terça-feira, 15 de junho de 2010

Crítica à noção de Ação Instrumental habermasiana: comentário ao texto “TÉCNICA E CIÊNCIA COMO ‘IDEOLOGIA’” de Jürgen Habermas

Introdução

O objetivo do presente texto é comentar criticamente a noção de ação instrumental habermasiana. Para tanto, no primeiro momento demonstrar-se-á, a partir da teoria madura de Marx e da teoria crítica social de Herbert Marcuse, como a ciência e a técnica são apropriadas e fomentadas de maneira específica pela formação social capitalista. Em seguida, visa-se expor como tais categorias apresentam-se como dominadoras das relações sociais e, não obstante, como ideológicas. Por fim, far-se-á a crítica à Habermas partindo da crítica ideológica que o autor faz à Marcuse e ao materialismo histórico como um todo, seguida das considerações finais.
Partindo disso, será utilizado o texto de Habermas intitulado Técnica e ciência como ‘ideologia’ que compõe a coletânea de mesmo nome. Nele, o autor expressa sua noção que chama por ação instrumental ou ação racional teleológica (trabalho): é “ação instrumental ou a escolha racional ou, então, uma combinação das duas”, orientadas por regras técnicas que se apóiam no saber empírico (HABERMAS, 2001, p. 57). Nesta esfera, o gênero humano teria levado a cabo sua mais elevada capacidade, sua aspiração e satisfação das necessidades. Portanto tal esfera, para Habermas, está isenta de críticas por não representar o campo no qual os homens carecem de emancipação contendo, tão somente, o domínio no qual se satisfazem necessidades. Contudo, na esfera da comunicação, aquela na qual o gênero humano deve buscar emancipação, há interferência do domínio técnico da ação instrumental, que impede tal libertação. Por ação comunicativa, o filósofo entende “uma interação simbolicamente mediada”, orientada por “normas de vigência obrigatória que definem expectativas recíprocas de comportamento e que têm de ser entendidas e reconhecidas, pelo menos, por dois sujeitos agentes.” (HABERMAS, 2001, p. 57). A ação comunicativa sofre coação e coerção do plano no qual opera a ação instrumental que impede que a interação logre êxito: é isso, para Habermas, que deve ser criticado.
Como se verá, o âmbito no qual Habermas posta sua crítica é ideológico por se tratar de uma particularidade da totalidade social que, não obstante, é determinada pela esfera do trabalho, que para ele é isenta. É neste sentido, o de demonstrar a primazia da manifestação do trabalho no capitalismo para a constituição e determinação da totalidade, que se assentará a crítica do presente texto.

A especificidade da Ciência e da Técnica no capitalismo
O capitalismo introduz uma novidade histórica na produção social: a fragmentação do trabalho. Se antes o que se observava era uma produção não fomentada pelo tempo e pela produtividade como primeiro motor da totalidade social, vemos, agora, trabalho estranhado, castrador e limitador das potencialidades humanas. Na fase que precede o capitalismo, a produção da vida material era, grosso modo, regulada pelo valor de uso das coisas. Com o advento da fragmentação do trabalho através da nova organização – pautada pela produção de valores de troca, de trabalho excedente, mais-valia e etc. –, a fábrica, local por excelência de efetivação desse novo modo de produção, coloca o saber científico a seu serviço.
Em dois textos da década de 1860, Marx[1] expressa o modo específico com o qual o capitalismo trata a ciência, apropriando-se dela de modo único, e, além disso, impondo uma nova técnica ao processo de trabalho:
O modo capitalista de produção é o primeiro a colocar as ciências naturais a serviço direto do processo de produção, quando o desenvolvimento da produção proporciona, diferentemente, os instrumentos para a conquista teórica da natureza. A ciência logra o reconhecimento de ser um meio para produzir riqueza, um meio de enriquecimento.
Deste modo, os processos produtivos se apresentam pela primeira vez como problemas práticos, que só se podem resolver cientificamente. A experiência e a observação (e as necessidades do processo produtivo) alcançam, assim, pela primeira vez, um nível que permite e torna indispensável o emprego da ciência. (MARX, 2009, s/ página).
Aliado ao processo de apropriação da ciência pela classe dos capitalistas, consequentemente pelo capital, uma nova técnica surge com a introdução do modo de produção moderno. Assim como salienta Edgar de Decca em seu texto O nascimento das Fábricas (1984), a “fábrica, ao mesmo tempo em que confirmava a potencialidade criadora do trabalho, anunciava a dimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria. (...) a presença da máquina definiu de uma vez por todas a fábrica como o lugar da superação das barreiras da própria condição humana.” (DECCA, 1984, p.8-9). Marx, da mesma maneira, deixa patente que “a máquina aparece aqui como elemento intrínseco ao modo de produção capitalista, como uma revolução no interior do modo de produção em geral.” (2008, s/ página).
Dessa forma, o que está em jogo é o modo de organização da produção, especificamente aquele por meio do qual se efetiva a relação entre os homens e entre eles e a natureza: o trabalho. No capitalismo, a categoria trabalho está baseada no dispêndio de tempo e na criação de valor. A produção de valor e capital se dá não pelo trabalho em geral, como relação pura e simples do ser genérico com a natureza; antes, o que vigora em tal momento histórico da produção da vida material é trabalho estranhado. Este, sim, é que engendra, com sua fragmentação e limitação intrínseca, o modo por meio do qual a ciência é apropriada pela produção e pelo capital – contraditoriamente ao mesmo tempo em que a produção capitalista põe a oportunidade histórica de libertação do homem do fardo imposto pela necessidade, coloca como potência (no sentido aristotélico) a possibilidade de superação de tal fardo histórico; libera todas as potencialidades ilimitadas de criação humana como possíveis de efetivação. Como a forma na qual tal modo de organização do trabalho ocorre no sistema capitalista gera valor, consequentemente, com a fragmentação e castração do trabalhador individual, ocorre aquilo que Marx chamará de fetiche: a abstração, objetivação e humanização da produção desvinculada – criando autonomia no desligamento – do trabalhador enquanto produtor e suposto controlador dela. Tal fragmentação impede que o trabalhador estranhado se aproprie da síntese resultante do processo que ele mesmo cria: a síntese é apropriada (ou expropriada) pelo capital enquanto abstração tornada autônoma no processo. Oskar Negt e Alexander Kluge colocam que, em seu movimento autônomo, “o capital subtrai da força de trabalho socialmente produtiva uma das sínteses que partem dele (a relação social), institui uma combinação, com poder de realidade, da força de trabalho social.” (NEGT; KLUGE, 1999, p. 104).
O capital, enquanto entidade abstrata e autônoma, se apropria da síntese que deveria ser o retorno da produção das coisas para a produção humana, como momento da reconciliação do produtor consigo mesmo. De tal modo, o capital subtrai para si tudo que é produção humana. Neste sentido, ele toma para si e controla a ciência em seu próprio benefício: “o capital não cria a ciência e sim a explora apropriando-se dela no processo produtivo. Com isto se produz, simultaneamente, a separação entre a ciência, enquanto ciência aplicada à produção e o trabalho direto, enquanto nas fases anteriores da produção a experiência e o intercâmbio limitado de conhecimentos estavam ligados diretamente ao próprio trabalho” (MARX, 2009, s/ página). O capital, segundo Marx, além de apropriar para si as ciências, fomenta-a, dando-lhe os meios materiais para sua progressão:
o desenvolvimento das ciências naturais (que formam, aliás, a base de qualquer conhecimento), como de qualquer noção (que se refira ao processo produtivo) ocorre novamente sobre a base da produção capitalista que pela primeira vez lhes proporciona em grande medida - às ciências - os meios materiais de investigação, observação, experimentação. Já que as ciências são utilizadas pelo capital como meio de enriquecimento e se convertem, portanto, em meios de enriquecimento para os homens que se ocupam do desenvolvimento das ciências, os homens de ciência competem entre si no intento de encontrar uma aplicação prática da ciência. De outro lado, a invenção se converte em uma espécie de artesanato. Por isso, junto com a produção capitalista se desenvolve, pela primeira vez de maneira consciente, o fator científico em certo nível, se emprega e se constitui em dimensões que não se poderiam conceber em épocas anteriores (...) (MARX, 2009, s/ página).
Neste âmbito, em A responsabilidade da ciência (2009), Marcuse ressalta que a responsabilidade pertinente à ciência perante a sociedade é “ditada pela estrutura interna e o telos da ciência, e pelo lugar e função da ciência na realidade social.” (MARCUSE, 2009, p. 159). Na sociedade industrial avançada, diz o filósofo, a aplicação técnica e científica da tecnologia transformou e desmistificou a ideologia de tal sociedade, e a instituiu no âmbito próprio da produção: a ideologia não está mais, tão somente, no discurso da classe dominante; antes, está na utilização e no movimento concreto da tecnologia enquanto dominação e movimento abstrato do capital: “na medida em que a ciência é parte da base da sociedade ela se torna um poder material, uma força política e econômica, e todo cientista individual é uma parte desse poder.” (MARCUSE, 2009, p. 163). Não é só, portanto, a capacidade da ciência que é apropriada pela sociedade industrial; é, também, a capacidade criadora e supostamente autônoma daqueles que criam individualmente tal poder. O cientista, de tal forma, não está isento da aplicação que se dá para ciência, mesmo que ele também seja determinado pelo movimento do capital enquanto dominador e determinante fundamental da totalidade social e, assim, do próprio rumo que tal sociedade toma. Além disso, ainda segundo Herbert Marcuse,
a ciência moderna em seus começos (...) foi destrutiva do dogmatismo e da superstição medievais, destrutiva da aliança sagrada entre filosofia e autoridade irracional, destrutiva da justificação teológica da desigualdade e da exploração. A ciência moderna desenvolveu-se em conflito com os poderes que se opunham à liberdade de pensamento; hoje a própria ciência encontra-se em aliança com os poderes que ameaçam a autonomia humana e frustram a tentativa de realizar uma existência livre e racional. (MARCUSE, 2009, p. 162).
A técnica e a forma sob a qual a ciência é aplicada na modernidade são determinadas, em última instância, pela produção material desta sociedade: o uso que a classe de capitalistas faz da tecnologia, por via destas técnica e ciência modernas, dá-se em vistas da perpetuação de tal condição social e, não obstante, a manutenção da produção de capital chegou em um ponto que não se pode abrir mão de sua utilização sem prejuízos para o modo de produção.

