quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CHOMSKY e as 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

[Nota: o presente texto está publicado no site http://zenildo5023.wordpress.com/2010/08/05/chomsky-e-as-10-estrategias-de-manipulacao-midiatica/. Faço, aqui, a livre utilização de publicização do texto, por se tratar de assunto público de interesse coletivo.]

O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

Salve do Subsolo!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

The Abstract: Q-Tip

         Kamaal Ibn John Fareed, ainda por nós conhecido, popularmente, como Q-Tip. Integrante da lendária A Tribe Called Quest que é, sem dúvida, marco na história do rap: deve-se falar antes de A Tribe e depois. Para mim, não há como questionar a sonoridade de Q-Tip. Uma voz inconfundível, um flow original, um som eterno. Q-Tip, mesmo decorrido mais de 10 anos, continua fantástico.
         A ATCQ - composta por Ali Shaheed Muhammad, Phife Dawg e, é claro, Q-Tip - revolucionou toda a linhagem do movimento quando surgiu o primeiro disco - People's Instinctive Travels and the Paths of Rhythm -, no início da década de 1990: a sagacidade do grupo, a utilização sonora de muito Jazz e Funk'70, além de outros estilos, incluindo a música brasileira, uma nova proposta em suas letras, a ATCQ tornou-se, logo de início, o grande marco do rap. Na curta e instigante trajetória, que 'acaba' em 1998 com o fabuloso disco The Love Movement, a A Tribe arregaçou (para falar em 'nosso' dialeto). Bem, ninguém nunca parou de tocar e cantar. E, claro, a A Tribe, seja nos rolês, no círculo dito underground, na história... enfim, ela nunca deixou de existir. E, ainda, ao que tudo indica, voltará.
          Ah, lógico, esperamos que algum Indie Hip Hop seja iluminado por Q-Tip (os boatos dizem sobre o presente ano, mas, vai saber, né?!)
         O que interessa realmente aqui e agora é relembrar. Claro que com sons e vídeos. Portanto...

We've got Jazz!
[vídeos]










[Sons]


Salve do Subolo!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"A dúvida de Cézanne" [fragmento de um pequeno estudo]

Paul Cézanne: século XIX. Teve amizade com o gigante Zola (Émile Zola). Teve, além disso, uma vida cheia de atribulações; sua obra não foi compreendida em sua época; ele mesmo não foi compreendido. Entretanto, sua pintura supera até tais fatos. 
Bem, a intenção aqui não é ficar falando da vida de Cézanne. Antes, pretende-se colocar um fragmento de interpretação acerca do texto de Merleau-Ponty sobre a obra daquele. Extraído de um texto denso, complicado, mas aprazível, escrito por Merleau-Ponty... Aqui, a pequena tentativa de compreender os dois: um artista fabuloso e um pensador instigante.  

Bem, sem demorar mais, eis algumas obras de Cézanne; o texto, que fica aberto às críticas e etc.; e a satisfação de ter podido ter contato, em algum momento de minha singela existência, com tudo isso.

Salve do Subsolo Urbano!

Auto-retrato com paleta [1885-1887]



A casa do enforcado [La maison du pendu], 1873

Madame Cezanne numa cadeira amarelo (1888-90), Cézanne. 


Flores, 1900

Mount Saint-Victoire 1885


MERLEAU-PONTY, Maurice. A dúvida de Cézanne


Mount Saint-Victoire, 1904-06

“O sentido de sua obra não pode ser determinado por sua vida.”

(MERLEAU-PONTY, A Dúvida de Cézanne, p. 114).


Diferentemente dos impressionistas, que utilizavam as sete cores do prisma, Cézanne usava dezoito. No impressionismo, diz Merleau-Ponty, queria-se restituir a maneira como os objetos atingem a visão e atacam os sentidos: representavam-no, por assim dizer, na sua imediaticidade. Excluíam cores como negro, terra e ocre, e utilizavam apenas aquelas sete cores. Era preciso um jogo de cores para que em uma tela, numa sala de luz tênue, representasse-se, inclusive, a sensação de iluminação do sol. Além disso, não bastava aos impressionistas a cor e o tom local, singular de cada objeto isoladamente. Era preciso “dar conta dos fenômenos de contraste que na natureza modificam as cores locais.” (p. 115). Não obstante, cada cor que a visão capta da natureza dá também a visão da cor complementar e, estas, se exaltam: é preciso dar conta delas. Merleau-Ponty ressalta: “o próprio tom local é decomposto pelos impressionistas”. (Idem). Assim, a tela, justapondo-se as cores ao invés de misturá-las, mesmo não sendo comparável ponto por ponto à natureza, “restabelecia pela ação das partes umas sobre as outras, uma verdade geral da impressão.” (Idem).

Entretanto, em Cézanne isso é diferenciado. Ele queria fazer do impressionismo algo sólido, como que a própria restituição da natureza e não apenas uma impressão. Segundo Merleau-Ponty:

"O uso das cores quentes e do negro mostra que Cézanne quer representar o objeto, reencontrá-lo atrás da atmosfera. Do mesmo modo, renuncia à divisão do tom e a substitui pelas misturas graduadas, por um desenrolar de matizes cromáticos sobre o objeto, pela modulação colorida que segue à forma à luz recebida. A supressão dos contornos precisos em certos casos, a prioridade da cor sobre o desenho não terão evidentemente o mesmo sentido em Cézanne e no impressionismo. O objeto não fica mais coberto de reflexos, perdido em seu intercâmbio com o ar e com os outros objetos, é como que iluminado surdamente do interior, emana a luz e disso resulta uma impressão de solidez e materialidade. Cézanne, outrossim, não renuncia a fazer vibrar as cores quentes, obtém esta sensação colorante pelo emprego do azul." (p.115).

Cézanne “não acha que deve escolher entre a sensação e o pensamento, assim como entre caos e ordem.” (p. 116). Para ele, a pintura deve captar a matéria ao tomar forma, em sua maneira fugaz de aparecer, como a ordem nascendo por uma organização espontânea. Dessa maneira, a linha divisória para Cézanne estava entre essa ordem espontânea das coisas percebidas e a ordem humana das idéias e das ciências. Com isso, os quadros deveriam retratar a impressão da natureza à sua origem. “(...) O gênio de Cézanne consiste em fazer com que as deformações de perspectivas, pela disposição de conjunto do quadro, deixem de ser visíveis por si mesmas na visão global e contribuam apenas, como ocorre na visão natural, para dar a impressão de uma ordem nascente, de um objeto que surge a se aglomerar sob o olhar.” (p. 117).

No quadro que nos propomos a analisar [Mount Saint-Victoire, 1904-06], o azul possui grande destaque, e não por acaso. Cézanne utilizava o azul para, como diz Merleau-Ponty, fazer vibrar as cores quentes e, ainda, traçando vários contornos dessa cor, faz parecer - o objeto pintado - a visão natural, a percepção nascendo no olhar à natureza:

"Não marcar nenhum contorno seria tirar a identidade dos objetos. Marcar apenas um seria sacrificar a profundidade, isto é, a dimensão que nos dá a coisa, não estirada diante de nós, mas repleta de reservas, realidade inesgotável. É por isso que Cézanne vai seguir por uma modulação colorida a intumescência do objeto e marcará em azuis vários contornos. O olhar dançando de um a outro capta um contorno nascendo entre todos eles como na percepção." (p. 117).

