sábado, 15 de junho de 2013

Todo ato de violência deve ser condenado!


Basta-nos saber o que é violência...


Violência é a estrutura de uma sociedade que oprime, a cada segundo mais, os mais pobres. E também oprime os mais ricos, pois o capital cria um padrão que anula a autonomia inclusive do burguês portentoso. Violenta é a forma como são tratadas as pessoas por si mesmas, como tratam os outros. Violenta é a forma como o Estado se diz democrático. Violenta é a “forma-sardinha” ao andar de ônibus. Violento são os míseros quilômetros de linha férrea de trens e metrôs numa das maiores cidades do planeta. Violento são os programas de TV (aberta ou não) que oprimem o cérebro. Violenta é a padronização da vida pelo consumo, pelo status. Violenta é a exploração do trabalho, o trabalho alienado. Violenta são as “ONGs”, sanguessugas sociais e cínicas. Violenta é a “pseudo-esquerda” que se perdeu desde 1989, e se tornou direita das mais ferrenhamente cínicas. Violenta é a direita que se transmuta em fascista. Violento são os programas “jornalísticos” ideológicos que adentram as casas dos mais pobres (material e espiritualmente). Violenta é a novela. Violenta é a fachada democrática das universidades, do conhecimento como semiformação. Violento é o cinismo que transforma todo tipo de preconceito e anulação das diferenças em “bullying”. Violento é o trocar educação das crianças por “bens” materiais – violento é o “responsável” por criança que troca educação, afeto etc., por “bens” materiais, por programas que padronizam, por falta de própria educação. Violenta são as propagandas direcionadas aos “jovens” consumidores. Violento é “formar” pessoas no ensino médio sem que saibam ler. Violento é o formar semi-indivíduos. Violência é falta de vontade para fazer coisas simples. Violenta é a não percepção dos nexos históricos de cada atitude aparentemente simples. Violenta é a redução da audição. Violenta é a redução do conhecimento à técnica. Violenta é a alternância da “segurança pública” entre capitães-do-mato e feitores. Violenta é a pequena-burguesia que finge refletir e só sabe atacar, como se fosse “crítica”. Violenta é a propriedade privada burguesa. Violenta é a proteção da propriedade privada pelo Estado. E também a primazia do capital sobre as vidas humanas. Violência é ser subjugado por tudo isso e ainda defender essa aberração. Violento é “ter opinião” como verdade absoluta. Violento é fingir ser politizado e não ouvir nada além do ego. Violento é não tomar posição e ficar em cima do muro. Violenta é a opressão. A manipulação. A anulação pelo poder. Violento, então, é o próprio “poder”. Violento é o medo, a paranoia social. Violento é a espionagem social que controla tudo por câmeras. Violento é concordar com isso sem o mínimo esforço. Violenta é a pena de morte autoproclamada pelos capitães-do-mato nas periferias. Violenta é a posição política que se embasa na vingança pessoal e arbitrária. Violento é dizer de algo que é “público” e excluir o “público”, concomitantemente. Violento é o rumo que a vida toma na “calmaria” da hipóstase, da servidão. Caso contrário, não! 

Subsolo com Vinagre + R$ 0,20!!!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A inumanidade da existência cotidiana: puxadinhos, modernização, especulação, exclusão


Meu avô, analfabeto de tudo – assim como minha avó, diarista –, graniteiro (profissão que hoje nem existe mais), paraibano, comprou um terreno pequeno, na periferia, em fins da década de 1950. Num lugar, até a década de 1970, ermo, sem asfalto, sem luz na rua (iluminação pública), sem rede de esgoto, onde se abriam poços nos quintais para ter água. E isso ocorreu em e para muitas e muitas famílias até a década de 1980 (com algumas alterações). Lembro, ainda pequeno, nos fins da década de 1980 e início da seguinte, que os poços começaram a ser fechados: jogava-se tudo dentro dos buracos para tentar fechar; quanto mais jogava, mais cedia. Não, não estou falando do sertão da Paraíba ou de algum lugar longínquo: é São Paulo, capital. Exatamente, a periferia distante do centro – agora, por conta de variados aspectos, nem tão distante. Isso tudo para quê? Para que dizer tudo isso?
A criação histórica das periferias, das favelas etc., é – grosso modo – fruto de um processo de marginalização dos “indesejados”: pobres, pretos, nordestinos e nortistas retirantes... Naquele período, por vários motivos, era, até certo ponto, “fácil” adquirir um terreno e construir um cômodo ou dois que não ocupava nem um quarto do terreno. Mas era o que dava. Só no decorrer do tempo a casa ia aumentando, por conta da necessidade prática (família que crescia, agregados, casamentos dos filhos, “puxadinho”, economias de anos para ampliar certo tipo de conforto etc.). – Em tempo: os cômodos mais antigos aqui, os dois dos fundos, são feitos, por completo, de “barro”: tijolos de barro superpostos e “colados” com uma mistura de barro e argila, coisa comum “antigamente”. Os conjuntos habitacionais também proporcionaram moradia para essas pessoas. É claro que dependeu de luta por parte de movimentos sociais por habitação etc..
A “cultura dos puxadinhos” se deu por uma necessidade prática, não somente, ou não exatamente, por conta da ampliação das rendas. Com o raio estrondoso da globalização (ou do “globalitarismo”) atingindo as periferias transmutado em consumo massivo, as necessidades (ou falsas necessidades; necessidades impostas), crescem vertiginosamente. Uma ânsia por modernização atinge o coração das pessoas mais simples. Era necessário que se fomentasse algum tipo de inserção das periferias no mundo, de forma plena (ainda que coisificada). Isso é visto, a partir dos anos 1970, por conta do acesso direto ao centro por “ampliação” do transporte público urbano (que ainda é uma ampliação de fachada e mal feita). Além disso, essa inserção também se dá no plano espiritual: fazia-se imprescindível que o consumo de tudo, a cultura do acesso, a vida como um todo, se assemelhasse àquela vista e implantada no inconsciente pela grande mídia. Toda a falsa necessidade do capital leva em sua torrente revolta toda a simplicidade da vida anterior e, por extensão, cria um padrão ideal a ser seguido e, quiçá, alcançado. Toda a “modernização” que, na década de 1990 e nas seguintes, fazia coisas brotarem do chão (supermercados, lojas de todos os tipos, todo tipo de comércio formal e “ambulante” etc.) – acarretando, entre outras coisas, o fim dos terrenos baldios que serviam de campinho e outros, e também o fim dos campos de futebol de várzea, as áreas de “lazer”, que não passavam dos mesmos terrenos baldios e etc. –, fez o tal do “custo de vida” subir vertiginosamente. Aquelas famílias que chegaram aqui entre 1950 e 1980, que, como era costume, possuíam filhos à rodo (de dois à quatorze ou mais), só podiam – ou o espaço só comportava – um “puxadinho” para o que primeiro casasse ou para o mais velho. Em alguns casos, os puxadinhos fizeram os terrenos e casas de outrora virarem cortiços familiares, no qual se comportavam várias famílias (geralmente de mesma matriz matriarcal ou patriarcal) num mesmo quintal. Casebres de um cômodo ou dois amontoados num espaço pequeno.
A “modernização”, a inserção das periferias ao mundo globalizado (“capitalizado”), fez, ainda, com que a especulação de todos os tipos, principalmente a imobiliária, se estendesse e se instalasse com toda força por aqui. Aqueles que nasceram na década de 1980, principalmente, não tiveram (e não têm; e não terão) espaço no mesmo terreno de seus pais: ou porque seus pais já se situavam num puxadinho de seus próprios pais, ou porque já haviam cedido espaço para os outros filhos etc.. Teriam, com toda força do acaso, que fazer suas vidas sozinhos. Os resultados foram a criação de outras periferias ainda mais distantes do centro. O problema é que toda essa “expansão” da cidade não se deu como outrora, como se os que foram mais para o fundo fossem bandeirantes: eram excluídos e, além do mais, duplamente excluídos na medida em que o desenvolvimento do capital, do assalariamento – os empregos em massa – continuava concentrado no centro da cidade. O que os geógrafos chamam de “cidades dormitórios” ou “bairros dormitórios”, pode ser visto sem muito esforço. Aqueles que no período anterior eram assim (bairros dormitórios), agora se tornaram – e continuam com vento em popa! – bairros de classe média. Os trabalhadores (mesmo aqueles “qualificados”) ou se enforcam numa dívida eterna (sem superlativos!), ou, por outro lado, fogem sem escolha para margens ainda mais distantes. E estas extrapolam as margens geográficas da cidade, em muito.
Essa “modernização” das periferias é algo, por si só, contraditório: faz o local o mais habitável possível e, ao mesmo tempo, expulsa seus antigos habitantes. Ora, a chegada do metrô em muitos bairros é algo esperado por muitos há mais de 30 ou 40 anos. Agora que chega, essas pessoas devem sair, pois não conseguem arcar com as “consequências” e mazelas desse desenvolvimento. Agora que teriam garantido acesso rápido ao centro e tudo mais, o mesmo espaço é tomado pela nova classe média, ou pela antiga classe média decadente. Além, as empreiteiras – sanguessugas especulativas do capital – e os especuladores imobiliários, aproveitam-se da “oportunidade” criada e saem desvairados pelas ruas das periferias comprando casas antigas, com terrenos com, em média, 10X25, derrubam tudo e constroem, no mesmo local, “becos” – 3 ou 4 – que chamam de casa, geminadas, e vendem cada uma por um preço superior ao que foi pago no terreno e casa que compraram. Mais ainda, os edifícios construídos (chamam de “condomínio”), são cada vez menores, não o edifício em si, mas os apartamentos. Apartamentos que chegam a medir 40m², vendidos à preço de ouro, chegando a custar, à vista, mais de 180 mil. Nas prestações a perder de vista, no mínimo o dobro. Apartamentos maiores (aqueles que chegam a caber, apertado, um sofá de 3 lugares) são “luxuosos”: ou se desembolsa meio milhão em prestações, ou nada feito.