Técnica e Ciência como dominação e ideologia
A partir do trabalho estranhado e, unido a ele, da especificidade da utilização tecnológica, enquanto emprego técnico da ciência e do homem tornado apêndice técnico de tal uso, o capital, em sua aplicação ideológica concreta da tecnologia, institui formas novas, “mais eficazes e mais agradáveis de controle social e coesão social.” (MARCUSE, 1979, p. 18). Além disso, ressalta Marcuse, “a sociedade se reproduz num crescente conjunto técnico de coisas e relações que incluiu a utilização técnica do homem – em outras palavras, a luta pela existência e a exploração do homem e da natureza se tornaram cada vez mais científicas e racionais.” (MARCUSE, 1979, p. 144). De tal maneira, não é mais o domínio social direto que mantém o sistema de dominação permanentemente coeso, sobreposto sobre si e sobre as pessoas; mas, antes, é o domínio dessa racionalidade – em uma palavra, fetiche da produção – que engendra e perpetua tal condição. O movimento abstrato do capital determina a situação histórica em sua totalidade. A especificidade inerente ao capitalismo faz com que a ciência e a técnica essenciais à formação social mantenham-se intactas. Assim,
a sociedade que projeta e empreende a transformação tecnológica da natureza altera a base da dominação pela substituição gradativa da dependência pessoal (o escravo, do senhor; o servo, do senhor da herdade; o senhor do doador do feudo etc.) pela dependência da ‘ordem objetiva das coisas’ (das leis econômicas, do mercado etc.). Sem dúvida, a ‘ordem objetiva das coisas’ é, ela própria, o resultado da dominação, mas é, não obstante, verdade que a dominação agora gera mais elevada racionalidade – a de uma sociedade que mantém sua estrutura hierárquica enquanto explora com eficiência cada vez maior os recursos naturais e mentais e distribui os benefícios dessa exploração em escala cada vez maior. Os limites dessa racionalidade e sua força sinistra aparecem na escravização progressiva do homem por um aparato produtor que perpetua a luta pela existência, estendendo-o a uma luta total internacional que arruína a vida dos que constroem e usam esse aparato. (MARCUSE, 1979, p. 142).
Esta idéia é reiterada por Moishe Postone: “(...) a dominação social no capitalismo, em seu nível mais fundamental, não consiste na dominação das pessoas por outras pessoas, mas na dominação de pessoas por estruturas sociais abstratas constituídas pelas próprias pessoas” (POSTONE, 1993, p. 30). Tal dominação, como já esboçamos acima, nada mais é que o fetiche da produção de capital que em seu movimento tornado autônomo domina as relações sociais ao subtrair para si uma das sínteses do movimento do trabalho estranhado e coisificado. Não obstante, este fetiche atrela o homem à máquina como subalterno, determinado e dominado por ela. A separação do trabalhador estranhado da apropriação das forças espirituais engendradas pelo processo produtivo da vida material realoca-o abaixo de tais forças, agora tecnicamente abstraídas.
Neste processo, ocorre a subtração das capacidades humanas e a humanização da mercadoria – em sentido lato – produzida. Em longo trecho – que decidimos colocar abaixo – Marx, no texto Maquinaria e Trabalho vivo, explicita como se dá o processo de manutenção da mais-valia pelo movimento de inversão fetichista da produção. Diz Marx:
Nesta forma aparecem como decisivas — portanto como resultado das forças produtivas sociais do trabalho e do trabalho mesmo tomado enquanto condições sociais de trabalho — estas forças não apenas enquanto estranhas ao trabalhador e pertencentes ao capital, mas como supressoras de cada trabalhador singular, forças hostis que oprimem e julgam em favor do interesse do capitalista. Vimos ao mesmo tempo em que o modo de produção capitalista não se modifica formalmente apenas, mas revoluciona a totalidade das condições sociais e tecnológicas do processo de trabalho, e também como o capital não aparece agora somente como aquelas condições materiais do trabalho não pertencentes ao trabalhador — matéria-prima e meios de trabalho —, mas como ele se apresenta como a essência das formas e potências sociais do trabalho em geral, contrapostas a cada trabalhador tomado isoladamente.
Aqui o trabalho passado também se apresenta — tanto na maquinaria automatizada quanto naquela posta em movimento por ele — visivelmente como independente do trabalho enquanto auto-atividade: ao invés de ser subordinado por este último, o trabalho passado é que o subordina a si. Trata-se do homem de ferro contra o homem de carne e osso. A subsunção de seu trabalho ao capital — a absorção de seu trabalho pelo capital —, que está no cerne da produção capitalista, surge aqui como um fator tecnológico. A pedra fundamental está posta: o trabalho morto no movimento dotado de inteligência e o vivo existindo apenas como um de seus órgãos conscientes. A conexão viva do corpo da oficina não se funda mais na cooperação, mas sim no sistema de máquinas que forma agora, a partir do movimento de um motor primário e do abarcamento da totalidade das oficinas, a unidade ampla à qual estas últimas, ao continuarem sendo compostas por trabalhadores, mantêm-se subordinadas. A unidade da maquinaria alcança assim, evidentemente, forma independente e plena autonomia com relação aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que se coloca em oposição a eles.
A oficina que se apóia na maquinaria expulsa continuamente o trabalhador enquanto elemento necessário, ao mesmo tempo em que realoca estes trabalhadores repelidos em funções da própria maquinaria. (MARX, 2008, s/ página).
Sendo assim, o trabalho objetivado (morto; passado) se sobrepõe ao trabalho vivo (direto). O trabalho humano injetado na produção tecnológica, aquela que deveria auxiliar e suprimir o fardo histórico dos homens, faz com que esta se autonomize, pelo mesmo motivo da fragmentação do trabalho. O estranhamento do homem em relação aos seus produtos faz com que aquilo que se produz efetive-se como dominador de tal relação, já que o reconhecimento e o domínio humano sobre a produção é subtraído pelo capital. A maquinaria, a tecnologia em geral, abstraída, domina os trabalhadores e, como reitera Marx, o realoca abaixo, submisso à produção.
Esta a tendência da maquinaria: por um lado, a constante expulsão de trabalhadores, seja do interior daquela oficina já mecanizada, seja do interior dos ofícios; por outro, sua constante reintegração, posto que a partir de um grau determinado de desenvolvimento da força produtiva, o aumento da mais-valia só se coloca com a elevação simultânea do número de trabalhadores ocupados. Esse movimento de atração e expulsão é característico e representa o constante oscilar da existência do trabalhador. (MARX, 2008, s/ página).
É na conjugação de trabalho objetivado e trabalho direto que permanece e aumenta a produção de mais-valia. A máquina, ou o processo mecanizado, por si só não produz valor, tão pouco mais-valia. Entretanto, deve-se lembrar que o trabalho árduo e estafante não é poupado, nem eliminado ou retraído com a introdução da tecnologia em grande escala no processo do capital. Pelo contrário, os trabalhadores, diz Marx (2008), são expulsos da produção, isto é, são retirados de seu próprio domínio e, na inversão fetichista da produção, são recolocados como apêndices da tecnologia. Cabe ressaltar que não são – os trabalhadores – realocados para fazer os trabalhos restantes, aqueles que as máquinas não produzem ou na operação delas; são eles colocados ao lado – em contraposição ou submissos – delas, com a criação de formas novas de trabalho estafante. A tecnologia, sob o capitalismo, não poupa trabalho humano direto, tão pouco suprime o fardo: ela submete o trabalhador ao seu movimento dominante. Logo, como diz Marcuse: “o que está errado é a forma pela qual os homens organizam seu trabalho social.” (MARCUSE, 1979, p. 142).
A progressão levada a cabo pela introdução massiva de tecnologia e pela técnica a ela inerente no sistema capitalista, aprofundando o trabalho estranhado na submissão ao capital, reitera a dominação abstrata posta em marcha pela produção. Tal domínio universaliza-se quando os homens não mais podem se despojar da utilização desse tipo de técnica e de suas conseqüências sem abrir mão de toda configuração social fomentada por essa prática. A universalização técnica da produção material projeta uma totalidade histórica determinada. A dominação do homem se dá, neste sentido, pelo domínio cada vez mais racional e elevado da natureza (MARCUSE, 1979, p. 154). Tal fato perpetua a dominação, mas não com aparência de dominação. Ela aparenta ser a forma racional mais elevada e isenta de críticas por representar, ideologicamente, o avanço da humanidade como um todo. A classe que domina a sociedade garante sua legitimidade não mais somente através do discurso, mas a partir de si mesma, de seu processo de produção: “a dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas como tecnologia, e esta garante a grande legitimação do crescente poder político que absorve todas as esferas da cultura.” (MARCUSE, 1979, p. 154).
Ora, a esfera da dominação de classes aparentemente some do horizonte. A racionalidade do sistema dita por si só o que é progresso. A dominação não é mais legitimada através da força, tão pouco carece de discurso. Ao elevar, supostamente, o nível de vida e as ‘comodidades’ de cada indivíduo, além do aumento sem precedentes da produtividade humana – mesmo sendo de coisas supérfluas –, ela dita o que é bom, correto, justo e, consequentemente, o que é ascensão e progresso humano: o imperativo categórico da sociedade industrial é ditado pela racionalidade socialmente produzida; o sujeito transcendental é reificado e segue tacitamente o prognóstico abstrato vindo de cima, isto é, da racionalidade tecnológica.
Nesse universo, a tecnologia também garante a grande racionalização da não-liberdade do homem e demonstra a impossibilidade ‘técnica’ de a criatura ser autônoma, de determinar a sua própria vida. Isso porque essa não-liberdade não parece irracional nem política, mas antes uma submissão ao aparato técnico que amplia as comodidades da vida e aumenta a produtividade do trabalho. A racionalidade tecnológica protege, assim, em vez de cancelar, a legitimidade da dominação, e o horizonte instrumentalista da razão se abre sobre uma sociedade racionalmente totalitária. (MARCUSE, 1979, p. 154).
Assim, é o racional e não o irracional que projeta, estende e perpetua a dominação e a mistificação desta. Os “modos transcendentes de pensar parece transcenderem a própria Razão.” (MARCUSE, 1979, p. 162). 
Uma possível modificação nesta estrutura só seria possível de se efetivar como resultado de uma ampla modificação no modo de produção. Somente com a superação da produção de capital poderia ser imaginável outro modo de relacionamento do homem consigo mesmo e com a natureza; apenas com a transformação na organização fragmentária de trabalho estranhado – produtor de valor e capital – e, consequentemente, com a subsunção da mais-valia e do estranhamento – é que seria admissível outro projeto tecno-científico, livre da dominação de uma classe específica e do movimento abstrato de capital. Sendo assim, ressalta Marcuse:
Por certo é verdade que uma mudança poderia ser imaginada apenas como um evento no desenvolvimento da própria ciência, mas tal desenvolvimento científico somente pode ser esperado como resultado de uma ampla mudança social. O necessário é nada menos que uma completa transvalorização dos objetivos e necessidades, a transformação das políticas e instituições repressivas e agressivas. A transformação da ciência é imaginável apenas em um ambiente transformado; uma nova ciência exigirá um novo clima, em que novos experimentos e projetos serão sugeridos ao intelecto por novas necessidades sociais. Em seu sentido mais geral, essa transformação implicaria o desaparecimento das necessidades sociais de produção e produtos parasitários e desperdiçadores, de defesa agressiva, de competição por status e conformismo, e exigiria a correspondente liberação das necessidades individuais de paz, alegria e tranqüilidade. (MARCUSE, 2009, p. 162-63).
É a partir daqui que Habermas critica Marcuse. O projeto marcuseano de uma nova ciência e de um ambiente transformado é inconcebível à Habermas, já que os pressupostos deste não chegam próximo à crítica do trabalho estranhado. Ele vê, pelo contrário, que a problemática que circunscreve a modernidade é da comunicação (ou interação, como diz). Entretanto, tal modo de pensar leva a cabo uma crítica ideológica de uma particularidade determinada da totalidade social capitalista. O equívoco habermasiano está em não conceber a estrutura de organização do trabalho sob o capital com fomentadora das manifestações que se dão nas outras esferas sociais. Toda teoria de Jürgen Habermas está, portanto, posta sobre um equívoco de pressuposto.

