da Augusta é que, entre outras coisas, o indivíduo agora é a imagem cômica e reificada do indivíduo do século XVI e XVII: aquele indivíduo autônomo que poderia suprir todas as suas necessidades através de sua própria Razão (é o que leva Kant a pensar no indivíduo atomizado racional e autônomo. Mas, antes, o que ocorre hoje é mais uma perspectiva kierkegaardiana do indivíduo mônada que se salva pela fé – não a cristã, em Deus, como queria Kierkegaard; diferente disso, na fé reificada no Capital fetiche, no consumo e no sobressair individual, como heróis mesmo, que “venceram na vida”). E isso leva ao “Rap do Eu”: Kamau é o grande representante. Veja: “Eu fiz isso, conquistei aquilo, fui por aqui, vim, venci” etc.. Ou, seus pupilos… O Criolo é um caso à parte. Ele de fato parece que pensa. Mas, para “vencer”, vendeu-se: veja os clipes e as letras (até aquela “não existe amor em SP” é de uma ambiguidade que me confunde). O Ferrez é outro enigma pra mim. Não sei se é um proletário intelectualizado que se tornou pequeno-burguês, ou se é um intelectual pequeno-burguês com vestes de periferia. Sei lá!

      Mas, o que digo – e isso começa com XIS na “Casa dos Artistas”, seguido de Helião no “Faustão”, os caras (não lembro o nome) que cantavam “… o boy de Cherokee” e aparecem de… Cherokee!!!, Mano Brown fazendo show em Balada de Boy, 200 contos pra entrar etc. – é que havia um projeto, individual mesmo, talvez na esteira de Sartre, que traçaram e almejaram: são, como quer Sartre, livres, e seus atos tinham uma finalidade. E é esta finalidade que obscurece a crítica, que alguns se furtam de criticar só pelo fato de serem os “meninos pretos”, dos “nossos”, que estão vencendo. O problema – um deles, pelo menos –, está que “venceram” como queria o projeto branco do capital. O vencer não passa de uma reificação e uma subsunção ao movimento mais autônomo do Capital Fetiche. (Aqui podemos tentar por no centro da crítica, em outro lugar, a ideia de Sartre sobre liberdade. É meio estranho para mim, ainda, mas é necessário pensar. Como disse, em outro momento, distinto desse).

       O que vale, em suma e grosso modo, é o vencer na vida, o indivíduo atomizado tentando se sobressair como se fosse o “radical” – e isso não é específico do rap (ou do pop-rap). Os problemas “sumiram”, e o rap – assim como os Movimentos de Esquerda etc. – perdeu o rumo, o “concreto” que negava. Não porque o concreto esvaneceu; antes, por que se sutilizou e se abstraiu: não se vê mais com os olhos nus. O grande problema é esse cinismo que diz ‘sou periferia, contra isso, contra aquilo’, que serve simplesmente para aparecer (assim como a Xuxa namorar o Pelé como trampolim para fama, por exemplo).

      A crítica a esse movimento é necessária para se entender, ao menos, um fragmento da efetividade social atual. Talvez na tentativa de não perder por completo o pensamento crítico, sua necessidade imanente. Isso na esteira de autores que ainda estou tentando me apropriar: Paulo Arantes, Safatle etc., que defendem, entre outras coisas, que a crítica se desfez, ou, como diz o título de Safatle: “falência da crítica”... Claro que o que afirmo e defendo aqui não esgota o assunto; antes, aponta alguns aspectos que me tiram do lugar cômodo e me põe em movimento retroativo de negação. É, em uma expressão, a decepção e o pessimismo vigente do séc. XXI que impulsiona para lá onde está a “outra ordem de verdade” tentada desde o séc. XIX.

      Voltando da digressão, reafirmando, o Rap se perdeu, pois se tornou pequeno-burguês, alienou-se das bases – é claro que há exceções, mas toda exceção é a alguma regra, portanto... (no mesmo momento em que vivemos em um grande estado de exceção, se pensando nas regras tradicionais que se esvanecem) – e seus fantoches se tornaram aspirantes a famosos, na tentativa de copiar os gringos do mainstream ou os periquitos verde-amarelos do way of life reificado tupiniquim... 