Cézanne dizia que para exprimir o mundo a composição de cores deve trazer esse “Todo indivisível”. Como na percepção primordial, não há distinção entre os sentidos, ou, ao menos, não há uma distinção que seja relevante. “A coisa vivida não é reencontrada ou construída a partir dos dados sentidos, mas de pronto se oferece como o centro de onde se irradiam.” (p. 118). Ele queria captar a natureza, a paisagem em sua totalidade, em sua plenitude absoluta.

Na obra de Cézanne, há essa renuncia à divisão do tom e a substituição pelas misturas graduadas, por um desenrolar de matizes cromáticos sobre o objeto, pela modulação colorida que segue à forma, à luz recebida. A utilização do negro e do azul, não definindo por completo o ‘fim’ de um objeto e o ‘começo’ de outro, faz com tenhamos a sensação de uma totalidade da percepção. Contudo, há profundidade, definição pelos vários contornos sem uma divisão estanque, tão pouco uma forma altamente contrastante entre si. A restituição daquela percepção primordial que dizia o artista é dada através da utilização das cores de forma misturada, dando-nos, reiterando, a sensação de uma totalidade captada pelos sentidos, de maneira quase que palpável e com uma vibração como que natural das cores pelo emprego do azul.


Referência

MERLEAU-PONTY, Maurice. "A dúvida de Cézanne". In: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os Gigantes também morrem...

Gigantes morrem. É o fim da infância que anuncia a densidade da morte. Morte de Gigantes; morte que fecha um ciclo que parecia ser infinito. É o fim de uma época e a confusão de outra que chega estabelecida, mesmo contra a vontade que se quer livre, que pensa ser em si e para si. No fim das contas, é tudo uma ilusão. Eles morreram, na maioria, e morrerão. Talvez seja a única coisa certa. O incerto - e há muito de incerteza - é em qual momento entramos. A semelhança com a puberdade, com a vida adulta, é indiscutível. Contudo, o que é ser isso? O que significa ser assim? A falsa moralidade, imposta de fora por algum ser abstraído da alienação vigente, só causa jugalmentos infalíveis e... imorais!
Os Gigantes se foram. Os que não foram, estão indo. Com eles, o Espírito. E, é claro, tal Espírito dorme ao relento, sendo arrastado. Nem se pode dizer que é contra sua vontade. Não tem vontade. É arrastado em seu sono perpétuo de um velho visionário. Ora, ora. O que sobra são migalhas de sinceridade, de autenticidade, de verdade explícita, nua e crua, criada e não imposta. É triste. Aquilo que fez sentido, num momento de extrema importância, hoje sobra em lembranças amargas. Os Gigantes estão indo: é isso que se tem óbvio.
Enfim, os Gigantes foram, morreram, sumiram até da memória. Esta também se foi. Distante dessa falsa moralidade autoritária, o que sobram são resquícios parcos e espassos de propriedade... Os Deuses morreram todos. Sobrou quase nada. Não pela falta e necessidade de Deuses, mas pela escassez de Homens. A vontade clamou por liberdade. Agora está aí, perdida sem saber o que quer. Os Gigantes morreram. Sobrou-nos confusão.
Os Gigantes morrem. Eis a desilusão infantil, o fechamento da alegria, a endurecimento da caminhada. De nada sobrou a não ser marcas profundas, brutas lembranças, que outrora eram doces. A perplexidade causada é mero estranhamento. A moralidade é simplesmente amoral: vai para além de si, já que, esse si, é abstrato, ilusório. Os Gigantes morreram e, com eles, foram todos os pequenos...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

AS MUDANÇAS CONTEMPORÂNEAS NO MUNDO DO TRABALHO: Trabalho Estranhado e Transnacionalização do Capital

[Nota explicativa: Todos os textos ora publicados no Diálogos do Subsolo fazem parte dos meus estudos sobre a categoria trabalho no capitalismo e suas modificações e novas estruturações contemporâneas. É claro, são, em grande parte, introdutórios e indicativos de uma problemática de maior alcance e abrangência. Neste sentido, a intenção é a tentativa teórico-prática de alcançar e entender a estrutura da sociedade atual pensando na idéia de totalidade abrangida pelo trabalho estranhado. As idéias, todos elas, são expressamente baseadas nas leituras de Karl Marx, principalmente daqueles textos da chamada maturidade da teoria marxiana, nos quais o trabalho aparece de forma diferenciada, sendo visto com formação específica na sociedade moderna (vide Capitalismo). Enfim, tais textos aqui publicados são apontamentos para uma superação da dicotomia clássica do Marxismo e, também, visando suprassumir, é claro, o próprio capitalismo. - São aceitas críticas, observações, sugestões de todas as espécies e etc. - Salve do Subsolo]