O equívoco habermasiano e a crítica ideológica à Marcuse
Toda a discussão precedente nos serviu para demonstrar como a estrutura do capitalismo é determinada e dominada pela produção de capital e, sendo assim, todas as esferas que competem a essa sociedade estão submetidas à produção estranhada da vida material.
Habermas não concebe tal fato. Para ele, o plano do trabalho – que chama de ação instrumental ou ação racional quanto aos fins – não é passível de críticas, já que é a partir do trabalho, mera transformação da natureza, que se satisfazem as necessidades humanas. Em esquema de quadro (situado à página 59, da tradução ora utilizada), deixa claro que o trabalho, ou ação instrumental, está pautado sobre “regras técnicas” e, desse modo, algo condicionado pela necessidade. O trabalho fundado sobre a ciência e a técnica modernas – “nossa técnica” –, está, assim, livre de problemas. Por outro lado, aquilo que ele chama de ação comunicativa ou interação é regida por normas sociais, campo no qual pode se efetivar a emancipação e a individuação. Igualmente, segundo o autor, o grande problema relacionado à ideologia do capitalismo tardio – diferente daquela colocada na teoria marxiana –, é que, em linhas gerais, há uma intervenção de dominação e legitimação da esfera técnica de ação instrumental que impossibilita a efetiva emancipação por meio da interação já que, esta, está presa e dominada pelo movimento de ação instrumental que interfere na “extensão da comunicação isenta”. A problemática que ainda circunscreve a modernidade e a limita em seu progresso é a da comunicação. Diz ele: “a subjetividade da natureza, ainda aprisionada, não se poderá libertar antes de a comunicação dos homens entre si não estar livre da dominação. Só quando os homens comunicarem sem coação e cada um puder se reconhecer no outro, poderia o gênero humano reconhecer a natureza como em outro sujeito (...)”. (HABERMAS, 2001, p. 53).
Contudo, a estrutura comunicativa – como já observado – é apenas um elemento secundário da totalidade social e, não obstante, determinada por ela. Ora, a estrutura do capitalismo se efetiva pelo fetiche da produção. O trabalho fragmentado está submetido às vicissitudes do capital. Este, por sua vez, além de determinar a forma aparentemente contingente do trabalho estranhado, determina e submete todas as esferas particulares da totalidade social. Neste sentido, não só há intervenção da organização do trabalho social nas esferas particulares (e isso inclui as normas sociais e, também, a comunicação social), mas, antes e principalmente, uma determinação lógico-concreta. A emancipação de tais esferas particulares só pode advir com a transformação estrutural da sociedade como um todo, isto é, com a suprassunção do modo com se organiza o trabalho na sociedade capitalista. Dessa maneira, toda a teoria e crítica habermasiana está pautada em equívoco de pressuposto. A partir disso que Habermas concebe a ciência e a técnica modernas como a mais elevada e completa evolução do gênero humano. E só assim pode se efetivar sua crítica ideológica ao materialismo histórico e, com extensão, à teoria de Herbert Marcuse.  
Em sua crítica à Marcuse, Habermas diz não ser possível abrir mão da ciência e da técnica modernas pelo motivo de estas conterem toda a evolução – retilínea e ahistórica – da humanidade e, além disso, por meio de tal evolução o gênero humano teria levado a cabo toda sua aspiração e capacidade. Em suma, não há como abrir mão da ciência e da técnica modernas por consistirem na teleologia humana efetivada.
Se, pois, se tem presente que a evolução técnica obedece a uma lógica que corresponde à estrutura da ação racional quanto aos fins e controlada pelo êxito – e isto significa: à estrutura do trabalho – então, não se vê como poderíamos renunciar à técnica, isto é, à nossa técnica, substituindo-a por uma qualitativamente distinta, enquanto não se modificar a organização da natureza humana e enquanto houvermos de manter nossa vida por meio do trabalho social e com a ajuda dos meios que substituem o trabalho. (HABERMAS, 2001, p. 52).
A estrutura de trabalho social engendrada pelo capitalismo colocou, de forma inédita, a possibilidade histórica da superação do trabalho humano por meio da introdução da tecnologia como substituta do trabalho direto. É o que Marcuse chama – tanto n’O homem unidimensional, quanto no texto O fim da utopia – de utopia concreta: a possibilidade de outra forma de relacionamento humano liberado do fardo da necessidade. Fica patente que tal realização só poderá se efetivar com a suprassunção do fetiche da produção. Mesmo com a possibilidade histórica colocada, a capacidade de substituição de trabalho vivo pela introdução da máquina é negada pela apropriação do benefício por uma classe determinada, a dos capitalistas. A ciência e a técnica intrínsecas à produção não substituem o trabalho: elas submetem-no ao seu jugo. Portanto, não é a necessidade de manutenção da vida social que está em jogo; antes, é a necessidade da manutenção da produção de capital que circunscreve e mascara de maneira ideológica a conservação da vida.
Sendo assim, Habermas não concebe emancipação no plano do trabalho. Sua idéia de técnica e ciência está circunscrita à sua teoria ideológica. Ele só imagina alterações no plano da interação, e não naqueles correspondentes à especificidade de utilização da ciência e da técnica pela classe de capitalista e, logicamente, pelo movimento do fetiche da produção de capital pelo trabalho estranhado. Neste âmbito, sua a critica à Marcuse se dá via lógica formal. Para ele, a ciência e a técnica não podem ser pensadas como projeto, tão pouco enquanto projeto alternativo. Não há projeto que não abarque a totalidade humana. Diz o autor: “a ciência moderna só se podia conceber como um projeto historicamente sem precedentes se, pelo menos, fosse pensável um projeto alternativo e, além disso, uma nova ciência alternativa deveria incluir a definição de uma nova técnica” (HABERMAS, 2001, p. 51), Habermas conclui, a partir daqui, que “a técnica, se em geral pudesse se reduzir a um projeto histórico, teria evidentemente de conduzir a um ‘projeto’ do gênero humano no seu conjunto, e não a um projeto historicamente superável.” (HABERMAS, 2001, p. 51).
O que o ideólogo não vê é que, tanto para a teoria marxiana, quanto para Marcuse, o que está em jogo é a maneira específica da utilização destas esferas, isto é, o modo como se organiza a produção. O materialismo histórico-dialético pauta-se pela negação determinada. Os problemas na técnica e na ciência, em si, são secundários. O problema está na especificidade de apropriação e uso. Um projeto alternativo – e isso Habermas parece se esquecer – pauta-se pela libertação do trabalho do jugo da produção e pela (re) inversão do fetiche da produção. Dessa forma, é a partir de tal equívoco cometido que o ideólogo dirá o seguinte a respeito da alternativa marcuseana:
Marcuse tem em mente uma atitude alternativa para com a natureza, mas, a partir dela, não se pode obter a idéia de uma nova técnica. Em vez de tratar a natureza como objeto da disposição técnica possível, podemos tomá-la como colocutor de uma possível interação. Em vez da natureza explorada, podemos buscar a natureza fraternal. No nível de uma intersubjetividade ainda incompleta, podemos exigir subjetividade dos animais, das plantas e até mesmo das pedras, e nos comunicar com a natureza, em vez de apenas trabalhá-la sob a interrupção da comunicação (...). Seja como for, os resultados da técnica, que, como tais, são imprescindíveis, não poderiam certamente ser substituídos por uma natureza que abre os olhos. A alternativa à técnica existente, o projeto de uma natureza como colocutor em vez de objeto, diz respeito a uma estrutura alternativa de ação: à interação simbolicamente mediada, diferente da ação racional quanto a fins (...). A idéia de uma nova técnica é  tão pouco provável quanto é pensar consequentemente em uma nova ciência uma vez que, em  nosso contexto, a ciência deve significar a ciência moderna, a ciência comprometida com a atitude de uma possível disponibilidade técnica: também para sua função, assim como para o progresso técnico-científico em geral, não existe substituto que seja ‘mais humano’. (HABERMAS, 2001, pp. 52-53).
Ainda em sua crítica, Habermas discute com a noção de revolução contida n’O homem unidimensional, de Marcuse:
Em muitas passagens da obra O homem unidimensional, a revolução significa apenas uma mudança do enquadramento institucional, que não afetaria as forças produtivas enquanto tais. Manter-se-ia, pois, a estrutura do progresso científico e técnico, apenas se modificariam os valores regulativos. Os novos valores traduzir-se-iam para tarefas tecnicamente solucionáveis; o novo seria a direção deste progresso, mas o próprio critério de racionalidade permaneceria inalterado. (HABERMAS, 2001, p. 53-54).
No entanto, Marcuse deixa explicito – assim como esboçamos nas primeira e segunda partes do presente texto – que a estrutura técnica e científica só teria uma mudança qualitativa se houvesse uma ampla mudança na estrutura social. Em outras palavras, só com a suprassunção do trabalho estranhado, e das ciência e técnica a ele subjacente, que se poderia pensar em alteração efetiva da utilização de tais esferas. Consequentemente, não seriam somente os “valores regulativos” e o “enquadramento institucional” que se alterariam, e Marcuse deixa isso claro: “a transformação da ciência é imaginável apenas em um ambiente transformado” (MARCUSE, 2009, p. 162-63). A racionalidade, que Habermas diz ser a mesma, seria suprassumida, também, pela mudança estrutural, já que, para Marcuse, a racionalidade contemporânea é racionalidade tecnológica e só pode estar a serviço desse tipo de sociedade e dessa forma de organização social do trabalho.