Salve do Urban Underground!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Instrumental Brazuca: Capítulo I

Instrumental Brazuca: Capítulo I - set feito a partir de meus discos nas pick-ups do meu parceiro Dj Tiago. 
A cena: aniversário do Tiago, domingo de carnaval - o 'nosso' carnaval - churrasco, toca-discos, gente boa. O pedido foi para que preparasse um capítulo de 1 hora, mais ou menos. Na real, nem sabia quanto tempo havia no set (ainda não sei ao certo). Tirei os discos que queria da prateleira e fui colocando, um por um, anotando os sons, fazendo as sequências. 26 pérolas instrumentais. Meu primeiro "capítulo público" à partir de meus LPs. Resultado: um capítulo gostoso, bom de ouvir e tocar, só de sons instrumentais brasileiros, que vão da década de 1960 à de 1980. Por ter sido feito mais por fruição do que por sistema, saiu bem eclético, mesmo que limitado por algumas linhas fundamentais. Os discos, adquiridos, de uma forma ou de outras, com toda a paciência que um colecionador dessas coisinhas deve ter. A preocupação com o tempo ("ter tudo em um curto espaço de tempo"), para nós, some por completo. É um processo; Erfahrung, diria Walter Benjamin (o texto mais incrível do século XX: "Experiência e Pobreza"). Bildung! Um processo, talvez infinito, não muito calmo, cheio de intempéries, de acidentes... Contudo, o processo da vida vivida, que vai além das designações temporais do capital. É usar o tempo, simplesmente em si mesmo. Nada de valor, valor de troca ou seja o que for (por mais que a gente gaste muita grana comprando discos). É, em uma palavra, fruição, vida, experiência para além da pobreza moderna. 
E onde começa o nosso gosto, nossa pesquisa infinda? No berço! Uma parte da família nos lega por tradição, transmite-nos valores que só nós podemos saber seus efetivos, por mais que demoremos tempos para percebê-lo (novamente, o texto de Benjamin faz muito sentido aqui!). E onde começa a amizade? Há alguns anos (talvez 7 ou 8), exatamente, por conta desses gostos, das experiências que se entrelaçam, unem-se, somam-se e crescem juntas. Afinidades eletivas? Sim, sim. Ninguém se relaciona com o outro que não tenha nenhum aspecto convergente. Em minha humilde concepção de 'filósofo desanimado', a ideia dessa relação é abstração sem fundamento. 

Sobre os discos: Todos são de músicos brasileiros, alguns gravados aqui mesmo, outros fora do país; alguns só com músicos brasileiros, outros com estrangeiros (mesmo sendo os da pesada de lá). A real é que aqui, música, mesmo a popular, nunca foi valorizada, por nenhum dos âmbitos no qual poderia se concentrar. Até hoje, ouvir música brasileira de verdade é underground. Mesmo com a popularização e o retorno - mesmo que pálido - do vinil, essas coisas ainda estão circunscritas à nichos bem reduzidos. Enfim... Os discos são variados: têm Hermeto Pascoal num disco fantástico da década de 80; Quarteto Novo, de 67, com Airto, Hermeto, Théo de Barros e Heraldo Monte; Tom Jobim e seu Tide, de 1970, que dizem ser uma terminação do Wave, de 1967. Dom Salvador Trio, um disco também de 67 que, o original de época é uma mosca branca (o meu é uma reedição de 86); Roberto Menescal, Bossa Três, Milton Banana Trio, Manfredo Fest Trio, Jongo Trio e o Octeto de César Camargo Mariano, isso para dizer dos gravados no Brasil na década de 1960. Estes compõem a segunda parte do capítulo, no qual há uma guinada ao SambaJazz (quem me conhece sabe o quanto eu sou aficionado por isso!). Ainda há os sons de baile de Ed Lincoln, que, entre outras coisas e outros sons, mesmo dando outra guinada no final do set, foi necessário colocar essa música fantástica: Palladium, como fechamento. Há, na primeira parte do set, bastante coisa boa, gravada no Brasil ou nos EUA, de Airto Moreira, Eumir Deodato, o fantástico Donato-Deodato, e o fabuloso Moacir Santos e seu Saudade, original do Selo Azul. Além de uma edição Italiana do disco Summer Samba de Walter Wanderley (aliás, esse som foi usado pelo De La Soul em um sample no disco Stakes is High). Por fim, todos os discos conseguidos nessa busca de fruição, de prazer - além da reflexão -  e em direção à fuga do establishment da sociedade moderna. 

Bem, enfim, o capítulo é dedicado ao Tiago - e a sua família -, assim como foi no dia. E, também, à nossa busca incessante por cada vez mais sons, cada vez mais discos, cada vez mais prazer, não em ter, mas em poder viver isso, respirar melhor e aspirar coisas que, por maluco que seja, estejam na contramão de toda a "correria reverb" burguesa. Salve! 