No final do século XX tende a surgir uma nova estrutura de organização do trabalho em escala mundial. A tomada, em âmbito global, de todos os níveis de relação pelo movimento do capital faz com que o mundo do trabalho se interligue em todo o planeta. Novas formas de organização do trabalho, unidas às precarizações e desestruturações da classe que vive da venda de sua mão de obra ao capital, fazem com que tal globalização reitere uma diferente e única estrutura mundial. Longe de a classe que vive do trabalho sumir, aparecem formas de trabalho que abarcam, a partir do enxugamento do modelo produtivo em vista de um mais eficiente, compondo-se pelos trabalhos de meio expediente, as terceirizações, o alavancamento do terceiro setor, flexibilização do horário e dos modos de trabalho (o que implica numa superexploração do trabalhador), em suma, novos modos de o capital fazer-se crescer a si próprio, sempre em movimento ascendente.   
Desse modo, o trabalho já não está mais centrado totalmente no proletariado industrial. Antes, mesmo que ainda ele seja o nervo central, a organização do trabalho se amplia e, para abarcá-la, faz-se necessário, também, uma ampliação do conceito. Para entender como se configura a classe trabalhadora nesse processo, Ricardo Antunes e Giovanni Alves colocam da seguinte forma:
Compreender, portanto, a classe-que-vive-do-trabalho, a classe trabalhadora hoje, de modo ampliado, implica entender este conjunto de seres sociais que vivem da venda da sua força de trabalho, que são assalariados e desprovidos dos meios de produção. Como todo trabalho produtivo é assalariado, mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo, uma noção contemporânea de classe trabalhadora deve incorporar a totalidade dos(as) trabalhadores(as) assalariados(as). (ANTUNES & ALVES, 2004, p. 343).
Ainda assim, é necessário frisar que mesmo com a flexibilização e com o aumento daqueles trabalhos aparentemente improdutivos (isto é, que não criam valor), eles são incorporados pelo capital de maneira tal que auxiliam – mesmo quando parecem se contrapor, ainda que de forma mínima, ao capital – no desenvolvimento do sistema centrado na exploração – agora superexploração – da mão-de-obra (trabalho vivo ou direto), visando a superprodução de mais-valia.
Neste contexto, o mundo do trabalho torna-se cada vez mais transnacionalizado. Ele está interligado, diretamente, em escala global pela produção:
no contexto do capitalismo mundializado, dado pela transnacionalização do capital e de seu sistema produtivo, a configuração do mundo do trabalho é cada vez mais transnacional. Com a reconfiguração, tanto do espaço quanto do tempo de produção, novas regiões industriais emergem e muitas desaparecem, além de inserirem-se cada vez mais no mercado mundial (ANTUNES & ALVES, 2004, p. 341).
Com isso, surge a flexibilização do modo de produção de capital. Isto faz com que o trabalho seja cada vez mais precarizado, tanto pela redução do trabalho especializado e estável, dos vários modos de trabalho que surgem, como, consequentemente, da grande quantidade de desempregados criados por esse processo. A flexibilização, tanto do trabalho quanto, principalmente, do capital, trazida pelo toyotismo, implica na interligação do mundo pelo movimento da produção. Assim,
Com o desenvolvimento da lean production [produção enxuta] e das formas de horizontalização do capital produtivo, bem como das modalidades de flexibilização e desconcentração do espaço físico produtivo, da introdução da máquina informatizada, como a “telemática” (que permite relações diretas entre empresas muito distantes), tem sido possível constatar uma redução do proletariado estável, herdeiro da fase taylorista/fordista. (ANTUNES & ALVES, 2004, p. 337).
Paulo Sérgio do Carmo, em seu texto O trabalho na economia global (1998) reitera a idéia de que está é uma tendência que transforma por completo a relação que anteriormente existia entre trabalho e capital. Diz Carmo:
a produção flexível, longe da rigidez do fordismo, apóia-se na flexibilidade organizacional do trabalho, das formas de contratação do trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Agilidade e eficiência nas tomadas de decisão constituem princípios básicos para a luta pela concorrência. Cada vez mais se estreita o tempo para tomar decisões, exigindo mais rapidez de resposta por parte das instituições públicas e privadas. (CARMO, 1998, p. 46).
E o autor complementa:
Como conseqüência, essa política econômica flexível tem resultado em desemprego, postos de trabalho mal remunerados, retrocesso do poder sindical, destruição de antigas habilidades e construção de novas, além do aumento da capacidade de fabricação de uma variedade de artigos em pequenos lotes a preços baixos e com rápidos giros de estoques. Houve também a flexibilização do processo de produção, capacitando as empresas a responder às diferentes necessidades do consumidor no mercado instável e fugaz. (CARMO, 1998, p. 46).
De tal modo, o capital consegue um feito inédito na história do capitalismo: a subsunção real do trabalhador ao capital (ANTUNES & ALVES, 2004). Fica evidente que o capital, na produção da vida material por meio das várias instâncias do trabalho estranhado (e isso incluí as múltiplas novas formas de organização do mundo do trabalho), ao se abstrair fugindo ao controle daqueles que o produzem, se humaniza na desumanização do trabalhador estranhado: ele se autonomiza coordenando seu próprio movimento e o das esferas submetidas a si. Assim, inclusive a esfera privada do trabalhador é submetida ao capital. Tais esferas são aquelas que envolvem como um todo o trabalhador na produção, incluindo-se as partes conscientes e psicológicas que, na fase anterior do capitalismo, eram somente formalmente submetidas ao capital.
Desde a sua origem, o modo capitalista de produção pressupõe um envolvimento operário, ou seja, formas de captura da subjetividade operária pelo capital, ou, mais precisamente, da sua subsunção à lógica do capital (observando que o termo “subsunção” não é meramente “submissão” ou “subordinação”, uma vez que possui um conteúdo dialético – mas é algo que precisa ser reiteradamente afirmado). O que muda é a forma de implicação do elemento subjetivo na produção do capital, que, sob o taylorismo/fordismo, ainda era meramente formal e com o toyotismo tende a ser real, com o capital buscando capturar a subjetividade operária de modo integral. (ANTUNES & ALVES, 2004, p. 344).
Neste sentido, o capital torna-se fetiche, edificado em sua produção, e tende a tomar e a controlar todas as esferas da vida em sociedade, desde sua própria produção quanto de suas sínteses, as quais a mais expressa é a relação social que também é suprassumida pelo movimento dominador abstrato do capital transnacional.
Sendo assim, a escalada do capital em âmbito global só tende a se contrapor aos indivíduos que vivem da venda de sua mão-de-obra. Em seu movimento autônomo, ele submete todas as instâncias da vida ao seu jugo. E, ao precarizar todas as esferas do trabalho assalariado e fragmentá-lo em várias esferas de organização, torna-se mais fortalecido. Fica patente, portanto, que a transnacionalização do capital torna-o mais forte e eficaz, subsumindo o trabalho ao seu movimento e tornando aqueles que vivem da venda da força de trabalho mais precarizados e instáveis em suas vidas individual e coletiva.      


Referências bibliográficas
ANTUNES, Ricardo & ALVES, Giovanni. “As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital”. IN: Revista Educação & Sociedade. Campinas, vol. 25, n. 87, pp. 335-351, maio/ago, 2004. Disponível em: http://www.cedes.unicamp.br
CARMO, Paulo Sérgio do. O trabalho na economia global. São Paulo: Editora Moderna, 1998.
MARX, Karl. Capital e Tecnologia (Manuscritos de 1861-1863). Traduzido por Elídio Marques [tradução de extrato (pp. 161-164) do original em castelhano Capital y Tecnologia – Manuscritos Inéditos (1861-1863)]. 2009. Disponível em:

___. Maquinaria e Trabalho Vivo: Os Efeitos da Mecanização Sobre o Trabalhador. Traduzido por Jesus Ranieri. 2008. Disponível em:

http://www.marxists.org/portugues/marx/1863/05/maquinaria.htm#r2. Acessado em: 26/05/2010.

NEGT, Oskar; KLUGE, Alexander. “O trabalhador total, criado pelo capital com força de realidade, mas que é falso”. In: ___. O que há de político na política? Relações de medida em política. 15 propostas sobre a capacidade de discernimento. Trad. João Azenha Júnior; colaboração Karola Zimber. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, pp. 103-34, 1999. 
POSTONE, Moishe. Time, labor and social domination: A reinterpretation of Marx’s critical theory. New York: Cambridge University Press, 1993.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Facetas de um Progresso às avessas