Considerações finais

A noção de ação instrumental habermasiana está fundamentada no equívoco de não conceber a utilização da ciência e a técnica pertinente a ela de maneira determinada e, não obstante, de não levar em conta a forma específica como são apropriadas e empregadas pela classe de capitalistas e pelo capital. Sua crítica à interrupção da comunicação pela interferência da esfera do trabalho é limitada e não leva em consideração a especificidade histórica do sistema capitalista. A contraposição que faz à teoria marxiana e à Marcuse está fundada, também ela, no equívoco de interpretação da totalidade social que circunscreve a modernidade. Com isso, sem impedimentos, podemos chamar Habermas, neste ponto, de ideólogo: sua teoria não passa de uma leitura equivocada da estrutura social sobre a qual se debruça. A idéia através da qual a emancipação poderia ser atingida por meio de uma liberação da comunicação, sem se preocupar com a libertação do trabalho – já que o problema não se situa aqui –, é ideológica. Tal particularidade da totalidade social – a da comunicação – é determinada por esta, e, exatamente por isso, não pode agir livre de coação sem uma alteração profunda no modo como se engendra a totalidade capitalista, isto é, sem uma transformação qualitativa da formação social, sem a suprassunção do trabalho estranhado.

Referências bibliográficas

DECCA, E. S.. O Nascimento das fábricas. 2º ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.

HABERMAS, Jürgen. “Técnica e ciência como ‘ideologia’”. In: ___. Técnica e ciência como “ideologia”. Lisboa: Edições 70, pp. 45-92, 2001.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Tradução de Giasone Rebuá. 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979.

___. “A responsabilidade da ciência”. In: Scientiae Studia. Vol. 7, nº1. Tradução de Marília Mello Pisani. São Paulo: jan/mar, pp. 159-64, 2009.

___. “O Fim da Utopia”. In: ___. O Fim da Utopia. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, pp. 11-47, 1969.
MARX, Karl. Capital e Tecnologia (Manuscritos de 1861-1863). Traduzido por Elídio Marques [tradução de extrato (pp. 161-164) do original em castelhano Capital y Tecnologia – Manuscritos Inéditos (1861-1863)]. 2009. Disponível em:
 http://www.barlavento.org/a3/index.php?option=com_content&view=article&id=61:capital-e-tecnologia-manuscritos-de-1861-1863&catid=45:classicos&Itemid=74. Acessado em: 26/05/2010.


___. Maquinaria e Trabalho Vivo: Os Efeitos da Mecanização Sobre o Trabalhador. Traduzido por Jesus Ranieri. 2008. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1863/05/maquinaria.htm#r2. Acessado em: 26/05/2010.
 
___. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I, Volume I. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
NEGT, Oskar; KLUGE, Alexander. “O trabalhador total, criado pelo capital com força de realidade, mas que é falso”. In: ___. O que há de político na política? Relações de medida em política. 15 propostas sobre a capacidade de discernimento. Trad. João Azenha Júnior; colaboração Karola Zimber. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, pp. 103-34, 1999. 
POSTONE, Moishe. Time, labor and social domination: A reinterpretation of Marx’s critical theory. New York: Cambridge University Press, 1993.



[1] MARX, Karl. Capital e Tecnologia e Maquinaria e Trabalho Vivo. Disponíveis no Arquivo Marxista na internet: http://www.marxists.org/portugues/marx/index.htm.

sábado, 22 de maio de 2010

MEUS Textos, Artigos, Reflexões PUBLICADOS em algum canto


Há dois tipos de pobreza que podem, ou não, estar juntas: material e espiritual. A material, geralmente, não se dá por escolha: morar na periferia, trabalhar muito e ganhar pouco, não ter condições financeiras básicas, às vezes nem para se alimentar corretamente ou se vestir, e etc.. Contudo, isso não significa que se deve ser espiritualmente pobre: o intelecto e sua formação é 'incomprado' e não é possível de se vender ou de roubar-se. Enfim, não é a condição de pobreza material que nos leva à pobreza de espírito. Antes, é o espírito de uma época que condiciona as várias manifestações individuais dos espíritos, sejam pobres ou não. Mesmo assim, tal condicionamento não é totalitário: é possível transgredir seu curso.
Poucos acreditam que a riqueza de espírito é possível pautando-se pela pobreza material. Entretanto, não há conexão entre as duas: a material é determinada por todo um complexo sistema de relações sociais, políticas, econômicas e etc.; a espiritual é condicionada por estas mesmas relações e, também, por causas puramente individuais. Não querer ter difere de não ter
Como poderia, um indivíduo ligado ao que historicamente se colocou como marginalizado, conseguir riqueza de espírito mesmo sem ter nem a mera possibilidade de riqueza material? É uma pergunta que parece fazer sentido, mas que, no fundo, não tem lógica.  Não há ligação, reitero, entre tais riquezas e pobrezas: apenas há de maneira ideológica. Ponto final.


Coloco aqui meus textos, artigos e etc., publicados em algum canto, seja revista impressa ou virtual. Bem, estão aí para quem quiser ler, comentar, criticar ou seja lá o que for!

Salve do Urban Underground!