Instrumental Brazuca: Capítulo I 

















      1. Spock na Escada - Hermeto Pascoal e Grupo [1984]
  2. Baubles, Bangles And Beads - Eumir Deodato [1972]
  3. Summer Samba - Walter Wanderley [1966]
  4. Carly & Carole - Eumir Deodato [1972]
  5. Remember - Tom Jobim [1970]
  6. Romance of Death - Airto Moreira [1973]
  7. Nightripper - João Donato & Eumir Deodato [1969]
  8. Vim de Santana - Quarteto Novo [1967]
  9. Whistle Stop -  João Donato & Eumir Deodato [1969]
10. Tombo in 7/4 - Airto Moreira [1972]
11. Misturada - Quarteto Novo [1967]
12. Aquela Coisa - Hermeto Pascoal e Grupo [1984]
13. Amphibious - Moacir Santos [1974]
14. Fala de Samba que Eu Vou - Roberto Menescal e Seu Conjunto [1964]
15. Tema pro Gaguinho - Dom Salvador Trio [1967]
16. Tema Bossa Três - Bossa Três [1963]
17. Centenário - Ed Lincoln [1971]
18. Oras Bolas - Milton Banana Trio [1965]
19. Quem é Homem Não Chora - Manfredo Fest Trio [1965]
20. Primitivo - Milton Banana Trio [1965]
21. Samblues - Octeto de César Camargo Mariano [1966]
22. The Blues Walk - Ed Lincoln [1964]
23. Balanço Nº 1 - Jongo Trio [1965]
24. Cidade Vazia - Milton Banana Trio [1966]
25. Noa... Noa - Milton Banana Trio [1965]
26. Palladium - Ed Lincoln [1964]



Salve do Subsolo Urbano! 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

We've Got Jazz!

Faz tempo que não posto nada por aqui! Eis que é chegada a hora. Aqui, o que se encontrará, para não variar em nada e continuar com os "sons da pesada", são os saxofonistas malucos! Sons que me agradam os ouvidos e a alma; que destoam do senso comum atual e me faz tomar a dose de força para a continuidade dos dias, da vida. Aqui está parte de todas as indicações, pesquisas, leituras, tentativas, sonhos, críticas etc. etc.. O saxofone está em voga aqui. Quais? Todos eles! Entre as décadas de 1950 e 60. É o Jazz! Aquilo que temos no sangue! Ah! Sim. Aí venha me dizer: "e o Sun Ra, mano?!" O Sun Ra, aqui, é uma exceção! Os sons desse disco maluco do Sun Ra & Arkestra, de 1958 [Jazz in Silhouette], estão aqui por conter um naipe de madeiras 'classudo' [como diz o Pepo], e não poderia ficar de fora! 
Sax on Fun! E os saxofones - não os saxofonistas! - se divertem! Sozinhos, praticamente. O som flui e flutua: faz-nos flutuar junto a todos os improvisos. O jogo de palavras foi um insight! We've got Jazz! E não é que é tudo culpa da A Tribe Called Quest?! E o Jazz... Resolvi começar apresentando somente os sons dos saxofones. É claro, como já disse, não há somente saxofonistas. Mas é o que predomina. Esse é o primeiro. Logo mais, virão mais... 

Isso aqui, toda a pesquisa e essa pequena parte ora divulgada, vai aos que correm atrás dos discos nos buracos menos conhecidos; que fazem da música - dessa música, nossa música - vida, e de tudo isso conseguimos (talvez!) fugir da massificação... Às minhas tardes e finais de semana - junto à Marcelinha - regados desses e outros cantos entoados pelos instrumentos autonomamente organizados. Aos "Grãos Mestres": Pepo, Dj Jazz, Galdino... E aos meus caros amigos que sempre correm paralelamente: Igor, Gus, Gabriel, Carine... 
Salve, Salve!

We've Got Jazz: Sax on fun! [2011]




















1. Herman's Mambo - Lou Donaldson [1957]
2. Images - Sun Ra [1958]
3. Two of a Mind - Paul Desmond and Gerry Mulligan [1962]
4. Downstairs Blues Upstairs - Sam Rivers [1965]
 5. Easy Walker - Houston Person [1973]
 6. Horoscope - Sun Ra [1958]
 7. (Back Home Again In) Indiana (Donna Lee) - Charlie Parker Ft. Chet Baker [1952]
 8. Moment's Notice - John Coltrane [1957]
 9. I Won't Cry Any More - Lou Donaldson [1957]

10. Cousin Mary - John Coltrane [1960]
11. Up a Step - Hank Mobley [1963]
12. Dotty's Dream - Harold Vick [1963]
13. Taboo - Paul Gonsalves [1964]
14. Three Way Split - Hank Mobley [1963]
15. Time Was - John Coltrane [1957]


We've Got Jazz: Sax on fun! [Ouve aí]

Salve Jazzístico do Subsolo Urbano!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Raízes...