Há 40 ou 50 anos, o Rio era representado por músicos que fizeram, literalmente, o mundo. Não só o Rio de Janeiro, mas é a partir daqui que me proponho a falar da Música. Desde o Samba à Bossa, passando pelas  variações e junções de estilos, chegávamos à perfeição sem muito esforço. Quem, lá de fora, ouvia nossa música ficava 'doido'. Quincy Jones é um exemplo: tentou tocar como Jorge Ben. Não conseguindo fez com que os discos do cara saíssem lá fora por meio de seu Selo. Pixinguinha e Cartola são, sem exagero, gênios. Cannonball Adderley fez um disco só de Bossa. Samba de uma nota só é um dos sons mais gravados, juntamente com Só danço samba (Jazz 'N' Samba) e Mais que nada, por aí vai. Além de, por meio de nossa música - e não por meio do famigerado Futebol (o Panis et Circenses 'mudernu') - termos sido reverenciados por todos, sem exceção. Os 'gringos', hoje, conhecem mais de nossa pregressa música que nós mesmos. Baden Powell viveu mais fora do que no seu país, mesmo nunca tendo esquecido sua cidadezinha do interior (Varre-Sai). Nossa música, enfim, não era somente de primeira qualidade e admirada por todos; era, também, de uma sagacidade e versatilidade sem igual. 
Hoje, o que temos nos representando é nada mais nada menos que Parangolé - e toda famigerada Trupe Midiática. Olha só que Progresso! Será que 40 anos - até menos - foram o bastante para nos levar do Paraíso ao mais baixo nível do lumpenzinato musical (se é que se pode chamar de musical sem afetar o cérebro e os ouvidos)? É claro que está aí, intrínseco e escondido neste processo, toda uma totalidade histórico-social que nos fez rebaixar não só musicalmente, mas também enquanto Povo. É mais claro ainda que me pergunto, todos os dias, se só isso conta; será mesmo que a decadência social, o giro de Capital abstrato dominando todas as relações são mesmo suficientes para determinar uma época histórica em sua totalidade? Sinceramente, fico pendente a dizer que sim, mas não sei. Enfim, a pergunta que não cala nunca: que tipo de Progresso é esse? Onde que as pessoas vêem-no? Onde a tão falada e fadada modernidade (ou pós-modernidade [sic!]) nos trouxe?
Hoje não se consegue extrair mais Coisa alguma de ninguém. Mal se sabe o que é uma nota, quem diria uma harmonia, uma música no sentido lato: vivenciamos uma época de "muita saúva e pouca saúde" (só para lembrar Macunaíma); de muito barulho e nenhuma reflexão. Que lixo!
Por fim, para onde estamos indo? E claro que o que me vem à cabeça é o filme Idiocracy e a velha frase do Gus: "séculos e séculos de má alimentação fizeram o povo emburrecer!" - Vou jantar...

Reflexões Urban Underground!

sábado, 19 de junho de 2010

Futebol dos Filósofos

Estes dias, chegando em casa e assistindo um pedaço da famigerada Copa, vi algo que me fez rir e lembrar da refinada trupe Monty Phyton. Era o jogo da Grécia contra alguma outra seleção que não lembro nem faço questão: não vêm ao caso. O que importa é que, vendo aquelas figuras gregas de cabeças cônicas, traços de escultura em pedra, fez-me lembrar daquelas imagens que nos deparamos nos livros gerais de História da Filosofia Antiga ou aqueles mesmo de Introdução... Que engraçado! Parecia que estava vendo um conjugado da Academia com o Liceu. Era quase impossível não lembrar de Monty Phyton. Enfim, só para relembrar, para não deixar passar em branco tal fato, é óbvio que postarei abaixo o vídeo e ficará, assim, até quando for necessário e interessante sorrir.

Bem, sem mais delongas, aqui vai o Futebol dos Filósofos.

Salve Filosófico do Subsolo!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Crítica à noção de Ação Instrumental habermasiana: comentário ao texto “TÉCNICA E CIÊNCIA COMO ‘IDEOLOGIA’” de Jürgen Habermas

Introdução

O objetivo do presente texto é comentar criticamente a noção de ação instrumental habermasiana. Para tanto, no primeiro momento demonstrar-se-á, a partir da teoria madura de Marx e da teoria crítica social de Herbert Marcuse, como a ciência e a técnica são apropriadas e fomentadas de maneira específica pela formação social capitalista. Em seguida, visa-se expor como tais categorias apresentam-se como dominadoras das relações sociais e, não obstante, como ideológicas. Por fim, far-se-á a crítica à Habermas partindo da crítica ideológica que o autor faz à Marcuse e ao materialismo histórico como um todo, seguida das considerações finais.
Partindo disso, será utilizado o texto de Habermas intitulado Técnica e ciência como ‘ideologia’ que compõe a coletânea de mesmo nome. Nele, o autor expressa sua noção que chama por ação instrumental ou ação racional teleológica (trabalho): é “ação instrumental ou a escolha racional ou, então, uma combinação das duas”, orientadas por regras técnicas que se apóiam no saber empírico (HABERMAS, 2001, p. 57). Nesta esfera, o gênero humano teria levado a cabo sua mais elevada capacidade, sua aspiração e satisfação das necessidades. Portanto tal esfera, para Habermas, está isenta de críticas por não representar o campo no qual os homens carecem de emancipação contendo, tão somente, o domínio no qual se satisfazem necessidades. Contudo, na esfera da comunicação, aquela na qual o gênero humano deve buscar emancipação, há interferência do domínio técnico da ação instrumental, que impede tal libertação. Por ação comunicativa, o filósofo entende “uma interação simbolicamente mediada”, orientada por “normas de vigência obrigatória que definem expectativas recíprocas de comportamento e que têm de ser entendidas e reconhecidas, pelo menos, por dois sujeitos agentes.” (HABERMAS, 2001, p. 57). A ação comunicativa sofre coação e coerção do plano no qual opera a ação instrumental que impede que a interação logre êxito: é isso, para Habermas, que deve ser criticado.
Como se verá, o âmbito no qual Habermas posta sua crítica é ideológico por se tratar de uma particularidade da totalidade social que, não obstante, é determinada pela esfera do trabalho, que para ele é isenta. É neste sentido, o de demonstrar a primazia da manifestação do trabalho no capitalismo para a constituição e determinação da totalidade, que se assentará a crítica do presente texto.