Enfim, duas conclusões (ou algo desse tipo) são possíveis e se interligam. O desenvolvimento do capital é contraditório por si só e consigo mesmo. Isso acarreta uma morte lenta e sofrida para alguns, uma morte instantânea para todos. Por outro lado, se é doutrinado para que não se revolte com a situação insuportável engendrada em altas doses na veia que, se por um lado mata, por outro alivia de algum modo esquisito, atordoante e inconcebível. E inconcebível pensar que ainda se mantém sem uma convulsão prática profunda. Perdeu-se a capacidade de sonhar para além do que é exigido: ganhou-se uma outra capacidade de sonhar. A proliferação das igrejas e dos botecos, entre outras coisas, tem relação direta com isso: é necessário algum tipo de alento imediato que aja em dois âmbitos: na aceitação desse estado de coisas insuportável por si só, e na busca ilusória para se inserir nesse mesmo estado de coisas insuportável. Não há explicação plausível e não contraditória dessa situação. Se Marx dizia que o trabalhador assalariado “ganhava” o “suficiente” para se manter (ter casa – mesmo que alugada –, comida, roupa e que conseguisse reproduzir), ele não tinha noção do que a segunda metade do século XX iria criar. E se a situação mais escabrosa poderia criar algum tipo de “consciência revolucionária”, de fato, ela criou algum tipo de “consciência”: a do medo, que engendra a fuga, que é fomentada pela ideia de fracasso individual, que faz retornar com mais força e sede de inserção. E isso conseguirá permanecer insustentável por mais quanto tempo?  
Subsolo (pois só o subsolo restará!)!

sábado, 8 de junho de 2013

Pequenas Coisas


As pequenas risadas. Os sorrisos. A amizade cúmplice. A amizade simples. O pôr-do-sol. E também o nascer. A garoa fina. As folhas secas. E também as flores desabrochadas. As pequenas lágrimas, escondidas, de alegria e de tristeza. O renovar por meio delas. Cada segundo da existência bem existida. As viagens com Goethe, Dostoiévski... com Benjamin. A simplicidade da luz do daion. As coisas velhas e bem guardadas. Coisas antigas... As pequenas lembranças, pois todas são bem pequenas e gigantes pela apreciação de cada uma, pela renovação e pela reelaboração de cada uma. Os pequenos chistes de infância. As andanças com a cabeça longe... As histórias dos mais velhos. As histórias dos antigos. Os apuros passados juntos, e também os que ninguém sabe, que se passou só... A comida da avó. Os abraços. O cheiro do café, da terra após a chuva. As noites mal dormidas pela ansiedade. As fotografias granuladas que possuem, cada uma, uma história completa e incrível. O retorno a algum lugar que há muito não se ia. Anos de memórias boas que revivem... As noites com brisas quentes do mar, olhando para o infinito, pensando em tudo, em nada. As pequenas conversas. Aquelas que se fazem à luz da lua. As que fizeram tudo ter outro sentido. O demorar-se numa ideia, às vezes sem sentido. Os banhos de descarrego. As histórias de terror quando faltava luz... Os medos de infância. As minúsculas alegrias que se perderam no tempo. Os sorrisos que ficaram para trás. Os passeios mais singelos. A despreocupação com o tempo. Os conselhos de mãe...

As pequenas coisas que se esquecem, que se vão. Que revivem, rememoram-se... Aquelas que, num ato messiânico, utópico, romântico, poderiam salvar o mundo, salvariam as existências individuais. As mesmas que, perdidas, fizeram as relações congelarem, tornarem-se frias “desemoções”, descabimentos... Que tornaram a técnica a confluência e ponto necessário e teleológico de toda vida. Que suprimiram o tempo, aquele mesmo que cria a memória, que guarda tudo que poderia dar sentido à existência individual. As pequenas coisas simples que, não existindo mais, tornam a vida danificada. Transformam a vida em algo objetificado, e o objeto, por sua vez, aquele que toma posse irrestrita da vida. A perda do sentido das emoções, sendo elas apenas um produto já mastigado, posto pela técnica, pela “techno logos”. Pequenas coisas que se esquecem, que se esfacelam no tempo suprimido, que se perdem. Que não voltam. Que podem reavivar, mas...  

Subsolo Urbano! 

[Ouvindo: Ronnie Laws - Night Breeze]