Autonomia e diferença: a identidade surda e a integração dos grupos marginalizados no sistema de valores sociais. In: Revista Pandora Brasil - “LIBRAS: Língua Brasileira de Sinais”, Nº 17, ABRIL/2010
Disponível em:  

http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/libras/vinicius.htm

Alienação e controle: a visão unidimensional da religião. In: HUMANIDADES EM DIÁLOGO, VOL. II, N. I, NOV. 2008, pp. 97-104

Estranhamento, unidimensionalidade e dominação: o discurso dos segmentos Neodenominacionais In: IV Congresso Internacional de Ética e Cidadania: Filosofia e Cristianismo. Universidade Presbiteriana Mackenzie 2008
Disponivel em: 

A Ambivalência da Religião In: CILENTO, Ângela Z.; INOCÊNCIO, Doralice; MASSON, Terezinha Jocelen (Orgs.). Licenciaturas em debate: ciência, ensino e aprendizagem, VOL. 2. São Paulo: Plêiade, 2009, pp. 17-26

Textos publicados acerca de Filosofia e Literatura:


Poesias e Contos: 

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Véio Barbudo [Karl MARX]

 Jovem Marx, à época do famoso Manifesto Comunista
Karl Heinrich Marx, um dos filósofos alemães do séc. XIX, criador do Materialismo Histórico a partir da Dialética hegeliana. Influenciado por toda a história da Filosofia, de Demócrito, Epicuro e Aristóteles  à Vico, Spinoza, Descartes, Rousseau, todo o Idealismo Alemão e etc., além de, principalmente, Kant e Hegel, os Economistas Clássicos Inlgeses e o Socialismo francês. Foi o grande pensador que desvendou os 'mistérios' da formação social capitalista, que influenciou quase todos os pensadores do século XX e, até hoje, é leitura e base indispensável para se entender o Capitalismo junto às suas grandes crises. 
Marx é o meu grande inspirador; é de sua teoria que parto para fazer todas as análises que fiz até o momento: o 'Véio Barbudo' é indispensável! 
Abaixo encontram-se dois textos de minha autoria: o primeiro é uma Resenha Crítica do texto de Edgar de Decca; o outro, sobre o Fetiche do Capital e da Produção. É só um pedacinho desse grandíssimo Filósofo. Tá aí. Pode ler, comentar, criticar ou seja lá o que for!
Salve Histórico-Dialético do Subsolo!

 Karl MARX & Friedrich ENGELS

         Vida e Obra: Karl Heinrich MARX nasceu em 5 de maio de 1818, na cidade de Treves, no sul da Prússia Renana, região que hoje é parte da Alemanha, nas fronteiras com a França. O pai de Karl, o advogado Hirschel Marx, era filho de rabino judeu, e apesar disso, estava afastado da religião de seu pai e era um livre-pensador, familiarizado com os livros dos ideólogos da Revolução Francesa, liberal moderado, admirador de Lessing, Voltaire e Rousseau. A mãe era holandesa e chamou-se, quando solteira, Henriette Pressburg; também descendia de rabinos judeus. Eram pequeno-burgueses prósperos da região de Treves. Com a conquista da região do Reno pela Prússia em 1815, antes anexada à França, após da derrota de Napoleão, os judeus ficaram em condição desconfortável por conta do governo reacionário, antisemita e antifrancês de Frederico Guilherme III. Com isso, o pai de Karl aderiu ao Protestantismo e mudou seu nome de Hirschel para Heinrich. Karl era o 3º de nove filhos do casal Marx.
             Na adolescência, no ginásio do Estado, Karl Marx fez amizade com Edgar Von Westphalen, filho do Barão Ludwig Von Westphalen, vizinho da família Marx. Karl virou amigo do Barão e levava longas conversas com ele. Se com o pai Marx aprendeu a admirar os filósofos racionalistas franceses, com o Barão aprendeu a admirar Homero e Shakespeare, admiração que preservou até o fim da vida. Do segundo casamento o Barão teve 3 filhos: um homem (Edgar) e duas mulheres. Uma dessas mulheres era amiga íntima de Sofia, a irmã mais velha de Karl, e chamava-se Jenny que, não obstante, era 4 anos mais velha que Karl; no entanto, ambos iniciaram um romance que haveria de uni-los pelo resto de suas vidas.
            Marx foi para a pequena cidade de Bonn, fazer estudos universitários em 1835. Não durou muito por lá. Em 1836 o seu pai o mandou para Berlim, onde teve contato com o grupo chamado de hegelianos de esquerda. Porém, com a morte de Frederico Guilherme III, seu sucessor Frederico Guilherme IV se mostrou ainda mais reacionário. Para defender sua Tese de doutoramento, Marx foi para a Universidade de Jena e lá obteve o título com a Tese “A Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro”.
           Sem sucesso na carreira acadêmica, Marx resolveu expor suas idéias pelos jornais. Enviou um artigo para os Anais Alemães, dirigido por seu amigo Arnold Ruge, que, entretanto, não pode publicá-lo por causa da censura. Mas ruge o enviou para o Anedota, revista de Zurich. Marx, por sua vez, começou a escrever para a Gazeta Renana, de Colônia. Seus artigos fizeram tanto sucesso que em outubro de 1842 ele se mudou para a cidade e passou a dirigir o jornal. 
           Em julho de 1843 Marx se casa com Jenny. No mesmo ano, com Ruge, pensou em editar os Anais Franco-Alemães. Mudou-se para Paris. Lá chegado, as lutas operárias com que tomou contato o impressionaram e, como Marx já havia visto a necessidade de aliar a questão política à filosofia, a fim de esta se realizar, este contato foi de grande importância. Enquanto preparava os Anais, Marx escreveu a conhecida Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
           Os Anais, em seu único número lançado, saíram em fevereiro de 1844, no qual Marx publicará dois artigos: a Introdução à crítica da Filosofia do Direito de Hegel e Sobre a Questão Judaica. Depois disso, Marx viu-se na necessidade de aprofundar os estudos sobre economia e tomou contato com David Ricardo, Adam Smith, James Mill e outros. Ia anotando suas leituras e idéias em algo não feito nem organizado para publicação que, mesmo assim, foi publicado no ano de 1931 sob o nome de Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 (ou Manuscritos de Paris), no qual desenvolveu sua teoria da Alienação [ou Estranhamento (Entfremdung)]. 
           Em 1842, Friedrich Engels – nascido também na Prússia Renana, na cidade de Barmen, em 1820 –, visita a redação dos Anais e tem um diálogo com o Redator-chefe, não muito entusiástico, Karl Marx. Em 1844 os dois voltam a se encontrar. Engels era filho de um burguês industrial e viajava constantemente para o pai. Numa de suas viagens à Inglaterra, a serviço do pai, estudou o capitalismo inglês e publicou “A situação das classes trabalhadoras (operária) na Inglaterra”, texto que agrada muito Marx e, assim, os dois voltam a se encontrar e tornam-se amigos pelo restante de suas vidas. 
          Marx viveu, em suma, o restante de sua vida dedicado ao estudo da formação social capitalista e a necessidade de sua superação. Quase que a totalidade do seu tempo em uma situação financeira difícil, recebeu ajuda de amigos, entre os quais Engels – que o ajudou muito. 
          No dia 14 de março de 1883, o filósofo prussiano Karl Heinrich Marx morreu após 14 meses de gripe que evoluiu para uma pneumonia.


Salve do Subsolo ao Maior Pensador de todos os tempos!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Resenha crítica de “O nascimento das fábricas”, de Edgar de Decca

           Introdução
 
O objetivo do presente trabalho é analisar o texto de Edgar de Decca “O nascimento das fábricas”. Para tanto, desdobraremos a reflexão em três partes. Na primeira, faremos um esboço do texto de Decca. Em seguida, mostraremos seu equívoco quanto ao socialismo realmente existente e pautaremos uma contraposição à sua concepção através daquilo que chamaremos de dominação abstrata, constituída pela especificidade histórica da categoria trabalho, mostrando que a forma de dominação prevalecente na sociedade capitalista está assentada no fetiche do capital, para além da oposição de classes. Por último traremos nossas considerações finais.