A especificidade da Ciência e da Técnica no capitalismo
O capitalismo introduz uma novidade histórica na produção social: a fragmentação do trabalho. Se antes o que se observava era uma produção não fomentada pelo tempo e pela produtividade como primeiro motor da totalidade social, vemos, agora, trabalho estranhado, castrador e limitador das potencialidades humanas. Na fase que precede o capitalismo, a produção da vida material era, grosso modo, regulada pelo valor de uso das coisas. Com o advento da fragmentação do trabalho através da nova organização – pautada pela produção de valores de troca, de trabalho excedente, mais-valia e etc. –, a fábrica, local por excelência de efetivação desse novo modo de produção, coloca o saber científico a seu serviço.
Em dois textos da década de 1860, Marx[1] expressa o modo específico com o qual o capitalismo trata a ciência, apropriando-se dela de modo único, e, além disso, impondo uma nova técnica ao processo de trabalho:
O modo capitalista de produção é o primeiro a colocar as ciências naturais a serviço direto do processo de produção, quando o desenvolvimento da produção proporciona, diferentemente, os instrumentos para a conquista teórica da natureza. A ciência logra o reconhecimento de ser um meio para produzir riqueza, um meio de enriquecimento.
Deste modo, os processos produtivos se apresentam pela primeira vez como problemas práticos, que só se podem resolver cientificamente. A experiência e a observação (e as necessidades do processo produtivo) alcançam, assim, pela primeira vez, um nível que permite e torna indispensável o emprego da ciência. (MARX, 2009, s/ página).
Aliado ao processo de apropriação da ciência pela classe dos capitalistas, consequentemente pelo capital, uma nova técnica surge com a introdução do modo de produção moderno. Assim como salienta Edgar de Decca em seu texto O nascimento das Fábricas (1984), a “fábrica, ao mesmo tempo em que confirmava a potencialidade criadora do trabalho, anunciava a dimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria. (...) a presença da máquina definiu de uma vez por todas a fábrica como o lugar da superação das barreiras da própria condição humana.” (DECCA, 1984, p.8-9). Marx, da mesma maneira, deixa patente que “a máquina aparece aqui como elemento intrínseco ao modo de produção capitalista, como uma revolução no interior do modo de produção em geral.” (2008, s/ página).
Dessa forma, o que está em jogo é o modo de organização da produção, especificamente aquele por meio do qual se efetiva a relação entre os homens e entre eles e a natureza: o trabalho. No capitalismo, a categoria trabalho está baseada no dispêndio de tempo e na criação de valor. A produção de valor e capital se dá não pelo trabalho em geral, como relação pura e simples do ser genérico com a natureza; antes, o que vigora em tal momento histórico da produção da vida material é trabalho estranhado. Este, sim, é que engendra, com sua fragmentação e limitação intrínseca, o modo por meio do qual a ciência é apropriada pela produção e pelo capital – contraditoriamente ao mesmo tempo em que a produção capitalista põe a oportunidade histórica de libertação do homem do fardo imposto pela necessidade, coloca como potência (no sentido aristotélico) a possibilidade de superação de tal fardo histórico; libera todas as potencialidades ilimitadas de criação humana como possíveis de efetivação. Como a forma na qual tal modo de organização do trabalho ocorre no sistema capitalista gera valor, consequentemente, com a fragmentação e castração do trabalhador individual, ocorre aquilo que Marx chamará de fetiche: a abstração, objetivação e humanização da produção desvinculada – criando autonomia no desligamento – do trabalhador enquanto produtor e suposto controlador dela. Tal fragmentação impede que o trabalhador estranhado se aproprie da síntese resultante do processo que ele mesmo cria: a síntese é apropriada (ou expropriada) pelo capital enquanto abstração tornada autônoma no processo. Oskar Negt e Alexander Kluge colocam que, em seu movimento autônomo, “o capital subtrai da força de trabalho socialmente produtiva uma das sínteses que partem dele (a relação social), institui uma combinação, com poder de realidade, da força de trabalho social.” (NEGT; KLUGE, 1999, p. 104).
O capital, enquanto entidade abstrata e autônoma, se apropria da síntese que deveria ser o retorno da produção das coisas para a produção humana, como momento da reconciliação do produtor consigo mesmo. De tal modo, o capital subtrai para si tudo que é produção humana. Neste sentido, ele toma para si e controla a ciência em seu próprio benefício: “o capital não cria a ciência e sim a explora apropriando-se dela no processo produtivo. Com isto se produz, simultaneamente, a separação entre a ciência, enquanto ciência aplicada à produção e o trabalho direto, enquanto nas fases anteriores da produção a experiência e o intercâmbio limitado de conhecimentos estavam ligados diretamente ao próprio trabalho” (MARX, 2009, s/ página). O capital, segundo Marx, além de apropriar para si as ciências, fomenta-a, dando-lhe os meios materiais para sua progressão:
o desenvolvimento das ciências naturais (que formam, aliás, a base de qualquer conhecimento), como de qualquer noção (que se refira ao processo produtivo) ocorre novamente sobre a base da produção capitalista que pela primeira vez lhes proporciona em grande medida - às ciências - os meios materiais de investigação, observação, experimentação. Já que as ciências são utilizadas pelo capital como meio de enriquecimento e se convertem, portanto, em meios de enriquecimento para os homens que se ocupam do desenvolvimento das ciências, os homens de ciência competem entre si no intento de encontrar uma aplicação prática da ciência. De outro lado, a invenção se converte em uma espécie de artesanato. Por isso, junto com a produção capitalista se desenvolve, pela primeira vez de maneira consciente, o fator científico em certo nível, se emprega e se constitui em dimensões que não se poderiam conceber em épocas anteriores (...) (MARX, 2009, s/ página).
Neste âmbito, em A responsabilidade da ciência (2009), Marcuse ressalta que a responsabilidade pertinente à ciência perante a sociedade é “ditada pela estrutura interna e o telos da ciência, e pelo lugar e função da ciência na realidade social.” (MARCUSE, 2009, p. 159). Na sociedade industrial avançada, diz o filósofo, a aplicação técnica e científica da tecnologia transformou e desmistificou a ideologia de tal sociedade, e a instituiu no âmbito próprio da produção: a ideologia não está mais, tão somente, no discurso da classe dominante; antes, está na utilização e no movimento concreto da tecnologia enquanto dominação e movimento abstrato do capital: “na medida em que a ciência é parte da base da sociedade ela se torna um poder material, uma força política e econômica, e todo cientista individual é uma parte desse poder.” (MARCUSE, 2009, p. 163). Não é só, portanto, a capacidade da ciência que é apropriada pela sociedade industrial; é, também, a capacidade criadora e supostamente autônoma daqueles que criam individualmente tal poder. O cientista, de tal forma, não está isento da aplicação que se dá para ciência, mesmo que ele também seja determinado pelo movimento do capital enquanto dominador e determinante fundamental da totalidade social e, assim, do próprio rumo que tal sociedade toma. Além disso, ainda segundo Herbert Marcuse,
a ciência moderna em seus começos (...) foi destrutiva do dogmatismo e da superstição medievais, destrutiva da aliança sagrada entre filosofia e autoridade irracional, destrutiva da justificação teológica da desigualdade e da exploração. A ciência moderna desenvolveu-se em conflito com os poderes que se opunham à liberdade de pensamento; hoje a própria ciência encontra-se em aliança com os poderes que ameaçam a autonomia humana e frustram a tentativa de realizar uma existência livre e racional. (MARCUSE, 2009, p. 162).
A técnica e a forma sob a qual a ciência é aplicada na modernidade são determinadas, em última instância, pela produção material desta sociedade: o uso que a classe de capitalistas faz da tecnologia, por via destas técnica e ciência modernas, dá-se em vistas da perpetuação de tal condição social e, não obstante, a manutenção da produção de capital chegou em um ponto que não se pode abrir mão de sua utilização sem prejuízos para o modo de produção.