domingo, 19 de maio de 2013

Panis et circenses: o circo trágico do cotidiano



Jouissance! Mesmo que pouco se tenha lido de Lacan, ou de seus interpretes, é o que fica na cabeça: gozo (ou “gozai”, como imperativo)[1]. Menos ousado e abstraindo menos, qual o pseudo-indivíduo, hoje, que não quer realizar todas suas fantasias mais perversas? Talvez não consiga, e talvez nem saiba exatamente quais elas são. Mas, consegue exteriorizar de alguma forma, imediatamente, sua perversão conforme a perversão social indica, ordena, e “conceda” espaço para tanto: a sociedade naturalizada desses dias é aquela que libera o indivíduo para agir da forma que bem entender. No entanto, será que esse “bem entender” é autônomo? O movimento naturalizado e hipostasiado da sociedade faz com que os “movimentos” do indivíduo sejam em torno de si mesmo, como uma galinha semimorta (com o pescoço quebrado e ainda “viva” – quem teve a oportunidade de ver isso, talvez tenha ficado atônito com a cena), sejam “movimentos” repletos de uma aparência de autonomia e legitimação: em uma palavra, reificação. A equalização entre o que “está dentro” e a abstração naturalizada do capital – mais ou menos, chamada de dessublimação repressiva –, é, talvez, a fase última de desenvolvimento do capital: permite tudo ao bloquear tudo. Goze! Mas, o quê? O que deve ser gozado? Não importa: o indivíduo autônomo dessa sociedade, esse existente específico, sabe muito bem o quê e como. É-lhe dada a capacidade inata e insuspeita de decidir e agir, imediatamente, para a efetivação de sua felicidade. Quaisquer designações em contrário são rechaçadas como opressivas e repressivas.
Nesse imbróglio o “outro” – um outro indivíduo, uma “plateia”, espectadores da ação etc. –, são, em uma só monta, interferência radical e intermédio para a realização plena da ação. Interferência na medida em que o outro é um empecilho para a ação, devendo ser eliminado espiritual e, quiçá, fisicamente. Contudo, é fundamental sua participação na ação: esse “outro” qualquer é o que faz a ação ser ela mesma, efetivar-se plenamente, é necessário que ele exista e, sem ele, não há ação nem indivíduo. Ora, em exemplo simples, ninguém “age” na medida do imediato por si só, para si só, na intimidade; só o faz ao tornar o espaço público o lugar privilegiado de sua ação “privada” e de sua efetivação enquanto indivíduo da jouissance. Por outro lado, por engraçado que seja, há o “poder do bando”: o indivíduo somente consegue ser selvagem (no sentido da dessublimação repressiva e, também, no sentido hobbesiano) quando está “protegido” e “espectado” por seu bando ou, de outra forma, quando precisa mostrar seus “poderes” para seu “bando menor” (o seu mesmo), ou o “bando-outro” (as pessoas de entorno). Sua ação do goze! só se dá na, reiterando, injunção das observação e eliminação (como subjugação ou como morte mesmo) do outro. Este é reduzido ao complemento básico do si... Enfim. Entretanto, tanto o si quanto o outro já entram na jogada como complementos, como coisas daquilo que já está hipostasiado. A sociedade (em abstrato mesmo) determina que assim seja. Pelo contrário, o indivíduo que não o faz, enquanto tenta retirar-se para qualquer outro canto, é o patológico.
Não é possível, em nossa época, falar em ética, em relação com o outro que não seja firmemente baseada pela expressão última: morte! O outro é aquele que deve perecer para que a ação do indivíduo, do si, seja efetivada plenamente – assim como o si já morto e perenizado sob o movimento abstrato dessa sociedade quase-total. Essa “dialética” esquisita, da morte, é o que há de mais sensível: qualquer outro deve ser subsumido ao si, à ação insuspeita e legitimada pelo abstrato. E, do mesmo modo, decreta-se a morte de todas as mediações sociais. Melhor: a subsunção delas ao plano do indivíduo da jouissance reificado. Como pensar uma Öffentlichkeit, uma esfera pública do debate ético-político, nesses termos? Como pensar uma relação que aceite o outro enquanto instância autônoma? Como pensar qualquer coisa que envolva o coletivo, a sociedade, quando, estes mesmos, se reduzem ao plano do si reificado (e coisificado na medida em que esse mesmo “si” é, num movimento de retorno, jogado para debaixo do tapete sujo da abstração social-capitalista)? Só é possível discursar sobre ética, política etc., quando há indivíduos sociais (ou quase isso) razoáveis (ao menos).
O imperativo do gozo não causa somente dor individual, subjetiva: ele elimina qualquer vínculo social ao se apresentar como violência. E das mais brutais! É óbvio que a paixão pelo imediato, pelo gozo sublime e abstrato (e como um fetiche concreto), somente pode desembocar em atos de violência. E não é a violência isolada como querem os mais entusiastas. É uma violência estrutural: da estrutura complexa e coisificada do indivíduo atomizado e subsumido, à estrutura violenta da sociedade que impera com seus “feitores abstratos” comandados por uma coisa vazia – capital. E a pergunta que fica não é o que nos espera no futuro; mas como digerir nosso passado e reelaborar nosso presente trágico.




[1] Fique claro: este texto não tende a interpretar Lacan – quem me dera! –, tão pouco qualquer pensador. A intensão, menos ousada, é tentar refletir sobre o cotidiano por meio da filosofia e do pensamento contemporâneo, a partir de um ponto qualquer desse cotidiano. 

Subsolo!

sábado, 11 de maio de 2013

O Crack em SP e a “grande jogada” do Estado


         Não é de hoje que o tema “droga” é um problema nos grandes centros urbanos. Remontando ao passado recente, tem-se a “injeção” de “drogas” nas periferias como “estratégia”, por um lado; também se tem, por outro lado, a grande discussão sobre “o que é droga?”, já que o fato simples do ilícito não determina nada e, ainda, ideologicamente se separa em campos distintos o que é, o que não é, o que nem é definido como etc.. Enfim, é um tema difícil de ser abordado, ainda que se possa se livrar da ideologia pela negação dos discursos moralmente cristalizados, mesmo que seja um trabalho árduo.
Ainda assim, o que chama a atenção é o tratamento classista burguês dado pelo Estado – e pela ideologia oficial – ao tema. Primeiro, droga só deve ser tratada enquanto tal – no trato policialesco – na periferia e para o lumpenproletariado. Não é muito difícil ver, nos bairros burgueses e pequeno-burgueses, junto às grandes universidades etc., a “droga”, mesmo a ilícita, como coisa corriqueira, aceitável e, até certo ponto, venerável. É muito simples tratar os meninos pretinhos das margens como “drogados”, nóias e tudo mais; ao passo que o lutador profissional – mercadoria de um grande especulador – ou o jogador profissional, o ator (assim como outros “profissionais”), como o “inspirado”: é o cara que usa a paradinha para ter mais inspiração, para “compreender” melhor os movimentos, as nuanças etc.; é o “experimentador” e o “alternativo”. É claro, o “rebelde” burguês e o rebelde das classes baixas são, mesmo que ambos “rebeldes” de causas próprias, distintos pelo trato dado pelo Estado e pela ideologia oficial.
No entanto, ainda não é somente isso que espanta. Como “deu merda” a parada da internação compulsória dos lumpens na Cracolândia em SP, já que gerou debates – interessantes até certo ponto – e viu que a prática só não era mais higienista por falta de discurso apropriado por parte do Estado, a onda virou fazer PPP (parceria público-privado) com cara de bom mocismo reacionário. O que se quer, no fim, é limpar as ruas, encher os bolsos, desviar. A jogada do Estado é insuflar dinheiro público em mãos privadas, fazendo a velha limpeza da região central – que, depois que supostamente “acabaram” com a Cracôlandia, os lumpens se espalharam pelo centro todo: “deu merda” o jogo da direita reaça –, além de dar uma resposta “positiva” à “sociedade” de parasitas. Um texto na Revista Época[1] diz que o tal Cartão Recomeço terá uma “bolsa” de R$ 1.350 que, entretanto, “será repassada a clínicas de reabilitação conveniadas”, e “O valor deverá ser repassado diretamente às clínicas de reabilitação conveniadas.” Opa! Peraí! Diretamente às clínicas? Isso não cheira, fede. É o “modelo social de reabilitação”, dizem os “entendidos”. Diz a Revista:
'O dinheiro do auxílio mensal só poderá ser usado, exclusivamente, para o pagamento de serviços prestados por clínicas de reabilitação conveniadas para recuperação dos pacientes. Não é para comprar roupa, alimentos, etc.', afirma Laranjeira. Existem vários tipos e graus de dependência. Ele diz que 'nem sempre a internação é adequada para determinado paciente, nem é o tratamento final. É necessário todo um processo de recuperação, até mesmo pelo fato de as recaídas serem comuns', afirma. 'Esse dinheiro vai tornar possível que as famílias dos viciados proporcionem, sob supervisão médica, o tratamento necessário para seu parente'.  
[...]
Para o psiquiatra José Moura Neves Filho, especialista na gestão de saúde mental e que não esteve envolvido na idealização do programa, R$ 1.350 é um valor baixo para custear o tratamento nas clínicas de reabilitação, de acordo com o que foi divulgado até o momento sobre o programa. 'Só a diária em uma clínica mediana de reabilitação costuma girar em torno de R$200. Fora todos os custos, já que é um tratamento demorado e custoso', diz. 'Se o auxílio fosse destinado a outras necessidades, como alimentação e moradia para o período pós-internação para os usuários sem-teto, por exemplo, o cartão seria mais útil.' O secretário Rodrigo Garcia defende que, com o valor do auxílio, é possível, sim, custear esse tipo de tratamento.  
[...]
Os idealizadores do Cartão Recomeço afirmam que o programa deverá incentivar indiretamente a criação de novos centros especializados e a modernização dos já existentes, uma vez que o repasse da verba só poderá ser usado em instituições credenciadas. 