Seguinte: Raiz! Já diria Candeia. E é exatamente um som desse partideiro que abre o set. Aqui, é o que me acompanha por toda minha existência, quiçá de grande parte de meus antepassados. Desde a infância é o que me protege, que fecha meu corpo, que me ilumina de alguma forma. Nasci ouvindo samba. Sempre ele esteve presente. Os discos de minhas tias sempre reluziram minha (nossa) tez; o samba, reflete minha (nossa) alma. E digo desde já: se pensa que vai encontrar pagode por aqui, saia correndo e nem baixe o disco! Isso é Samba, parceiro! Coisa de nego véio. É, em uma palavra, Raiz! Se estiver achando que vai ouvir algo semelhante à Exalta Samba, Thiaguinho ou qualquer outra dessas paradas, está, e digo em voz alta, completamente equivocado. E mais: alguns pagodeiros mela-cuecas dizem que não há diferença entre Samba, Partido Alto e Pagode. Ou seja, não há diferença entre Cartola, Candeia e... Dudu Nobre? Ou será, mais, que estão no mesmo saco Aracy de Almeida, Fabiana Cozza e... Inimigos da HP ou Belo? Ah! Pára, vai! É o mesmo que comparar, para quem é do Rock, Led Zeppelin, Queen e... NxZero. Ou, para quem é malokeiro (como eu) do Rap, comparar A Tribe Called Quest, Pete Rock e... 50 Cent, ou esse bando de coisa ruim que tem por aí! Pára! Aqui é o seguinte: Raiz! Samba não é pagode da mesma forma que música não é barulho. A Terra não é plana, parceiro!
Depois de alguns discos de Bossa e SambaJazz, agora o Samba. Diferente da Bossa, o Samba é denso, tanto na síncope, nos arranjos, na batida e na pegada pesada, quanto nas poesias. Os sambistas são melhores letristas, sem dúvida. Mesmo assim, são válidos, tanto um quanto outro. Gosto dos dois, sem excessão. A diferença, em mim e para mim, é que Bossa é pesquisa, Samba é sangue.

Raízes! Isso aqui foi feito de fruição, de prazer. Só tem coisa que gosto de ouvir, de sentir, de ver. Minhas experiências aqui afloram. O que aprendi vendo e ouvindo em família; o que o Gustavo me ensinou. Aquilo que meus parceiros me mostraram com tanto orgulho e felicidade. É... Raiz! Assim como Cartola, que só foi gravar disco depois de véio. Ou Candeia, que era delegado (que fita). Ou mesmo os parceiros do Noel, Aracy e Ismael, fazendo um disco que arrepia. Como tanto gostamos, as poesias do Paulo César Pinheiro. Tem Samba para quem é Raiz e gosta de Raízes... Tem música de verdade para quem têm Raízes e gosta de coisas Raiz...
Este é especial ao meu Parceiro Gustavo. Em dialeto de rua: Sangue Bom! Raízes! Para nós, parceiro. Para nós, de qualquer maneira... Espero, é claro, que goste dessa paradinha, desse pequeno pedaço da música brazuca... Salve o Samba! Raízes...

RAÍZES [2011]
  1. De Qualquer Maneira - Candeia [1971]
 2. Alvorada - Cartola [1974]
 3. Mulher, Sempre Mulher - Antonio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes & Roberto Paiva [1956]
  4. Debruçado em meu Olhar - Elza Soares [1975]
  5. Agora Quem Ri Sou Eu - Claudia [1973]
 6. Refém da Solidão - Eduardo Gudin, Márcia & Paulo César Pinheiro [1975]
  7. Mente - Clara Nunes [1978] 
  8. Pressentimento - Elza Soares [1970]
  9. Missão - Aracy de Almeida, Ismael Silva & MPB4 [1966]
10. Sofreguidão - Paulinho da Viola & Élton Medeiros [1966]
11. Pela Sombra - Fabiana Cozza [2007]
12. Santo Dia - Eduardo Gudin, Márcia & Paulo César Pinheiro [1996]
13. Tem Pena de Mim - Aracy de Almeida [1966]
14. Disfarça e Chora - Cartola [1974]
15. Regresso - Candeia [1971]
16. Lamento no Morro - Antonio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes & Roberto Paiva [1956]
17. Carnaval - Beth Carvalho [1969]
18. E Lá Se Vão Meus Anéis - Eduardo Gudin, Márcia & Paulo César Pinheiro [1996]
19. Jogo de Angola - Paulo César Pinheiro & Mauro Duarte [1980]
20. Filosofia do Samba - Candeia [1971]
21. Samba do Povo - Aracy de Almeida, Ismael Silva & MPB4 [1966]
22. A Voz do Morro - Élton Medeiros [1970]
23. Aviso aos Navegantes - Baden Powell & Paulo César Pinheiro [1970]
24. Vou Deitar e Rolar (Quaquaraquaquá) - Baden Powell & Paulo César Pinheiro [1970]
25. Lapinha - Baden Powell & Paulo César Pinheiro [1970]
26. Brincadeira de Angola - Aracy de Almeida, Ismael Silva & MPB4 [1966]