Técnica e Ciência como dominação e ideologia
A partir do trabalho estranhado e, unido a ele, da especificidade da utilização tecnológica, enquanto emprego técnico da ciência e do homem tornado apêndice técnico de tal uso, o capital, em sua aplicação ideológica concreta da tecnologia, institui formas novas, “mais eficazes e mais agradáveis de controle social e coesão social.” (MARCUSE, 1979, p. 18). Além disso, ressalta Marcuse, “a sociedade se reproduz num crescente conjunto técnico de coisas e relações que incluiu a utilização técnica do homem – em outras palavras, a luta pela existência e a exploração do homem e da natureza se tornaram cada vez mais científicas e racionais.” (MARCUSE, 1979, p. 144). De tal maneira, não é mais o domínio social direto que mantém o sistema de dominação permanentemente coeso, sobreposto sobre si e sobre as pessoas; mas, antes, é o domínio dessa racionalidade – em uma palavra, fetiche da produção – que engendra e perpetua tal condição. O movimento abstrato do capital determina a situação histórica em sua totalidade. A especificidade inerente ao capitalismo faz com que a ciência e a técnica essenciais à formação social mantenham-se intactas. Assim,
a sociedade que projeta e empreende a transformação tecnológica da natureza altera a base da dominação pela substituição gradativa da dependência pessoal (o escravo, do senhor; o servo, do senhor da herdade; o senhor do doador do feudo etc.) pela dependência da ‘ordem objetiva das coisas’ (das leis econômicas, do mercado etc.). Sem dúvida, a ‘ordem objetiva das coisas’ é, ela própria, o resultado da dominação, mas é, não obstante, verdade que a dominação agora gera mais elevada racionalidade – a de uma sociedade que mantém sua estrutura hierárquica enquanto explora com eficiência cada vez maior os recursos naturais e mentais e distribui os benefícios dessa exploração em escala cada vez maior. Os limites dessa racionalidade e sua força sinistra aparecem na escravização progressiva do homem por um aparato produtor que perpetua a luta pela existência, estendendo-o a uma luta total internacional que arruína a vida dos que constroem e usam esse aparato. (MARCUSE, 1979, p. 142).
Esta idéia é reiterada por Moishe Postone: “(...) a dominação social no capitalismo, em seu nível mais fundamental, não consiste na dominação das pessoas por outras pessoas, mas na dominação de pessoas por estruturas sociais abstratas constituídas pelas próprias pessoas” (POSTONE, 1993, p. 30). Tal dominação, como já esboçamos acima, nada mais é que o fetiche da produção de capital que em seu movimento tornado autônomo domina as relações sociais ao subtrair para si uma das sínteses do movimento do trabalho estranhado e coisificado. Não obstante, este fetiche atrela o homem à máquina como subalterno, determinado e dominado por ela. A separação do trabalhador estranhado da apropriação das forças espirituais engendradas pelo processo produtivo da vida material realoca-o abaixo de tais forças, agora tecnicamente abstraídas.
Neste processo, ocorre a subtração das capacidades humanas e a humanização da mercadoria – em sentido lato – produzida. Em longo trecho – que decidimos colocar abaixo – Marx, no texto Maquinaria e Trabalho vivo, explicita como se dá o processo de manutenção da mais-valia pelo movimento de inversão fetichista da produção. Diz Marx:
Nesta forma aparecem como decisivas — portanto como resultado das forças produtivas sociais do trabalho e do trabalho mesmo tomado enquanto condições sociais de trabalho — estas forças não apenas enquanto estranhas ao trabalhador e pertencentes ao capital, mas como supressoras de cada trabalhador singular, forças hostis que oprimem e julgam em favor do interesse do capitalista. Vimos ao mesmo tempo em que o modo de produção capitalista não se modifica formalmente apenas, mas revoluciona a totalidade das condições sociais e tecnológicas do processo de trabalho, e também como o capital não aparece agora somente como aquelas condições materiais do trabalho não pertencentes ao trabalhador — matéria-prima e meios de trabalho —, mas como ele se apresenta como a essência das formas e potências sociais do trabalho em geral, contrapostas a cada trabalhador tomado isoladamente.
Aqui o trabalho passado também se apresenta — tanto na maquinaria automatizada quanto naquela posta em movimento por ele — visivelmente como independente do trabalho enquanto auto-atividade: ao invés de ser subordinado por este último, o trabalho passado é que o subordina a si. Trata-se do homem de ferro contra o homem de carne e osso. A subsunção de seu trabalho ao capital — a absorção de seu trabalho pelo capital —, que está no cerne da produção capitalista, surge aqui como um fator tecnológico. A pedra fundamental está posta: o trabalho morto no movimento dotado de inteligência e o vivo existindo apenas como um de seus órgãos conscientes. A conexão viva do corpo da oficina não se funda mais na cooperação, mas sim no sistema de máquinas que forma agora, a partir do movimento de um motor primário e do abarcamento da totalidade das oficinas, a unidade ampla à qual estas últimas, ao continuarem sendo compostas por trabalhadores, mantêm-se subordinadas. A unidade da maquinaria alcança assim, evidentemente, forma independente e plena autonomia com relação aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que se coloca em oposição a eles.
A oficina que se apóia na maquinaria expulsa continuamente o trabalhador enquanto elemento necessário, ao mesmo tempo em que realoca estes trabalhadores repelidos em funções da própria maquinaria. (MARX, 2008, s/ página).
Sendo assim, o trabalho objetivado (morto; passado) se sobrepõe ao trabalho vivo (direto). O trabalho humano injetado na produção tecnológica, aquela que deveria auxiliar e suprimir o fardo histórico dos homens, faz com que esta se autonomize, pelo mesmo motivo da fragmentação do trabalho. O estranhamento do homem em relação aos seus produtos faz com que aquilo que se produz efetive-se como dominador de tal relação, já que o reconhecimento e o domínio humano sobre a produção é subtraído pelo capital. A maquinaria, a tecnologia em geral, abstraída, domina os trabalhadores e, como reitera Marx, o realoca abaixo, submisso à produção.
Esta a tendência da maquinaria: por um lado, a constante expulsão de trabalhadores, seja do interior daquela oficina já mecanizada, seja do interior dos ofícios; por outro, sua constante reintegração, posto que a partir de um grau determinado de desenvolvimento da força produtiva, o aumento da mais-valia só se coloca com a elevação simultânea do número de trabalhadores ocupados. Esse movimento de atração e expulsão é característico e representa o constante oscilar da existência do trabalhador. (MARX, 2008, s/ página).
É na conjugação de trabalho objetivado e trabalho direto que permanece e aumenta a produção de mais-valia. A máquina, ou o processo mecanizado, por si só não produz valor, tão pouco mais-valia. Entretanto, deve-se lembrar que o trabalho árduo e estafante não é poupado, nem eliminado ou retraído com a introdução da tecnologia em grande escala no processo do capital. Pelo contrário, os trabalhadores, diz Marx (2008), são expulsos da produção, isto é, são retirados de seu próprio domínio e, na inversão fetichista da produção, são recolocados como apêndices da tecnologia. Cabe ressaltar que não são – os trabalhadores – realocados para fazer os trabalhos restantes, aqueles que as máquinas não produzem ou na operação delas; são eles colocados ao lado – em contraposição ou submissos – delas, com a criação de formas novas de trabalho estafante. A tecnologia, sob o capitalismo, não poupa trabalho humano direto, tão pouco suprime o fardo: ela submete o trabalhador ao seu movimento dominante. Logo, como diz Marcuse: “o que está errado é a forma pela qual os homens organizam seu trabalho social.” (MARCUSE, 1979, p. 142).
A progressão levada a cabo pela introdução massiva de tecnologia e pela técnica a ela inerente no sistema capitalista, aprofundando o trabalho estranhado na submissão ao capital, reitera a dominação abstrata posta em marcha pela produção. Tal domínio universaliza-se quando os homens não mais podem se despojar da utilização desse tipo de técnica e de suas conseqüências sem abrir mão de toda configuração social fomentada por essa prática. A universalização técnica da produção material projeta uma totalidade histórica determinada. A dominação do homem se dá, neste sentido, pelo domínio cada vez mais racional e elevado da natureza (MARCUSE, 1979, p. 154). Tal fato perpetua a dominação, mas não com aparência de dominação. Ela aparenta ser a forma racional mais elevada e isenta de críticas por representar, ideologicamente, o avanço da humanidade como um todo. A classe que domina a sociedade garante sua legitimidade não mais somente através do discurso, mas a partir de si mesma, de seu processo de produção: “a dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas como tecnologia, e esta garante a grande legitimação do crescente poder político que absorve todas as esferas da cultura.” (MARCUSE, 1979, p. 154).
Ora, a esfera da dominação de classes aparentemente some do horizonte. A racionalidade do sistema dita por si só o que é progresso. A dominação não é mais legitimada através da força, tão pouco carece de discurso. Ao elevar, supostamente, o nível de vida e as ‘comodidades’ de cada indivíduo, além do aumento sem precedentes da produtividade humana – mesmo sendo de coisas supérfluas –, ela dita o que é bom, correto, justo e, consequentemente, o que é ascensão e progresso humano: o imperativo categórico da sociedade industrial é ditado pela racionalidade socialmente produzida; o sujeito transcendental é reificado e segue tacitamente o prognóstico abstrato vindo de cima, isto é, da racionalidade tecnológica.
Nesse universo, a tecnologia também garante a grande racionalização da não-liberdade do homem e demonstra a impossibilidade ‘técnica’ de a criatura ser autônoma, de determinar a sua própria vida. Isso porque essa não-liberdade não parece irracional nem política, mas antes uma submissão ao aparato técnico que amplia as comodidades da vida e aumenta a produtividade do trabalho. A racionalidade tecnológica protege, assim, em vez de cancelar, a legitimidade da dominação, e o horizonte instrumentalista da razão se abre sobre uma sociedade racionalmente totalitária. (MARCUSE, 1979, p. 154).
Assim, é o racional e não o irracional que projeta, estende e perpetua a dominação e a mistificação desta. Os “modos transcendentes de pensar parece transcenderem a própria Razão.” (MARCUSE, 1979, p. 162). 
Uma possível modificação nesta estrutura só seria possível de se efetivar como resultado de uma ampla modificação no modo de produção. Somente com a superação da produção de capital poderia ser imaginável outro modo de relacionamento do homem consigo mesmo e com a natureza; apenas com a transformação na organização fragmentária de trabalho estranhado – produtor de valor e capital – e, consequentemente, com a subsunção da mais-valia e do estranhamento – é que seria admissível outro projeto tecno-científico, livre da dominação de uma classe específica e do movimento abstrato de capital. Sendo assim, ressalta Marcuse:
Por certo é verdade que uma mudança poderia ser imaginada apenas como um evento no desenvolvimento da própria ciência, mas tal desenvolvimento científico somente pode ser esperado como resultado de uma ampla mudança social. O necessário é nada menos que uma completa transvalorização dos objetivos e necessidades, a transformação das políticas e instituições repressivas e agressivas. A transformação da ciência é imaginável apenas em um ambiente transformado; uma nova ciência exigirá um novo clima, em que novos experimentos e projetos serão sugeridos ao intelecto por novas necessidades sociais. Em seu sentido mais geral, essa transformação implicaria o desaparecimento das necessidades sociais de produção e produtos parasitários e desperdiçadores, de defesa agressiva, de competição por status e conformismo, e exigiria a correspondente liberação das necessidades individuais de paz, alegria e tranqüilidade. (MARCUSE, 2009, p. 162-63).
É a partir daqui que Habermas critica Marcuse. O projeto marcuseano de uma nova ciência e de um ambiente transformado é inconcebível à Habermas, já que os pressupostos deste não chegam próximo à crítica do trabalho estranhado. Ele vê, pelo contrário, que a problemática que circunscreve a modernidade é da comunicação (ou interação, como diz). Entretanto, tal modo de pensar leva a cabo uma crítica ideológica de uma particularidade determinada da totalidade social capitalista. O equívoco habermasiano está em não conceber a estrutura de organização do trabalho sob o capital com fomentadora das manifestações que se dão nas outras esferas sociais. Toda teoria de Jürgen Habermas está, portanto, posta sobre um equívoco de pressuposto.