O que está em jogo? É claro: debate (ou o falso debate) sobre sociedade, saúde pública, higienismo, educação pública, combate às drogas (ou melhor: aos “drogados”, àqueles que são eleitos enquanto tal), enfim, políticas sociais e políticas públicas num âmbito generalizado. Não se pode tratar de vício como crime. Tão pouco criminalizar ou tratar como incompetente o sujeito que não se adapta à sociedade da concorrência. Isso é tão necessário e intrínseco ao capitalismo que chega a ser bizarro pensar as contradições sociais vistas do ponto no qual se encontra a ideologia oficial. É um discurso, dizia Marx, “sem história”. O Cartão Recomeço deveria se chamar Cartão Capital, pois é o movimento do capital, suas vicissitudes, que estão entrando com os dois pés no peito. Esta sociedade cria suas infâmias e as resolve, a sua maneira, é claro. E as maneiras são, em um ponto, criadoras e escoadoras de in-gentes, seres inumanos, e criadoras de valor pela via oblíqua e cordial. É ridículo, pois não há projeto, não há nada pensado para além do dado. Mas não pode haver tratamento humano numa sociedade que perdeu seu status, perdeu sua humanidade por completo. Não pode, ainda, haver humanidade numa sociedade na qual “a coisa” é o que importa, é quem comanda. É absurdo – e real – pensar que a malfadada Cracôlandia foi esvaziada (ou melhor: está sendo higienizada) por conta da especulação capitalista de todas as ordens. Os debates visam, são visados e ordenados, pela “coisa” que se move por si só e leva junto seus autômatos. As in-gentes são levadas por essa maré. O termo “lumpen” não é mais um privilégio de alguns: só há lumpens por aí. A problemática é que alguns mandam, e nenhum vive. E, por fim, escoa-se, mais uma vez, para a sarjeta social todo o lixo inumano: todos.  


Subsolo!

sábado, 4 de maio de 2013

Crítica: “Por que tudo custa tão caro no Brasil”[1]

 [por que ideologia, meu amigo, aparece inclusive na crítica]


       Um artigo “crítico” aos custos em relação ao consumo no Brasil, publicado na Revista Superinteressante do mês de abril deste ano, chamou a atenção pela “lógica do absurdo” que se vivencia por aqui – mas não só isso.
     Pois bem. O artigo inicia sua explanação pelo curto período histórico brasileiro no processo de “crescimento dos emergentes” (da década de 1990 a 2008, antes da “crise” mundial e, claro, passando sorrateiro por ela). Mostra, ainda, uma comparação com os custos de consumo em relação a outros países (especialmente os países da Europa e os EUA, isto é, países, capitalistamente falando, “desenvolvidos”). Até aí, sem problemas. Ou quase isso. O que já se percebe, desde o início, é a ligação não tão explícita entre o “problema” inflacionário o qual, por ora, o Brasil vive e, além, a paranoia do “estado de pânico” que se instala por conta de “descobertas científicas” dessa monta.

    No entanto, a problemática mal desenvolvida do artigo começa quando se alia o crescimento do PIB ao do consumo (e, claro, a suposta transição ascendente de classe social – no estilo tipicamente positivista), e, ainda, esses “crescimentos” ao aumento vertiginoso dos preços e do custo de vida. Isso, diz o artigo, ocorre por mãos “individuais”: indivíduo A ganha uma grana, compra uma rede comerciária; indivíduo B, gerente dessa rede, compra um carro; indivíduo C, dono da concessionária, “investe” em algo (comércio, no geral); e assim o “capital” gira sem uma estrutura social por detrás: “Só isso já começa a explicar o boom dos imóveis. Agora o gerente da pizzaria, o dono da concessionária e a equipe da SUPER não dependiam mais do Baú da Felicidade para tentar o sonho da casa própria. Sentiram que dava e foram atrás de apartamento.” Bem, é claro que, ainda, se alia o “montante” ao nexo “oferta-procura”.

     O Artigo continua, fala sobre a carga tributária exuberante como as matas do Brasil (nem dá para acreditar que ainda existam!), expõe, ao seu modo, a burocracia de causar inveja a qualquer weberiano fanático... Enfim. É prolixo em exemplos para mostrar o Brasil segundo sua (da Revista, dos autores etc.) visão. Tudo isso é “chover no molhado”. Em outras palavras, diz o que é visto, ouvido, lido nas redes sócio-virtuais a rodo, comentado, explanado (pelo senso comum, é claro) e etc.. Porém, a máxima do século XXI é criar “micro estados de exceção”, como algo “fora do normal”, ainda que dentro do normal e nada de exceção, já que é a regra básica e cotidiana. Assim, a tática atual para criar o pânico de modo “cômico” e trivial é quase idêntica ao modelo parasitário e sensacionalista dos programas da TV aberta (Datena, Ratinho e toda essa facção de exímios senhores).

      Entretanto, o que aqui se quer destacar são questões pontuais que aparecem do meio ao fim do texto. Em primeiro lugar, o que o artigo chama de “má vontade”, no sentido político – isto é, dizendo que o Brasil não tem investimento em produção, em questões sociais etc. –, não é analisado enquanto tal. Uma breve digressão história, da colônia ao século XX, já daria outra conotação ao problema. O não aprofundamento – já que se trata de um artigo de revista e, por isso mesmo, os autores se dão ao luxo de “jogar verdades” aos quatro ventos sem, ao menos, as embasar – é, de fato, o grande causador da dicotomia e do “pânico” sensacionalista. Historicamente nunca houve incentivo ou incremento da produção (num sentido amplo), menos ainda no que tange a questões sociais. Somente se investe, isso vindo do Estado, em questões sociais quando não se tem mais como negá-las explicitamente. Em relação à produção, o Brasil investe muito bem, muito pelo contrário do que diz o artigo. Para uma burguesia dependente e parasitária, os investimentos se dão não como incremento do capital – a não ser em casos tanto no período militar quanto no que diz respeito à década de 1990 em diante, com transnacionais e multinacionais aqui instaladas. Os investimentos ocorrem, majoritariamente, no fomento e manutenção do baixo custo do trabalho – criador de valor e que faz girar o capital –, na isenção de taxas e nas obscuras transações oligarcas, que são, nada mais nada menos, que resquícios vivos do período colonial. Sem falar, é claro, no movimento do capital abstratamente financeiro que enxerta a produção de insumos de primeira monta: matéria-prima barata e abundante (até parece que estamos no séc. XVI ou XVII). Não faz sentido falar de má vontade política quando se resume a própria política aos profissionais burocratas do Estado. Não faz sentido, tão pouco, dizer que falta investimento em produção quando, pelo contrário, o Brasil produz o que tem de produzir enquanto país dependente e, ainda, o que deve produzir enquanto “celeiro mundial”.

    Ainda há a contradição, de um típico proudhonianismo infantil, de dizer que o investimento em produção baixa os custos (para o último consumidor, isto é, para o “povão”): “Investir em mais meios de produção é ótimo porque baixa os custos lá na frente. É um PIB que gera mais PIB. A argamassa não fica valendo ouro porque o país passa a produzir mais e melhor argamassa (ou placas pré-fabricadas). [...]. Os preços não partem para a irracionalidade. Não dá.” Gerar mais PIB não significa engendrar melhores condições de vida. Aliás, nunca significou. A comparação que o artigo faz é com a China dos anos 2000 em diante. O que será que é ocultado? É muito evidente para qualquer um que acompanhe um pouco mais de perto (nem precisa ser especialista) o “desenvolvimento” da China capitalista: superexploração do trabalho com baixíssimo custo da mão-de-obra (em todos os sentidos); muita gente, ou seja, muita mão-de-obra ultra-barata; compra de matéria-prima a preço de banana (do Brasil, diga-se). Por outro lado se dá a comparação com países desenvolvidos, os chamados de “primeiro mundo”: ora, comparar com, por exemplo, EUA, que se beneficiaram da ordem ascética protestante, da escravidão, das grandes guerras, da dizimação de povos inteiros, da dependência de seu povo e de outros povos à sua burguesia e ao seu Estado, é quase uma afronta ao raciocínio! Comparar, por outro lado, com o Japão fica mais fácil: um país que foi dizimado por uma “bombinha” e que, em seguida, se tornou extremamente dependente; país no qual, entre muitas outras coisas, a exploração da mão-de-obra lembra de perto o taylorismo, com 16h de trabalho diário, sem leis trabalhistas amplas; país, em fim, que faz seus trabalhadores terem dormitórios, não casas: cubículos no qual passam as horas de descanso – e não é de lá, também, que vem o toyotismo e todas suas vicissitudes? O que se tem, no artigo, é o absurdo da comparação deixa de lado todo seu fundamento por uma “impressão” mal feita. É mais ou menos a discussão de duas crianças que se debatem para provar que as estrelas que veem no céu têm cinco pontas. Mal sabem elas do que estão falando.