O nascimento das fábricas, de Edgar de Decca
O sistema de fábricas foi imposto pela necessidade organizativa de um período histórico. A “fábrica, ao mesmo tempo em que confirmava a potencialidade criadora do trabalho, anunciava a dimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria. (...) a presença da máquina definiu de uma vez por todas a fábrica como o lugar da superação das barreiras da própria condição humana.” (DECCA, 1984, p.8-9). Contudo, segundo Decca, a simples introdução tecnológica da máquina como instrumento contraposto ao trabalho vivo, hipostasiando sua capacidade criativa e submetendo-o ao julgo da máquina, não foi elemento determinante no processo de nascimento dessa nova organização social. Antes, “o surgimento do sistema de fábrica parece ter sido ditado por uma necessidade muito mais organizativa do que técnica, e essa nova organização teve como resultado, para o trabalhador, toda uma nova ordem de disciplina durante todo o transcorrer do processo de trabalho.” (DECCA, 1984, p. 25). Esta necessidade organizativa, porém, não estava sob o controle direto do trabalhador. O surgimento do capitalista e de uma classe de capitalistas, além de introduzir uma nova forma de organizar o mundo do trabalho, traz consigo todo um modo próprio de pensar que, com o desenvolvimento desse sistema, vai se aperfeiçoando de maneira progressiva e de acordo com as necessidades de manutenção dessa organização. A nova dimensão de pensamento e saber é constituída e apropriada inteiramente pela classe de capitalistas que o produzem segundo um universo limitado.
Essa forma organizativa do trabalho, imposta pela necessidade e dominada pela classe de capitalistas, impõe, ainda, algo além da forma de trabalho: introduz toda uma mudança na forma de pensar o tempo, de utilizar o tempo, afirmando a positividade do trabalho e seu poder de redenção (coisa que não ocorria nos períodos históricos anteriores). Não obstante, os saberes sociais produzidos sob a égide dessa organização são, também eles, apropriados pelos capitalistas de uma maneira dupla. Primeiro, com a divisão social do trabalho, divide-se os trabalhos intelectuais e manuais, cabendo à classe dominante produzir saber e exercer seus poderes através dele. Segundo, com a lógica de dominação imposta, a sociedade aparece na quase totalidade de seus fatos como algo dado, naturalizado no processo de imposição dos pensamentos da classe dominante; e, ainda, com a constituição de todo um mundo como dado, os pensamentos e tentativas de ação que extrapolem esse limites são excluídos de maneira quase que natural pela lógica desse sistema.
Quando nos defrontamos hoje com a impossibilidade de criar situações de conhecimento que interrompam ou invertam a lógica de um processo, designado real, podemos nos perguntar sobre os dispositivos que regem a ordem de domínio da sociedade. Sejamos explícitos desde o princípio. Estamos falando, no caso, de uma incapacidade imposta ao social, por ordem de um determinado domínio que retira dos homens a própria dimensão do pensar, como algo além do já dado.
Dentro daquilo que nos interessa, determinadas respostas já são bastante conhecidas. Por exemplo, quando falamos da produção de conhecimentos técnicos que não conseguem se impor socialmente, buscamos a resposta, via de regra, no nível do próprio mercado. Assim, uma tecnologia é ineficaz porque não consegue romper a barreira da concorrência imposta por uma ordem implacável. Nesse sentido, a conclusão é imediata. Não existem outras tecnologias além daquelas conhecidas, porque o próprio mercado se responsabiliza em eliminar as “menos eficazes”. Contudo, deveríamos ser menos ingênuos em questões que colocam explicitamente em jogo as relações de dominação social. Em outras palavras, as relações de mercado vão bem mais além do que as puras determinações econômicas. O estabelecimento do mercado é também o estabelecimento de um dado registro do real, no qual os homens pensam e agem conforme determinadas regras do jogo. Assim, o mercado não só impõe aos homens determinadas tecnologias “eficazes”, como também impede que lhes seja possível pensar outras tecnologias. (DECCA, 1984, p. 11-12).
Surge, portanto, uma forma de pensar definida e delimitada pela lógica da dominação da organização do trabalho pelos capitalistas: a ideologia. Neste sentido, os pensamentos dominantes expressam, idealmente, as relações materiais dominantes. São, portanto,
(...) relações materiais dominantes apreendidas sob a forma de idéias, logo, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; (...), são as idéias de sua dominação. (...) uma vez que dominam como classe e determinam uma época histórica, em toda a sua extensão, é evidente que dominam e regulamentam, completamente, como seres pensantes, como produtores de idéias, a produção e a distribuição dos pensamentos de sua época; suas idéias são, portanto, as idéias dominantes de sua época. (MARX, 1996, p. 155).
Assim, a ideologia é um corpo sistemático de representações e de normas que ensinam a conhecer e agir. A unificação do pensamento e ação, para obter a identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada, nada mais é que a imagem da classe dominante (CHAUÍ, 2006, p. 15). Há, então, uma forma lógica delimitada, uma regra a qual todos devem se adaptar, pois, qualquer tentativa de pensar e agir que fuja a essa lógica é excluído como erro, como irracional e ilógico. Assim, “pensar, (…) é pensar segundo regras já definidas, e o seu contraponto, no nível da sociedade, é justamente a impossibilidade de pensar além das regras.” (DECCA, 1984, p. 13).
Dessa forma, com uma nova dimensão de valores sociais imposta pelo mundo do trabalho, uma nova organização do tempo e uma nova técnica com saber racional e absoluto, a fábrica, segundo Decca, “foi transformando a produção de saberes técnicos numa esfera especializada de controle social, e, progressivamente, as questões de eficácia e produtividade tornaram-se regras do jogo da acumulação capitalista. Isto é, eficácia e produtividade foram reduzidas aos problemas de melhor e mais racional utilização da tecnologia pelos trabalhadores fabris.” (DECCA, 1984, p. 37). É dessa maneira que o autor conclui que um “determinado saber técnico” engendrou-se a partir da constituição do sistema de fábricas, “cujo fundamento esteve ligado ao maior controle e disciplina do processo de trabalho.” (DECCA, 1984, p. 37).

A especificidade histórica do trabalho no capitalismo
A fábrica, como descreve e analisa Edgar de Decca, ao contrário do que diz ele, é especificamente uma criação capitalista e só tem função e sentido nessa sociedade. Diz Decca:
(...) o sistema de fábrica, como o lugar privilegiado para a produção e efetivação de saberes técnicos, não tem os seus limites na ordem capitalista. Pensemos, por exemplo, o caso da União Soviética, reconhecida por muitos como alternativa histórica do capitalismo. Lá também o sistema de fábrica ao se implantar, trouxe consigo todas as seqüelas relacionadas à disciplina, hierarquia e controle do processo de trabalho, e o saber técnico aplicado esteve muito longe de ser detido pelos próprios trabalhadores.
Enfim, o sistema de fábrica introduz determinantes que lhe são inerentes, não importando que esse sistema se desenvolva num ambiente capitalista ou em outro qualquer, pois ele traz em seu bojo todas as implicações relacionadas à hierarquia, disciplina e controle do processo de trabalho, ao mesmo tempo em que se dá uma separação crucial: a produção de saberes técnicos totalmente alheia àquele que participa do processo de trabalho. (DECCA, 1984, p. 38)
Ora, assim sendo, quais as reais diferenças entre a formação social capitalista e o socialismo realmente existente? A teoria do marxismo tradicional, como sustenta Moishe Postone (1993), está pautada em um equívoco de interpretação da teoria marxiana. Tal interpretação – redimindo as variações entre os vários marxistas – possui um ponto fundamental e inquestionável que é, nada menos,  a categoria trabalho entendida como transhistórica.
No centro de todas as formas de marxismo tradicional encontra-se uma concepção transhistórica de trabalho. A categoria trabalho analisada por Marx é entendida em termos de uma atividade social com objetivo definido que efetiva a mediação entre os homens e a natureza, criando produtos específicos a fim de satisfazer determinadas necessidades humanas. O trabalho, assim entendido, é considerado como sendo central a toda a vida em sociedade: constitui o mundo social e é a fonte de toda a riqueza social. Esta abordagem atribui transhistoricamente ao trabalho social àquilo que Marx analisou como características historicamente específicas do trabalho no capitalismo. (POSTONE, 1993, p. 7-8).
O trabalho, entendido como força de produção das necessidades vitais humanas, foi compreendido como possuindo uma espécie de essência perdida com a fragmentação do mesmo pelo sistema capitalista. Essa interpretação, além disso, refletiu diretamente naquilo que se habituou chamar de ‘revoluções socialistas’ no século XX. Essas ‘revoluções’ possuem o equívoco histórico de dominarem o processo burguês de produção sem superá-lo, modificando apenas a forma de distribuição. O processo de mecanização do trabalho, a evolução técnica dominando o trabalho humano, que deveria necessariamente ser superada para a suprassunção da formação capitalista, foi mantida: a necessidade não foi superada para um estado de libertação do trabalho pelo ser humano enquanto técnica dominadora do sujeito no processo de sua própria constituição. A transição do capitalismo para uma forma de organização superior necessita da superação do modo de produção engendrado por essa sociedade.
Dessa forma, retornando ao equívoco interpretativo em relação à Marx, há dois pontos fundamentais aos quais se basearam todas as teorias da superação do capitalismo durante todo o decorrer do século XX. São eles: 1) que a burguesia deveria ser suprimida, suprimindo, assim, a propriedade privada; e, 2) o capitalismo possui, em potência, toda a configuração que engendraria e possibilitaria o socialismo. Marx argumenta, tanto nos Grundrisse, quanto n’ O capital, que a superação do capitalismo deveria se pautar na superação do modo como o trabalho é organizado nessa sociedade. O trabalho, entendido como historicamente específico, deve ser suprassumido, isto é, toda a técnica de produção, as relações sociais organizadas em torno do mundo do trabalho deveriam ser superadas com a superação do trabalho fragmentado criador de valor e capital. A tecnologia deveria estar a serviço não da classe operária, já que está também seria subsumida, mas do homem enquanto liberto do fardo histórico e conquistaria, por fim, como indivíduo social, a liberdade.
Neste sentido, o socialismo realmente existente pauta-se pelas mesmas bases do capitalismo: o que era apropriação privada torna-se apropriação pelo Estado; a contraposição entre classe trabalhadora e burguesia dá lugar a outra contraposição, a do proletariado frente ao Estado; o trabalho proletário, entendido como trabalho fragmentado e castrador da criatividade e liberdade humanas, permanece sendo tal qual; a organização do trabalho, assim como frisa Decca, portanto, continua a mesma. Dessa forma, importa salientar que, ao contrário de Decca, não foi o sistema de fábricas que percorreu as formações sociais mantendo-se inalterado; foi, antes, a formação social que, nas bases fundamentais, não se alterou.
Ainda assim, Edgar de Decca confunde em seu texto técnica e tecnologia. Fica patente que há uma distinção entre ambos os conceitos. Mas, qual? O sistema de fábricas, como enfatiza o autor, não é gerado historicamente pela introdução das máquinas. Antes, foi apenas uma organização do trabalho diferenciada do período anterior. Isto indica, inequivocamente, que uma nova técnica de organização do trabalho social foi introduzida, modificando toda a estrutura de valores sociais e modos de vida. Entretanto, o autor confunde técnica e tecnologia: a técnica, segundo ele, estava nas mãos dos trabalhadores e estes apenas foram introduzidos em uma nova forma de relações de poder e organização, hierarquizada e autoritária. Mas, há uma contradição nos termos: a técnica não podia estar no domínio do trabalhador já que com a introdução de uma nova forma de organização, o trabalho e o trabalhador são fragmentados e, ainda, subsume aquele trabalhador anterior que dominava todo o processo de seu trabalho. Esta técnica anterior já não está mais em jogo. Com a introdução de outra forma de organização do trabalho, desaparece aquele trabalhador e sua técnica. Surge, então, uma técnica alheia a ele. Independente se esta técnica venha constituída de tecnologia com a introdução das máquinas, independente se a máquina, neste momento, é um apêndice da fábrica e não o seu ‘primeiro motor’, aquela nova organização social do trabalho se impõe sobre o trabalhador e o domina; e ele, por sua vez, não possui esta técnica nova. É esta, portanto, que engendra a nova formação social e difere da tecnologia.
·        A dominação social no capitalismo
O dispêndio de tempo de trabalho humano direto engendra valor de uso na relação do sujeito com o objeto, no qual este é transformado por uma necessidade vital do ser humano. O trabalho, como necessidade natural humana, trabalho útil, como valor de uso, “é indispensável à existência do homem, – quaisquer que sejam as formas de sociedade, – é necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza, e, portanto, de manter a vida humana.” (MARX, 1971, p. 50). Entretanto, há outro aspecto do trabalho que compete somente ao capitalismo que é a criação de valor, isto é, valor de troca. É no valor que reside a especificidade do trabalho como categoria histórica. Ele é a condição de criação de riqueza social no capitalismo, pelo tempo de trabalho humano despendido na produção. “O valor é uma forma social que expressa o, e está baseada no, dispêndio de tempo de trabalho direto.” (POSTONE, 1993, p. 25). Logo, o que determina a grandeza do valor é o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso qualquer (MARX, 1971, p. 46).
Assim, este trabalho que cria valor no processo de produção engendra também, intrínseco a este processo, fetiche. Tanto o fetiche da mercadoria, como o fetiche do capital são formas criadas pelo trabalho no capitalismo e, além disso, transcendem ao próprio domínio do trabalhador, e também do burguês. Desse modo, transformando o trabalho supérfluo em necessário no intuito da criação de valor e capital (MARX, 1993, p. 706), o capital, enquanto tal, autônomo e desvinculado da vontade humana, desempenha o papel de dominar e determinar o processo histórico e as relações sociais fundamentais dessa sociedade.
Portanto, o fetiche do valor e do capital transforma-se em fetiche de produção: ele domina o processo histórico e as relações humanas nas suas formas materiais e espirituais. Neste sentido, “(...) a dominação social no capitalismo, em seu nível mais fundamental, não consiste na dominação das pessoas por outras pessoas, mas na dominação de pessoas por estruturas sociais abstratas constituídas pelas próprias pessoas” (POSTONE, 1993, p. 30). É desse modo que na produção da vida material no capitalismo que se cria o supérfluo como necessário e, nesse processo, também valor e capital que se tornam autônomo e abstrato – perante a coisificação do humano e a personificação da produção – dominando todas as relações existentes nessa formação social.