O equívoco habermasiano e a crítica ideológica à Marcuse
Toda a discussão precedente nos serviu para demonstrar como a estrutura do capitalismo é determinada e dominada pela produção de capital e, sendo assim, todas as esferas que competem a essa sociedade estão submetidas à produção estranhada da vida material.
Habermas não concebe tal fato. Para ele, o plano do trabalho – que chama de ação instrumental ou ação racional quanto aos fins – não é passível de críticas, já que é a partir do trabalho, mera transformação da natureza, que se satisfazem as necessidades humanas. Em esquema de quadro (situado à página 59, da tradução ora utilizada), deixa claro que o trabalho, ou ação instrumental, está pautado sobre “regras técnicas” e, desse modo, algo condicionado pela necessidade. O trabalho fundado sobre a ciência e a técnica modernas – “nossa técnica” –, está, assim, livre de problemas. Por outro lado, aquilo que ele chama de ação comunicativa ou interação é regida por normas sociais, campo no qual pode se efetivar a emancipação e a individuação. Igualmente, segundo o autor, o grande problema relacionado à ideologia do capitalismo tardio – diferente daquela colocada na teoria marxiana –, é que, em linhas gerais, há uma intervenção de dominação e legitimação da esfera técnica de ação instrumental que impossibilita a efetiva emancipação por meio da interação já que, esta, está presa e dominada pelo movimento de ação instrumental que interfere na “extensão da comunicação isenta”. A problemática que ainda circunscreve a modernidade e a limita em seu progresso é a da comunicação. Diz ele: “a subjetividade da natureza, ainda aprisionada, não se poderá libertar antes de a comunicação dos homens entre si não estar livre da dominação. Só quando os homens comunicarem sem coação e cada um puder se reconhecer no outro, poderia o gênero humano reconhecer a natureza como em outro sujeito (...)”. (HABERMAS, 2001, p. 53).
Contudo, a estrutura comunicativa – como já observado – é apenas um elemento secundário da totalidade social e, não obstante, determinada por ela. Ora, a estrutura do capitalismo se efetiva pelo fetiche da produção. O trabalho fragmentado está submetido às vicissitudes do capital. Este, por sua vez, além de determinar a forma aparentemente contingente do trabalho estranhado, determina e submete todas as esferas particulares da totalidade social. Neste sentido, não só há intervenção da organização do trabalho social nas esferas particulares (e isso inclui as normas sociais e, também, a comunicação social), mas, antes e principalmente, uma determinação lógico-concreta. A emancipação de tais esferas particulares só pode advir com a transformação estrutural da sociedade como um todo, isto é, com a suprassunção do modo com se organiza o trabalho na sociedade capitalista. Dessa maneira, toda a teoria e crítica habermasiana está pautada em equívoco de pressuposto. A partir disso que Habermas concebe a ciência e a técnica modernas como a mais elevada e completa evolução do gênero humano. E só assim pode se efetivar sua crítica ideológica ao materialismo histórico e, com extensão, à teoria de Herbert Marcuse.  
Em sua crítica à Marcuse, Habermas diz não ser possível abrir mão da ciência e da técnica modernas pelo motivo de estas conterem toda a evolução – retilínea e ahistórica – da humanidade e, além disso, por meio de tal evolução o gênero humano teria levado a cabo toda sua aspiração e capacidade. Em suma, não há como abrir mão da ciência e da técnica modernas por consistirem na teleologia humana efetivada.
Se, pois, se tem presente que a evolução técnica obedece a uma lógica que corresponde à estrutura da ação racional quanto aos fins e controlada pelo êxito – e isto significa: à estrutura do trabalho – então, não se vê como poderíamos renunciar à técnica, isto é, à nossa técnica, substituindo-a por uma qualitativamente distinta, enquanto não se modificar a organização da natureza humana e enquanto houvermos de manter nossa vida por meio do trabalho social e com a ajuda dos meios que substituem o trabalho. (HABERMAS, 2001, p. 52).
A estrutura de trabalho social engendrada pelo capitalismo colocou, de forma inédita, a possibilidade histórica da superação do trabalho humano por meio da introdução da tecnologia como substituta do trabalho direto. É o que Marcuse chama – tanto n’O homem unidimensional, quanto no texto O fim da utopia – de utopia concreta: a possibilidade de outra forma de relacionamento humano liberado do fardo da necessidade. Fica patente que tal realização só poderá se efetivar com a suprassunção do fetiche da produção. Mesmo com a possibilidade histórica colocada, a capacidade de substituição de trabalho vivo pela introdução da máquina é negada pela apropriação do benefício por uma classe determinada, a dos capitalistas. A ciência e a técnica intrínsecas à produção não substituem o trabalho: elas submetem-no ao seu jugo. Portanto, não é a necessidade de manutenção da vida social que está em jogo; antes, é a necessidade da manutenção da produção de capital que circunscreve e mascara de maneira ideológica a conservação da vida.
Sendo assim, Habermas não concebe emancipação no plano do trabalho. Sua idéia de técnica e ciência está circunscrita à sua teoria ideológica. Ele só imagina alterações no plano da interação, e não naqueles correspondentes à especificidade de utilização da ciência e da técnica pela classe de capitalista e, logicamente, pelo movimento do fetiche da produção de capital pelo trabalho estranhado. Neste âmbito, sua a critica à Marcuse se dá via lógica formal. Para ele, a ciência e a técnica não podem ser pensadas como projeto, tão pouco enquanto projeto alternativo. Não há projeto que não abarque a totalidade humana. Diz o autor: “a ciência moderna só se podia conceber como um projeto historicamente sem precedentes se, pelo menos, fosse pensável um projeto alternativo e, além disso, uma nova ciência alternativa deveria incluir a definição de uma nova técnica” (HABERMAS, 2001, p. 51), Habermas conclui, a partir daqui, que “a técnica, se em geral pudesse se reduzir a um projeto histórico, teria evidentemente de conduzir a um ‘projeto’ do gênero humano no seu conjunto, e não a um projeto historicamente superável.” (HABERMAS, 2001, p. 51).
O que o ideólogo não vê é que, tanto para a teoria marxiana, quanto para Marcuse, o que está em jogo é a maneira específica da utilização destas esferas, isto é, o modo como se organiza a produção. O materialismo histórico-dialético pauta-se pela negação determinada. Os problemas na técnica e na ciência, em si, são secundários. O problema está na especificidade de apropriação e uso. Um projeto alternativo – e isso Habermas parece se esquecer – pauta-se pela libertação do trabalho do jugo da produção e pela (re) inversão do fetiche da produção. Dessa forma, é a partir de tal equívoco cometido que o ideólogo dirá o seguinte a respeito da alternativa marcuseana:
Marcuse tem em mente uma atitude alternativa para com a natureza, mas, a partir dela, não se pode obter a idéia de uma nova técnica. Em vez de tratar a natureza como objeto da disposição técnica possível, podemos tomá-la como colocutor de uma possível interação. Em vez da natureza explorada, podemos buscar a natureza fraternal. No nível de uma intersubjetividade ainda incompleta, podemos exigir subjetividade dos animais, das plantas e até mesmo das pedras, e nos comunicar com a natureza, em vez de apenas trabalhá-la sob a interrupção da comunicação (...). Seja como for, os resultados da técnica, que, como tais, são imprescindíveis, não poderiam certamente ser substituídos por uma natureza que abre os olhos. A alternativa à técnica existente, o projeto de uma natureza como colocutor em vez de objeto, diz respeito a uma estrutura alternativa de ação: à interação simbolicamente mediada, diferente da ação racional quanto a fins (...). A idéia de uma nova técnica é  tão pouco provável quanto é pensar consequentemente em uma nova ciência uma vez que, em  nosso contexto, a ciência deve significar a ciência moderna, a ciência comprometida com a atitude de uma possível disponibilidade técnica: também para sua função, assim como para o progresso técnico-científico em geral, não existe substituto que seja ‘mais humano’. (HABERMAS, 2001, pp. 52-53).
Ainda em sua crítica, Habermas discute com a noção de revolução contida n’O homem unidimensional, de Marcuse:
Em muitas passagens da obra O homem unidimensional, a revolução significa apenas uma mudança do enquadramento institucional, que não afetaria as forças produtivas enquanto tais. Manter-se-ia, pois, a estrutura do progresso científico e técnico, apenas se modificariam os valores regulativos. Os novos valores traduzir-se-iam para tarefas tecnicamente solucionáveis; o novo seria a direção deste progresso, mas o próprio critério de racionalidade permaneceria inalterado. (HABERMAS, 2001, p. 53-54).
No entanto, Marcuse deixa explicito – assim como esboçamos nas primeira e segunda partes do presente texto – que a estrutura técnica e científica só teria uma mudança qualitativa se houvesse uma ampla mudança na estrutura social. Em outras palavras, só com a suprassunção do trabalho estranhado, e das ciência e técnica a ele subjacente, que se poderia pensar em alteração efetiva da utilização de tais esferas. Consequentemente, não seriam somente os “valores regulativos” e o “enquadramento institucional” que se alterariam, e Marcuse deixa isso claro: “a transformação da ciência é imaginável apenas em um ambiente transformado” (MARCUSE, 2009, p. 162-63). A racionalidade, que Habermas diz ser a mesma, seria suprassumida, também, pela mudança estrutural, já que, para Marcuse, a racionalidade contemporânea é racionalidade tecnológica e só pode estar a serviço desse tipo de sociedade e dessa forma de organização social do trabalho.