*    *    *

 “Nossos juros altos, nossa energia cara e nossa logística do século 19 (sic!) são grandes freios para o PIB. E aceleradores dos preços altos.”
Mas claro! Os juros e o encarecimento de coisas tão fundamentais são uma afronta para o crescimento do PIB! Ora! Mas, e aí, só isso tem a dizer, amigo? Os preços altos não estão relacionados aos juros, pelo menos não em primeira instância. Vamos lá: existem taxas que os produtores devem pagar, não pagam. E onde elas aparecem? No produto final, é claro, para o comprador final. Os altos índices de lucro estão ligados ao mais-valor, na superexploração contínua do trabalho, e os altos custos que o produtor capitalista deixa de pagar e repassa, sem mais nem menos, para o consumidor final. No entanto, isso ainda é chover no molhado. Os juros não são inimigos da burguesia num capitalismo dependente. Basta ver que não é o Estado por si só que comanda toda a parafernália. Os bancos, que são os que mais enriquecem na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, na riqueza e... Enfim, os bancos coordenam, por um lado, as taxações. Por outro, os órgãos internacionais controlam como, quando, onde e por que será investido o capital. Nossa logística é atrasada não por acaso. Têm-se vias férreas, ainda que não suficiente. Mas, quantas funcionam? Qual a “vontade” que se tem quanto a isso funcionar? Não se trata de má vontade ou mau planejamento. Pensemos: o país começa a fazer o escoamento interno por vias férreas e fluviais (um com custo quase pela metade do transporte rodoviário, ou quase que um quarto – 25% – aquele custo). Ótimo! Não fosse o lobby e a dependência. Quem não permitirá? O Grande Capital: as transnacionais dominam o mercado (a produção) de caminhões, pneus, asfalto (por isso o asfalto por aqui é tão vadio!) etc.. Isso faz o capital girar, faz o movimento da produção, da maquinaria, de produtos “essenciais”, de dinheiro. Por exemplo: o país precisa prestar contas a “alguém” – chamemos de “Grande Irmão” – e o Grande Irmão empresta uns trocados, ou mesmo “comercia” conosco, ou deixa que “comerciemos” com outros. O Grande Irmão é o pai reacionário que não dá “liberdades” ao filho. Bem, investir em educação, saúde etc.? Não! Pelo menos não como quisermos. Pode-se “investir” em questões sociais, mas só o tanto que o Grande Irmão deixa e impõe. Bem, por aqui, sem estender muito, já dá para perceber que, se por um lado não se trata de “vontade” simplesmente, por outro, o país está indo de vento em popa, pois permanece em grande parte no século XIX, e, à reboque, com tudo que o século XIX teve de “melhor”... 

                                                                *    *    *          
Parece necessário reler o “capítulo do dinheiro” – e a “Introdução” –, nos Grundrisse do “Véio Barbudo” e tentar entender como o consumo (a distribuição, circulação, troca etc..) não tem autonomia frente à produção. E, ainda, como a especulação, em todas as frentes, é algo intrínseco ao movimento capitalista, ao movimento de capital-dinheiro (ainda que abstrato), e como os preços altos não estão somente relacionados a juros etc..
Pois bem, no fim do “grande e eloquente” texto, pode-se ler:
 Talvez o problema esteja mesmo na “realidade do mercado”. Nessa realidade, pagar R$ 100 mil em carro passou a ser uma despesa aceitável, mesmo que isso comprometa uma fatia gorda do salário. A verdade é que preços altos têm uma força magnética no País. Gostamos de gastar, de ostentar. É status. A ponto de lojas de preços acessíveis na Europa, como a espanhola Zara e a inglesa Topshop, virarem grife aqui. A regra no Brasil é consumir muito e poupar pouco. Segundo o instituto de pesquisas Nielsen, os brasileiros guardam 27% do que ganham – contra uma média de 39% no resto da América Latina. No ano passado, consumimos quase 10% a mais que em 2011, em especial nas concessionárias (30,3%) e nos supermercados (28,8%). Isso não é ruim na essência – no Japão, gastam pouco e poupam muito, e a economia deles está estagnada. Mas se a produção não acompanha o consumo, não tem jeito: os preços sobem. Outro problema é que nos endividamos muito. Uma pesquisa recente do Ibope diz que 41% dos brasileiros têm dívidas. Entre os alemães, por exemplo, são 10% (e isso é um recorde histórico lá).
“Nunca tivemos tanto crédito e, por falta de educação financeira, o pensamento é: ‘Estão me dando dinheiro, vou gastar’”, diz o economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas. Para Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, “as pessoas não estão acostumadas a lidar com isso. Doce é bom, mas demais lambuza”. Temos uma boa desculpa, até. Não faz tanto tempo, em 1993, a inflação medida pelo governo alcançou estratosféricos 2.477%. Todo dia 5, os brasileiros corriam ao supermercado para abastecer a despensa de arroz e feijão e o freezer de carne. Porque, no dia 6, os preços já teriam sido remarcados. Como pensar em poupar em um cenário desses? O negócio era gastar, antes que o dinheiro – ou seus zeros à direita – desaparecesse.
A verdade é que temos muito a aprender sobre como lidar com dinheiro. “Agora chega”, diz a economista Virene Roxo Matesco, da FGV. “A inflação foi debelada em 1994. Já temos uma geração de consumidores que não sabe o que é isso”, diz. “As pessoas não têm ideia do custo-benefício de poupar”. Pois é. Uma hora a gente aprende. Mas, se o governo e as empresas não colaborarem, investindo mais em produção e cortando tributos excessivos, não vai adiantar grande coisa. E vamos continuar enxergando os preços justos como uma atração turística do exterior. (grifo meu).
A “culpa” de endividamentos, custo alto de “vida” (entenda-se o que quiser por vida!) e etc., é por conta do “status”. Isto quer dizer a “culpabilidade de Robinson Crusoé”, ou seja, do indivíduo isolado, por isso autônomo, e “burro”, já que não tem “educação financeira”. Não faz muito tempo o Fantástico, “grande e honesto” jornalístico dominical – que sua trilha sonora de fechamento indica o depressivo e derradeiro suspiro do final de semana –, tinha um “economista” (pode-se chamar assim qualquer um que use uma HP e faça cálculos primários) que “tentava educar” as pessoas a economizar etc.. Todo o problema do capital e da mistificação da realidade se dá por causa do “indivíduo incompetente” e em busca de “status”. Como se necessidade falsificada e supérflua nascesse naturalmente no indivíduo, assim como a fotossíntese ocorre nas plantas. A propaganda, há muito tempo, não é considerada por qualquer sujeito astuto como “gasto” ou mesmo um apêndice do capital: ela mesma é capital, já que ela mesma é produção por si só. Quando se fala de produção, vem à mente produção de coisas empíricas, materiais. Mas desde que a burguesia começa seu trajeto, antes mesmo das revoluções burguesas, a produção da necessidade (não produção do humanamente necessário) é o primeiro quesito a ser pensado. E, além do mais, o status custa, é óbvio, mais caro que um produto qualquer. Fulano não compra em Miami porque é mais “barato”. Isso ele pode fazer no Brás, com bugigangas de todos os tipos produzidos a preço de trabalho escravo. Compra em Miami, pois dá status, é importado. É muito fácil falar que “brasileiro adora gastar”, coisa e tal. O difícil é pensar como a produção, em um estado cordial e cínico, é altamente corrosiva. Empréstimo, crédito, é, em uma palavra, produção: é investimento e superexploração por agiotagem de banqueiro. O crédito capitalista nada tem a ver com “bondade” ou “aquecimento do mercado”, com “consumo” ou coisas mais.
Por outro lado, insistir que “consumo” e “produção” tem que crescer juntos, invertendo os polos – “Mas se a produção não acompanha o consumo, não tem jeito: os preços sobem” – é uma afronta e uma aceitação passiva do capital como natureza primeira. Os meandros e contradições da estrutura do capital não são questionados, tão pouco levados em conta. A produção é produção de distribuição, troca, consumo. Capitalismo não produz coisas. Produz abstrações, modelos que são “comprados” antes das coisas. O próprio movimento do capital, em todas as suas etapas (se é que se pode desmembrar), cria o tipo específico de consumo e o consumidor alienado que nada tem a fazer de modo isolado. O consumo deve ser repensado por meio da produção. Pois mesmo o consumo “consciente” (se é que isso existe sob o Capitalismo) ainda é consumo de coisas supérfluas, ainda é “consumo capitalista”. Assim, levar a crer que o indivíduo “robinsoniano” é o “idiota” da vez, pois ele que fomenta o capital e suas contradições, é fazer o discurso do próprio capital e aceitar seu ultimato. E não é que está na moda fazer tais discursos? Se assim se aceita, não há problemas em tirar a culpa da burguesia, do Estado, da luta de classes, enfim, da própria historicidade do capitalismo e jogá-la em cima dos Robinson Crusóes! Aceitando isso, estamos certos em aceitar a culpabilidade dos indivíduos fragmentados e quase que completamente sem autonomia: joguem os meninos pretinhos na cadeia; curem os gays; não aceitem cotas (já que é esmola) etc.. O indivíduo no seio do capitalismo é filho legítimo de uma má gestação: é açoitado pelo capital abstrato em todas as frentes. Dizer que ele pode “poupar” (e a pergunta: para quê?), é dizer que ele pode, assim, acumular capital para o próprio capital.
Por fim (ufa!), um artigo de revista que expõe “verdades” não problematizadas, estanques e incontestáveis – omite com o intuito de vender –, não “conscientiza”, tampouco faz crítica: antes, produz a pseudoconsciência necessária para que o ritmo do sujeito abstrato não cesse. Produz capital ao produzir – aqui no sentido de expor – ideologia.
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[1] Por Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen. Matéria da Revista Superinteressante, Edição 317 – Abril/2013. Pode ser lido na íntegra aqui:  Por que tudo custa tão caro no Brasil . 