Considerações finais
O processo de nascimento do sistema de fábricas é o mesmo que dá vida ao capitalismo. É nessa nova forma de organização do trabalho, com o trabalho e o trabalhador altamente fragmentado, introduzidos em uma nova técnica e, consequentemente, em um novo mundo de relações, que se dá a forma característica dessa formação social. O modo de trabalho – criador de mercadorias, valor e capital, e sendo, ele mesmo, capital – é que dá bases para um novo modo de dominação, superando as dominações pessoais diretas ou de grupos e classes. Desse modo, a categoria trabalho e todas as relações que se criam em torno dela são específicas do capitalismo, não sendo, então, compatíveis com uma organização social diferenciada ou que supere esta de fato. Portanto, a fábrica, configurada da forma como descreve Edgar de Decca, é específica do capitalismo e, consequentemente, a superação do sistema capitalista deve se dar partindo da superação da organização daquilo que nosso autor descreve como sendo o sistema de fábricas, isto é, a transformação dessa sociedade para uma organização superior, não pautada mais sobre a produção do supérfluo enquanto necessidade para o capital, deve superar a técnica e se apropriar da tecnologia, superar o trabalho proletário fragmentado e libertar o homem do domínio do capital superando, por fim, a produção do supérfluo e do valor e capital enquanto fetiche.

Referências bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. 11. ed. revista e ampliada. São Paulo: Cortez, 2006.
DECCA, E. S.. O Nascimento das fábricas. 2º ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Tradução de Giasone Rebuá. 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979.
MARX, Karl. “A produção da consciência”. In: IANNI, Octavio (org.) Karl Marx: sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais, vol. 10. 8. ed. São Paulo: Ática, p. 145-58, 1996.
___. Grundrisse: foundations of the Critique of Political Economy. Tradução e prefácio de Martin Nicolaus. Londres: Penguin Books, 1993.
NEGT, Oskar; KLUGE, Alexander. “O trabalhador total, criado pelo capital com força de realidade, mas que é falso”. In: ___. O que há de político na política? Relações de medida em política. 15 propostas sobre a capacidade de discernimento. Trad. João Azenha Júnior; colaboração Karola Zimber. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, pp. 103-34, 1999. 
POSTONE, Moishe. “Necessity, Labor, and Time: A Reinterpretation of the Marxian Critique of Capitalism”. In: Social Research, Vol. 45, nº 4, winter 1978, p.739-788.
___. Time, labor and social domination: A reinterpretation of Marx’s critical theory. New York: Cambridge University Press, 1993.

O Trabalho total e o Trabalhador total: O FETICHE DO CAPITAL

            O objetivo da presente dissertação é discutir um ponto específico da teoria de Proudhon, contida no texto “Sistema das contradições econômicas: filosofia da miséria”, no qual o autor apresenta sua concepção de trabalhador total. Para tanto, valer-nos-emos da discussão de Marx sobre a constituição do valor (de troca) e da concepção de trabalhador total e trabalho total contidas nos “Grundrisse” e em “O Capital”, e, também, do texto de Oskar Negt e Alexander Kluge “O trabalhador total, criado pelo capital com força de realidade, mas que é falso”. Discutindo, portanto, como Proudhon não concebe o valor como específico do movimento do capital, enquanto criado independentemente da vontade dos indivíduos, nem, tão pouco, pelo processo de distribuição e troca ou dos preços e salários (enquanto ‘retorno’ ao trabalhador) em geral, chegaremos a sua concepção do trabalho total feito por um trabalhador coletivo-social total. Neste sentido, mostraremos como o trabalho total e o trabalhador total é criado pelo capital, como fetiche próprio do seu movimento intrínseco, que, mesmo com poder de realidade, é falso.

Contudo, não faremos uma discussão detalhada – por conta, inclusive, das dimensões dessa dissertação –, apenas apontaremos, em linhas gerais, como se dá a crítica de Marx à Proudhon.
Neste sentido, partiremos da seguinte afirmação de Proudhon:
O homem, então, único entre os animais, trabalha, dá existência às coisas que a natureza não produz, que Deus é incapaz de criar porque as faculdades lhe faltam, assim como o homem, pela especialidade de suas faculdades, não pode fazer nada do que o poder divino realiza. Rival de Deus, o homem trabalha tanto quanto Ele, embora de uma forma diferente: fala, canta, escreve, conta, calcula, faz planos e os executa, pinta e esculpe imagens, celebra os atos memoráveis de sua existência, institui aniversários, se estimula pela guerra, excita seu pensamento pela religião, a filosofia e a arte. Para subsistir, coloca em movimento toda a natureza, apropria-se dela e a assimila. Em tudo o que faz, coloca sua intenção, sua consciência e seu gosto. Mas o que é mais maravilhoso ainda, é que, pela divisão do trabalho e pela troca, a humanidade inteira age como um só homem e que, entretanto, cada indivíduo, nessa comunidade de ação, se encontra livre e independente. Enfim, pela reciprocidade das obrigações, o homem converteu seu instinto de sociabilidade em justiça e como garantia de sua palavra se impõe sanções. Todas essas coisas, que distinguem exclusivamente o homem, são as formas, os atributos e as leis do trabalho, e podem ser consideradas como emissão de nossa vida, emanação de nossa alma. (PROUDHON, 1986, p. 197 – grifo nosso).
 1. Marx argumenta[1] que o trabalho na sociedade capitalista, enquanto criador de mercadorias é, inexoravelmente, produtor de valor de troca. O valor se apresenta como conseqüência inexorável do processo de produção capitalista. Este processo cria mercadorias; estas aparecem como fetiche: as qualidades humanas e sociais do trabalho nelas injetado apresentam-se como qualidades naturais das próprias coisas; o fetiche das mercadorias revela-se como personificação das coisas e coisificação das pessoas. Esse fetiche não é criado por um modo de distribuição inerente ao capitalismo, nem apenas como a forma de apropriação, pelo capitalista, dos meios de produção e do excedente dos trabalhos. Ele é engendrado no processo de produção: é imanente à configuração do trabalho na formação social capitalista. É, assim, condição de criação de riqueza social pelo tempo de trabalho humano estranhado despendido na produção. O que determina a grandeza do valor, portanto, é o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso qualquer (MARX, 1971, p. 46).
Proudhon pauta, em linhas gerais, que o simples fato de os trabalhadores se apropriarem da riqueza criada por eles fazendo com que, no âmbito da troca, toda essa riqueza se expresse em suas mãos, enquanto troca justa dos trabalhos, já personifica o trabalhador social total. A mais-valia, nesse processo, não se configuraria e, portanto, o valor de troca não seria condição de apropriação alheia da riqueza. Trocando seus produtos de maneira igualitária, os trabalhadores se apropriariam totalmente dos valores de troca desses produtos, sendo que o imediato de suas produções corresponde tanto aos custos de produção, quanto aos salários: “o trabalho de qualquer homem pode comprar o valor que encerra” (PROUDHON apud MARX, 1991, p. 53). Desse modo, segundo Proudhon, o salário é inteiramente o valor dos produtos criado por cada trabalhador.
Contudo, Marx dirá em A miséria da filosofia que Proudhon vê a sociedade do futuro, a superação do capitalismo com as fórmulas dessa forma social. A sua interpretação do valor – visto como mero atributo da distribuição, da concorrência, dos preços, das disposições dos objetos na natureza, dos salários e etc. – não chega ao cerne do problema da não liberdade que é, segundo Marx, a produção enquanto produção de capital (MARX, 1991). Não obstante, o valor de troca é, em si, desvinculado da autonomia do trabalhador por conta das relações sociais capitalistas e, desta forma, não pode ser apropriado pelos trabalhadores e ponto central da sociedade do futuro.