Raízes... [Ouve aí]

Salve Partideiro do Subsolo! 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Bossa Movement II

Bossa Nova! Aquilo que se apresenta, aqui, são fragmentos de uma década. Os dez anos da década de 1960, com toda a sua conturbada história - a história recente do Brasil e, concomitante, um pedaço da história da M.P.M. - são os anos mais frutíferos para a nova geração de músicos e o novo jeito de fazer, amplamente, música por aqui. Infelizmente, grande parte daquilo que aqui se expõe como 'boa música', cai em detrimento ao nos ser apresentado nas novelinhas (sic!) da grande tirana emissora de TV. Aquela coisinha mórbida, insossa, sórdida até, que passam naqueles folhetins mal feitos, que chegam a dar náuseas. Enfim, a Bossa, em meu pequeno entendimento, é muito mais que isso. Toda a nova forma de se fazer música, as influências vastas, toda a criação - que, hoje, como disse, soa aos ouvidos como comum ou mesmo como chulo -, outrora foi - e ainda penso que está por lá - o melhor de nós. Isso aqui é do tipo: coloca o disco, deita, reflete, relaxa, sonha, sorri e chora. Em uma palavra, exalta, de várias formas, a sensibilidade. O difícil é encontrar humanos sensíveis. Aliás, a dificuldade efetiva está em encontrar humanos...
Nada de nacionalismos mesquinhos! Antes e além disso, trata-se de entender e sentir um pouco daqui. Seja Mainstream ou Underground, a música brasileira nunca foi valorizada de fato, a não ser em círculos mais que estritos. E, infelizmente (mais uma vez!) com a 'popularização' veio o empobrecimento. Hoje até papagaio faz barulho no bico torto e chama de 'MPB': qual a diferença entre os barulhos 'universitários'? E todo restante da parafernália? Enfim...
Só para reforçar, a idéia primordial é apresentar um pouco do que considero, se não bom, ao menos audível. E, claro, por fim caímos naquilo que Kant dizia sobre o gosto: subjetividade. Todavia, há algo de objetivo. Nem todos o alcançam... O que ainda penso é na idéia de Marcuse sobre a transcendência material que isso pode proporcionar e, por isso, ser mais revolucionário que os 'revolucionariozinhos' de plantão, de escrivaninha, e os dos corredores das academias... Se Marcuse tinha razão? Não sei. O importante é a possibilidade de refletir sobre.

 Bem, o que havia para ser dito, pelo menos por mim, pelo menos por ora, foi-se, aqui e no primeiro post sobre o assunto - o Bossa Movement I, além dos anteriores SambossaJazz (alguns volumes). 

Portanto, por enquanto:

Bossa Movement II






















 1. Estamos Aí - Leny Andrade [1965]
 2. Depois do Carnaval - Carlos Lyra [1963]
 3. Amanhecendo - Os Cariocas [1962]
 4. Menina Flor - Wilson Simonal [1963]
 5. Passa por Mim - Marcos Valle [1965]
 6. Nós Dois - Wilson Simonal [1965]
 7. Olhando o Mar - Leny Andrade [1965]
 8. Madrugada (Carnaval Acabou) - Magda [1968]
 9. Só Tinha de Ser com Você - Elis Regina & Tom Jobim [1974]
10. Discussão - Wilson Simonal [1967]
11. Samba do Avião - Os Cariocas [1962]
12. Se é Tarde Me Perdoa - Carlos Lyra [1963]
13. Chora Tua Tristeza - Alaide Costa [1960]
14. Cartão de Visita - Flora Purim [1964]
15. Banzo - Leny Andrade [1965]
16. Samba de Negro - Wilson Simonal [1964]
17. Coisa Mais Linda - Carlos Lyra [1961]
18. Manhã no Posto Seis - Wilson Simonal [1963]
19. Wave - Os Cariocas & Lúcio Alves [1962]
20. Medley: Consolação/Samba do Avião/Ela é Carioca/Garota de Ipanema - Wilson Simonal [1964]


Bossa Movement II [ouve aí!]


Salve do Subsolo Urbano!