Subsolo!

sábado, 27 de abril de 2013

Afazia dos tempos e um diagnóstico perturbador

[não há nada que faça mais sentido que a falta de sentido]

O que se vive? O subtítulo da Minima Moralia de Adorno é “reflexões a partir da vida lesada [danificada etc.]”. Lesada ou não, ainda há vida. A tese do embate entre razão instrumental e crítica, entre instrumentalização da vida e crítica imanente, é um dos ápices da dialética no século XX. Ainda hoje – e parece que hoje mais que nunca – os críticos dialéticos se voltam ao humanismo. Não aquele “clássico”, ou mesmo algum “humanismo ético” vazio por si só. Mas, na busca pela projeção ao que resta de vida. Entrementes, a vida parece um quadro mal pintado: tudo parece, ao mesmo tempo, claro e indefinido (ou indefinível); sabe-se que há “algum problema”, mas não se sabe o quê. Retificando, então: o quadro apenas parece mal pintado. Cada detalhe do borrão tem um sentido e uma ligação. O problema, poder-se-ia dizer, está no “observador” incauto. Por mais que o “problema” pareça estar no objeto mal programado. Não se quer saber. O problema está em ambos, no quadro que aparece descolado de sentido e no observador, mergulhado no sentido aporeticamente falso. As suas ligações estão dadas no movimento do todo, por mais que esse todo, enquanto tal, não exista de fato e seja apenas uma projeção maluca do sagaz observador. Distanciado do outro, do quadro, em aparência o observador se isenta. Submergido completamente na falsidade do todo, ele não observa a própria moléstia. O outro vazio que se torna o eu, também vazio, é complementado pelo reflexo mal formado do indivíduo suprimido nas sombras. O quadro se completa aqui: não há nada no quadro que se deixe escapar. Aquele que se vê no reflexo, por fim, é o pano de fundo e o centro perturbador da harmonia do todo e, por sua vez, não se pode isentar dessa tarefa – sem ele o quadro não existe.
A vida se vive? Há algo que vive? Talvez o “algo”, aqui, seja esclarecedor (e estarrecedor!). Somente como coisa indefinida, como coisa, que a vida vive. A procura teleológica – que se torna tautológica por si só – é algo que se tem, e que se desfaz a si própria. Se, por sua vez, Kant dizia que – em palavras “populares” – por linhas tortas e egoístas a humanidade se harmoniza na evolução cega de si, ele não supunha que, mais tarde, o próprio egoísmo seria suplantado pelo egoísmo cego de si que harmoniza a estaticidade do todo. Hegel via um problema na sociedade civil-burguesa, um “medo” enquanto “estado do entendimento”: era o medo do presente em embate à projeção otimista do Estado lógico e futurista. A afazia do tempo, de um tempo inumano e tonitruante, que a tudo suga no desespero de um buraco negro, sobrepuja a lógica e dá um golpe de Minerva no que restava de vida: a engole. O grande Cronos que a tudo devora sem titubear, não se estarrece de seu poder. Ele não tem consciência que está morto! Não sabe o que faz, e ainda assim, faz. O presente domina a tudo: não se pode mais pensar o passado, devorá-lo, consumi-lo; e o futuro não passa de um vazio preenchido cada vez mais com os signos presentes que ainda aparecem como “borrões” a serem resolvidos.
Esse tempo estático (e extático), morto e que a tudo devora, ainda que na cegueira imanente de si, comanda as voltas dos ponteiros; e, por sua vez, é comandado pela coisa inumana e perturbadora. É somente assim que se confere harmonia ao todo. Somente algo perturbador da harmonia pode dar de lambuja uma finalidade para algo sem vida. É claro que tudo aparece, no holograma da realidade efetiva, como certo e verdadeiro. Somente assim que se pode confiar no absurdo: é na totalização do mundo a partir de um “si” morto e estático que se pode fiar nesse mesmo mundo ora totalizado. Em tempo: é somente da injunção problemática do eu e do outro, do eu vazio impondo sua vacuidade ao outro como aparência de liberdade efetiva que se podem vislumbrar os processos de totalização do mundo.
Quando a vida era danificada, no século XX, ela ainda era vida, ainda dava seus últimos suspiros. Somente agora que tudo isso ficou para trás e foi devorado. Somente agora que o presente é total, que gira somente entorno de sua própria cabeça achatada e vazia, é que consome a si próprio não mais se comendo pelo rabo – sim pelas entranhas! Não há mais nada que não esteja sujeito a esse processo. Não há nada que não esteja no centro borrado e altamente iluminado do quadro. Se Goethe tivesse escrito seu Fausto hoje, a cena dos velhos que se recusam a ceder não existiria. Eles tampouco existiriam. Mefisto seria, ele mesmo, um zero à esquerda; e Fausto seria um tresloucado (como era) anônimo no meio da multidão de Faustos “pós-modernos”...  
Subsolo!

sábado, 20 de abril de 2013

Estado Paranoia


Algumas reflexões e impasses junto aos alunos
 fazem pensar certas coisas de outros modos.