Considerações finais

A noção de ação instrumental habermasiana está fundamentada no equívoco de não conceber a utilização da ciência e a técnica pertinente a ela de maneira determinada e, não obstante, de não levar em conta a forma específica como são apropriadas e empregadas pela classe de capitalistas e pelo capital. Sua crítica à interrupção da comunicação pela interferência da esfera do trabalho é limitada e não leva em consideração a especificidade histórica do sistema capitalista. A contraposição que faz à teoria marxiana e à Marcuse está fundada, também ela, no equívoco de interpretação da totalidade social que circunscreve a modernidade. Com isso, sem impedimentos, podemos chamar Habermas, neste ponto, de ideólogo: sua teoria não passa de uma leitura equivocada da estrutura social sobre a qual se debruça. A idéia através da qual a emancipação poderia ser atingida por meio de uma liberação da comunicação, sem se preocupar com a libertação do trabalho – já que o problema não se situa aqui –, é ideológica. Tal particularidade da totalidade social – a da comunicação – é determinada por esta, e, exatamente por isso, não pode agir livre de coação sem uma alteração profunda no modo como se engendra a totalidade capitalista, isto é, sem uma transformação qualitativa da formação social, sem a suprassunção do trabalho estranhado.

Referências bibliográficas

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[1] MARX, Karl. Capital e Tecnologia e Maquinaria e Trabalho Vivo. Disponíveis no Arquivo Marxista na internet: http://www.marxists.org/portugues/marx/index.htm.