Paranoia. Este é o estado no qual se encontra as pessoas atualmente. Nas metrópoles – e isso não diz respeito somente à São Paulo – e também nos grandes centros de poder e decisão, em suma, no atual estágio do capitalismo, as pessoas, os Estados, as relações sociais são, em estado de exceção – e isso que surgiu na conversa com os alunos de modo bem trivial e reflexivo –, todos eles psicopatas por excelência. Em estado de exceção, sim, já que “é como prevenção que se deve ser paranoico”.  Os ataques discriminatórios, que julgam por “conceito-pré-conceito”, são sempre frutos de uma paranoia imanente e naturalizada. Não é mais um luxo dos usuários de crack ver “bichos” os perseguindo. Atravessar a rua para se "prevenir" de um assalto ou de um estupro, correr depois das 22h para fugir sabe-se lá do quê, não conseguir olhar aos olhos de outro sem tremer (principalmente à noite), denunciar e acusar, são estados “normais” em vista da “sobrevivência” do indivíduo. A “guerra sem baixas” do século XXI, como já apontam alguns pensadores, é exatamente a guerra de prevenção. Os bombardeios de 2002 ao Afeganistão e a derrubada de Saddam Hussein não indicam isso também? A H1N1 não criou um estado paranoico no mundo? E, logo, algumas pesquisas revelaram que a gripe “normal” derrubava mais gente que a tal “peste do século XXI”.
Se a histeria foi o grande boom da virada do século XIX para o XX, esse estado de exceção que se torna regra e traz em seu bojo o pânico é o que nos circunda e perpetra. O “grande irmão” – as câmeras espalhadas pelas cidades testemunham muito bem isso –, que nos acossa e nos “protege”, é, de fato, a luz do progresso e nossa “segurança em plenitude”: Minority Report é um grande exemplo. Aquilo que José Serra disse em entrevista à CBN, ano passado na corrida das eleições, não era isolado nem espasmos de sua loucura individual: trata-se de um processo. Segundo ele, era (ou melhor: é) necessário identificar potenciais criminosos juvenis nas escolas públicas municipais (e blá blá blá). Esse tipo de pensamento reacionário não era, nem é, isolado: ele retrata o “ZeitGeist” – o “Espírito do Tempo” –, aquilo que já se tornou senso comum no imaginário e agora está tomando forma na linguagem, advindo publicamente e com força. A redução da maioridade penal não é fruto da “paranoia preventiva”? Um estado de coisas paranoico e violento – sociopata – reduz o processo de advento das contradições sociais a um único ponto: eliminação do imediato. É óbvio que o trabalho ideológico junto ao senso comum nem precisa ser tão intenso, já que extenso e se desenrola no tempo, encaixado quase que perfeitamente no decorrer histórico. Além do problema latente que é a luta de classes – no qual só os “mais escuros” e os “menos providos” que irão ser o alvo imediato –, há o problema do transtorno compulsivo social. É aqui que a inumanidade real atinge a si própria, em nome da “vida” e da “paz”, com a morte.
A paranoia real, que insufla a “vida” de cada um todos os dias e faz com que desconfiem de tudo e todos, reiterando, não é mais um luxo dos “noias clássicos”; não é mais uma exceção. E isso está tomando forma de morte na medida em que tende a eliminar o seu anverso: o outro deve deixar de existir, seja ele quem for. Não é esse o discurso neo(nazi)pentecostal? Não é esse o discurso dos “moderninhos alternativos” que, porventura, somente aceitam o “seu” diferente? Não é, também, a prática cotidiana cínica, que “existe racismo, mas ninguém é racista”, que elimina o racismo ao eliminar o objeto (eliminando e incorporando – suprassumindo – seu cabelo, seus modos tradicionais, suas músicas e etc.)?
Quando estiver andando e sentir a necessidade de atravessar a rua por conta de um “potencial estuprador/bandido/marginal”: cuidado, você faz parte (e toma parte) dessa inumanidade mortífera.

Subsolo Urbano! 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lógica inversa: Esclarecimento como contrassenso


2013 é um ano inusitado. E parece que isso vale (e valerá) para este século. É o “novo” século das “luzes”: luzes de computadores sobressaltados dentro dos quartos (para não dizer dos ônibus, salas de aula, rodas de conversa, botequins...) – e das mentes. Essas luzes que ofuscam aquelas outras, tão aclamadas e tão bem recebidas no século XVIII europeu. A novidade do/no século XXI é tão clara quanto às alvas faces da Casa Grande: a democratização. É ela a mais clara das verdades; a grande responsável por todo o processo íntimo de cada relação social. É, ainda, a grande pedra de toque de nossa época. A democracia não poderia ser mais dentro da realidade como aí está. Está confinada ao mesmo tempo em que delimita essa realidade: ela é o grande Outro que perfaz a realidade com toda a força que poderia advir do vazio. E este, o vazio, não provém do nada: ele é fruto da atividade passiva – a interpassividade – dos indivíduos com o mundo. Passividade, sim, que se apresenta formalmente como seu contrário: como interatividade, como práxis efetiva.
O espectro virtual que a tudo vê, a tudo tem acesso – mesmo que não seja por si; e, em si, seja vazio –, perfaz a realidade virtual como realidade efetiva. A substituição da realidade efetiva pela virtual é o grande passo em direção à efetivação do grande Outro longe da esfera simbólica no qual se apresenta. Ou, em outras palavras, é a subsunção da realidade efetiva por sua máscara. Tanto que a máscara toma o lugar do estatuto da “verdade” e, por isso, não há problemas na substituição: welcome to the desert of the real! E essa máscara se objetiva em cultura: ela é o que deve ser feito, acredite – os indivíduos mais sagazes e os mais imbecis – nela ou não. A crença não é o ponto. Este está situado para além dela. No céu cinza da tradição, da cultura. Diga o que tem que ser dito, expresse aquilo que o estatuto moral simbólico ordena e emana. Na atualidade, a ideologia não se dá em “camuflar” a realidade efetiva por meio do discurso ou da prática que a tudo dá outro tom. Antes, ela se dá em criar um espectro como realidade na subsunção da realidade mesma, onde o espectro, longe de esconder alguma coisa, revela o que há de mais latente na realidade e na cultura. A liberdade de expressão, por exemplo, tão proclamada como a grande mãe da era dos tolos, é exatamente o ponto de convergência: ela libera a mentira. Na medida em que o indivíduo mente conforme o escopo requisitado pela ordem simbólica, está tudo bem. O posicionamento “acrítico” que é, no segundo seguinte, condenado por todos, de norte a sul, de leste a oeste; aquele posicionamento que é “contra” (ou “do contra”), contrário ao movimento da maré, é logo tachado como reacionário, preconceituoso, mal esclarecido, semiformado etc.. A liberdade e a autonomia, neste sentido, são de simples definição: concordar com o senso comum. Não importa se acredita naquilo ou não. Não é a crença que está em jogo. Muito pelo contrário, o que está em jogo é a isenção da crença: deixe que algum outro faça isso por mim e que, assim, eu esteja liberado para pensar (e fazer) qualquer outra coisa (no texto sobre Lacan, Como ler Lacan, Žižek dá o exemplo da “roda de orações” tibetana: “eu prendo na roda um pedaço de papel em que a prece está escrita, giro-a mecanicamente [...] e a roda está rezando por mim [...], ‘objetivamente’ eu estou rezando, mesmo que meus pensamentos estejam ocupados com as mais obscenas fantasias sexuais.”). E não é isso que acontece hoje? Não é o “lamento” no muro das lamentações virtual que me libera para a inação? Não é, por falta de acaso, o grande Outro que me acolhe como um crítico, um revolucionário ou como um descontente que toma a continuidade (senão todo) do “serviço” por mim? A verdadeira práxis política já não tem mais lugar nesse espaço. Espaço, no entanto, que é todo ele ciberespaço, virtualizado mesmo nas relações mais íntimas. E não, simplesmente, por que todas as relações vão parar no muro das lamentações; antes, exatamente por conta de toda a realidade efetiva ter se tornado realidade virtual, virtualizada em ato. Será que no limiar, a fuga da realidade dura tornou a própria fuga a realidade efetiva?

Em termos mais concretos, quantos de nós sabíamos quem era quem, na década passada, que possuía algum poder político-burocrático (como “político profissional”) e, além do mais, para que e para quem se direcionava tal poder? Quantos tentaram ver a ascensão frenética – quase neurótica – do “protestantismo popular”, nas décadas passadas, como imanente ao movimento do real, ao movimento específico da sociedade, desta sociedade? Ora, a grande questão é que agora – e esse agora sempre é o que parece importar – todos, sem exceção – são politizados, críticos dos mais vorazes. Todos deixam seu “pedaço de papel [virtual] pendurado na roda de orações” e se liberam para qualquer outra atividade, seja ela contraditória ao que está escrito no “papel” (o que invariavelmente é), ou não. Somente o indivíduo suprimido pela ordem simbólica esmagadora do capital e de todo movimento da realidade subsumida é que pode, sem embargo, ser politizado sem sê-lo efetivamente: basta o ser virtualmente. Isso transformou o material básico dos fantoches: não são mais de pano, maleáveis para o vai-e-vem ideológico tradicional; são de pedra, da mais dura, aquela que nada penetra que não seja inequivocamente ordenado pela ordem simbólica. O “processo” de politização (processo no superlativo) criou seu contrário: indivíduos vazios – sentindo-se, obviamente, preenchidos (mesmo que não saibam qual a contradição de um preenchimento pelo vácuo). E não é aqui que entram os casos mais recentes? Não é aqui que uns e outros se “posicionam” amargamente? Nesse processo de politização técnica, que esvazia tudo, que solidifica tudo que antes desmanchava no ar, que se podem enquadrar os casos mais “polêmicos”. O indivíduo suprimido aparece como seu contrário. E, claro está, suas supostas manifestações mais contundentes não dizem realmente o que querem dizer? Se é para as “minorias” que um tal “religioso” se transformou no foco, ele está onde deve estar: representando as minorias (já que é uma minoria que o apoia). E não está onde está por conta da própria negatividade auto-negada do processo de “contestações” da população “altamente politizada”? E não é aqui que o esclarecimento dá um golpe de misericórdia em si mesmo, em autoflagelação? E a pergunta persiste: que fazer (se é que há algo a fazer)? 

Subsolo! 


sexta-feira, 8 de março de 2013

"Não lhe darei flores!"



Muito bonita e, até certo ponto, corajosa a campanha contra a violência física desferida em relação às mulheres: muito necessária no cenário atual. As mudanças são lentas, sabe-se. Mesmo assim, de uns anos para cá, parece que tem crescido o número de manifestações favoráveis à igualdade pela diferença, isto é, a igualdade civil independente das diferenças de outras ordens. A lei Maria da Penha é um passo importante na legislação brasileira, no direito etc.. Mas, lei é lei, simplesmente: não cria costume e tampouco cultura. Pelo contrário, em grande parte é derivada da tradição, da cultura e dos costumes, mesmo estes sendo enviesados. E é neste ponto que a legislação combate, pelo menos no plano genérico, o que se tornou costume e tende a impulsionar o debate sobre o tema. Assim acontece em alguns campos na atualidade brasileira: seja o debate sobre gênero, sexualidade, raça/etnia etc.. No entanto, alguns pontos são relegados, como se não fossem de primeira ordem. O próprio discurso positivo, aquele que vai em direção a combater tal ou tal costume/prática, escamoteia as outras faces do objeto que se propôs a debater. Cria, entre outras coisas, um senso comum que ou adere, ou rejeita o que foi tornado senso comum. Dito em outras palavras: cria um estereótipo limitador do que e como deve ser debatido na esfera pública e pensado e praticado na esfera privada.
Do início do século passado para cá, muita coisa mudou. O século XX, como se sabe, é o século que fez, grosso modo, os milênios de história humana em 100 anos. Antes da metade do século, é sabido, uma mulher acusada de adultério, por exemplo, era, em muitos casos, uma mulher apedrejada, morta de alguma forma em “legítima defesa” (ops!): em defesa da “honra”. Resquício vivo do patriarcalismo que ainda resiste hoje. Contudo, talvez felizmente, algumas coisas mudaram, e o que vale hoje é seu contrário: a honra, pelo menos a pública e “legal”, está do outro lado, do lado de quem não apedreja. E, claro, se isso ocorre, há uma senhora dita lei que tende, talvez, salvaguardá-la. No século que transcorreu, elas “conquistaram” o direito ao trabalho, triplo diga-se – mesmo que o fato de ter de trabalhar não traz autonomia nem igualdade: a superioridade patriarcal e mandona do “indivíduo macho” passa do sujeito de carne e osso, concreto, para o sujeito abstrato, capital. Uma “conquista” realizada pela sociedade do trabalho alienado, da sociedade de consumo – consumo, inclusive e principalmente, de corpos e almas. Ainda assim, as transformações, não só em relação ao trabalho, se deram como um ganho, não só para as mulheres.  
De outro lado, porém, não se vence uma guerra lutando apenas uma batalha, que está em curso ainda. O efeito limitador do debate público e da atitude privada se dá quando força o pensamento apenas a ver “violência” como aquela que é desferida com golpes de martelo. E, ainda, depende de quem e por quais motivos os receberam: há um julgamento moralizante que averigua, esmiúça sobre a “procedência” daquela que é agredida fisicamente. Da mesma forma que racismo não é simplesmente alguém agredir um preto na rua, prendê-lo sem motivos e etc., mas, vai além disso – quando a “tiazinha” atravessa a rua para não passar na mesma calçada que eu quando estou indo à escola, ou quando “me denunciam” à polícia com a alegação “aquele de ‘rastafari’ em frente à escola estava usando droga ali e repassando” –, enfim, não é simplesmente física: a violência simbólica foi, e ainda é com toda força do espírito, a mais violenta. E ela é, muitas vezes, silenciosa, pois se dá como “jocosa”, em tom de “brincadeira” ou “piada”, ou ainda é escamoteada e desvirtuada pelo cinismo vigente. Dá-se, além, quando ainda há um chefe de família – e um tipo de família vigente aceito pelo senso comum –, quando a jornada da mulher é tripla, quando ela é vista como “café com leite”, por exemplo, ao volante ou em outras esferas na vida real e cotidiana.
Uma coisa só se altera, com a alteração das demais, conjuntamente, ou mesmo com a criação de um processo de embate em relação às situações que a envolvem e estão juntas a ela. A violência física só pode ser banida para sempre na medida em que a sua criação simbólica, que aparece já na primeira infância, é alterada e transformada radicalmente. “Segurar-se” para não agredir alguém que julga ser seu serviçal e inferior perante a si mesmo, ainda que com a desculpa esfarrapada de estar “bêbado”, não é tão difícil. Difícil mesmo é encostar o umbigo na pia e não achar que isso é coisa de mulher. É passar roupa e cuidar das crianças. Difícil é aceitar que acidentes de trânsito são causados, em sua maioria, por “indivíduos machos”, que se julgam os melhores. Difícil, também, é não chamar de “vagabunda”, “vadia”, ou seja o que for, qualquer mulher – tratando-a como “mulher qualquer”. Quase impossível é tentar ver as relações com outros olhos, e aceitar que “meninos protomachos” também devem brincar de casinha, cuidar de bonecas e etc., pois as funções sociais, familiares etc., não possuem gênero. Enfim. Difícil, sim, é aceitar que não há desigualdade, mas diferença. E só com a superação dessas, e outras tantas, “dificuldades”, é que, talvez e num processo longo e lento, possamos pensar em alguma transformação efetiva dessa realidade caótica. E isso vale para gênero, sexualidade, raça/etnia etc..
Portanto, não lhe darei flores! Não lhe direi “parabéns”! Não farei o papel boçal do senso comum viciante. Não! Recuso-me a isso! E não é de hoje. E, muito pelo contrário, estarei – como estou – nas fileiras contigo, lutando.

“Meu Único Dia de Mulher”

Oito de março lembrou de mim
mandou flores, tocou até tamborim,
como presente de consolação,
além dos bombons, ganhei cartão
elogiou tanto o meu caráter
e me fez sentir rainha
fingiu esquecer que não cobiçava o meu corpo,
mas sim a minha carinha
afirmou que sou bela por ser mulher
e disse o quanto sou guerreira de fé
e que sou capaz de vencer todas as barreiras
sou forte e verdadeira
na TV tantas homenagens
que cheguei a acreditar
até que enfim a igualdade está a reinar.

Nove de março, que decepção!
Pia cheia e toalha no chão
pedi para tirar o prato da mesa
e quase levei um bofetão
disse que o serviço de casa era minha obrigação
que mulher só prestava para cozinhar,
fazer sexo,
gerar filhos e amamentar.

Dez de março e a coisa piorou
disse que sou feia, gorda
e não sabe por que casou
e ainda me chamou de burra
e que se eu tivesse estudado
pelo menos era culta.

Os dias passam e fico esperando
Meu único dia de mulher.
Oito de março!
Poesia de minha amiga Elizandra Souza – Mjiba – que consta em seu livro, junto com Akins Kinte, Punga.

Subsolo Urbano!