2. Neste sentido que em seus textos posteriores (MARX, 1971; MARX, 1993) Marx chegará ao fetiche do capital. O fetiche da mercadoria esconde um outro tipo de personificação que é o fetiche do capital. Criado pelo mesmo processo de produção, o capital desapropria o trabalhador de seu poder produtivo. A relação social dos objetos que subjaz a relação social dos indivíduos, “à medida que o capital subtrai da força de trabalho socialmente produtiva uma das sínteses que partem dele (a relação social), institui uma combinação, com poder de realidade, da força de trabalho social.” (NEGT; KLUGE, 1999, p. 104). Assim, “o capital não incorpora apenas o trabalho social, portanto, mas também as combinações sociais da força de trabalho, que se acumulam diante do trabalhador individual sob a forma de poderes sociais.” (NEGT; KLUGE, 1999, p. 104-5).
O trabalhador total e o trabalho total, entendidos como essência de todas as atividades produtivas, no interior de uma sociedade, que é expressão racional da vida em comunidade contêm, não obstante, uma espécie de síntese daquelas atividades de que uma sociedade não pode abstrair sem perder sua base de existência. É dessa maneira que Proudhon entende o trabalho: “Mas o que é mais maravilhoso ainda, é que, pela divisão do trabalho e pela troca, a humanidade inteira age como um só homem e que, entretanto, cada indivíduo, nessa comunidade de ação, se encontra livre e independente.” (PROUDHON, 1986, p. 197). O que Proudhon não vê, contudo, é que a divisão social do trabalho e a troca enquanto constituída pelo valor de troca dos objetos, institui, na produção de si, o fetiche do capital. Dessa forma, Negt e Kluge afirmam que
Embora possamos constatar esse protesto do trabalhador total em quase todas as utopias de Estado, de sorte que é perfeitamente possível encontrar nessas projeções de uma nova sociedade o par categorial produtivo/improdutivo como elemento determinante, verificamos que, com esses conceitos, todas as sociedades tradicionais (com relações de poder pessoais, com classes meramente consumidoras) podem ser criticadas, mas eles não se aplicam, ou não são suficientes, para  criticar a ordem social capitalista. (NEGT; KLUGE, 1999, p. 104). 
Esse trabalhador total pautado por Proudhon é, na analise marxiana, instituído pelo capital enquanto ser abstrato personificado, autônomo e possuidor de uma aparência objetiva independente, criado no processo de produção, intrinsecamente, e deixando o trabalho social como aparentemente controlado pelo trabalhador total. Entrementes, mesmo o trabalho direto sendo a fonte de mais-valia, do valor e da riqueza em geral, seu poder social fica desprovido de realidade. De tal modo, fora do contexto capitalista, o poder social desses produtores é impotente, sua capacidade autônoma de produção é rompida. Mesmo sendo a base substancial da sociedade enquanto constituinte do capital, ele aparece “subjetiva e objetivamente desprovido de realidade, impotente, como mera função do capital, que representa o verdadeiro sujeito da síntese e da produtividade.” (NEGT; KLUGE, 1999, p. 106).
Portanto, aquela concepção de Proudhon, na qual “(...) cada indivíduo, nessa comunidade de ação, se encontra livre e independente”, torna-se falsa, pois, esse indivíduo que aparentemente se apropria do capital, do trabalho total produzido socialmente, enquanto trabalhador total é desprovido de realidade. O capital, no seu movimento autônomo, coordena esse processo como dominador; como dominação pelo fetiche, a produção, no âmbito da criação de valores de troca e de capital, jamais poderá ser apropriada pelo indivíduo “livre e independente” já que, não obstante, esse indivíduo social é dominado pelo seu próprio processo de produção. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MARX, Karl. Grundrisse: foundations of the Critique of Political Economy. Tradução e Prefácio de Martin Nicolaus. Londres: Penguin Books, 1993.
___. Miséria da filosofia: resposta à Filosofia da Miséria do Sr. Proudhon. Trad. Zeferino Coelho. Lisboa: Avante, 1991. 
___. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I, Volume I. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
NEGT, Oskar; KLUGE, Alexander. “O trabalhador total, criado pelo capital com força de realidade, mas que é falso”. In: ___. O que há de político na política? Relações de medida em política. 15 propostas sobre a capacidade de discernimento. Trad. João Azenha Júnior; colaboração Karola Zimber. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, pp. 103-34, 1999. 
PROUDHON, Pierre-Joseph. “Demografia: relação entre trabalho e procriação”. In. RESENDE, Paulo-Edgar A.; PASSETI, Edson (Orgs.). Proudhon: coleção grandes cientistas sociais. Trad. Célia Gambini. São Paulo: Ática, pp.194-204, 1986.
 

[1] Esse argumento aparece na Miséria da Filosofia, e, posteriormente, mais aprofundado e detalhado, nos Grundrisse e n’ O Capital.

sábado, 15 de maio de 2010

Jay Dee - Untitled/Fantastic


Jay Dee [James Yancey, ou mesmo J Dilla - 1974-2006], o grande produtor e pensador - um dos maiores, senão o maior de todos os tempos - do Rap, Dj do Slum Village, junto com Baatin e T3, na primeira formação, foi, como diz o nome dos dois primeiros discos, "Fantastic". O Cara conhecia muito de música do mundo todo, inclusive a nossa que, como já disse em algum canto, mal conhecemos. Produziu sons lendários e eternos para todos os grandes nomes do nosso Movement: de A Tribe Called Quest, Pharcyde, o próprio Slum Village entre mais uma porrada, além dos seus discos solos, of course.
Bem, ficar falando do cara é perda de tempo já que, quem o conheceu em vida, seja pessoalmente como alguns, pelo som e pela sonoridade e genialidade como outros, sabe qual é a caminhada. A única pena é que, em 2006, uma doença rarríssima destronou o Grande Mestre dos Beats: Lupus.
Mesmo assim, James Yancey ainda vive: seja em seus discos, nos do Slum, nos do seu irmão mais novo Illa J, ou mesmo na memória de todos aqueles que puderam ouvir, em alguma baladinha ou mesmo em casa, as pedradas desse maluco.

Slum Village
 T3, Baatin and Jay Dee
 
Projeto JayLib - Jay Dee and Madlib

Salve do Subsolo à Jay Dee! Fantastic!










Salve do Subsolo!

Verocai por Nuts

O fantástico e conhecedor Dj Nuts fez essa Mix com os sons do gênio Arthur Verocai. Só há uma coisa a se falar a respeito da música brasileira: perfeita. Não há igual, em qualidade e completude, quanto essa nossa que, curiosamente, desconhecemos. O Brasil parece se resumir ao "Lixo Ocidental" (como diria Milton Nascimento). Mas, não. Não é isso que temos aqui. Temos Coisas, Orquestras fantásticas, músicos venerados em quase todo o mundo, menos num lugar: aqui. Não dá para entender. Trè Bien! E vamos, nós, seguindo em nosso mundinho, aquele sobre o qual dizem ser 'intelectualizado' e mais um bando de proselitismos baratos. Enfim, nada melhor que nós. Enquanto isso, continue aí no teu quarto ouvindo Beyoncé e ficando cada vez mais 'idiot'.




Ouça Verocai por DJ Nuts

Salve do Subsolo!

sábado, 1 de maio de 2010

Mediocridade... [O Progresso da Ordem fracassada]

A racionalidade contemporânea, que tudo pode e tudo quer quantificar, naturalizou a existência do absurdo ilógico. Pensar em algo como uma evolução natural é produzir monstros estando em sono perpétuo e eterno. Mas, diferente de Goya, seja lá qual for minha livre interpretação sobre isso, a razão não dorme mais; não tem a possibilidade de criar monstros: ela própria se tornou monstro. A expressão maior disso: o Progresso!

O texto abaixo é de minha autoria. Encontra-se em minha página de contos e poesias:
recantodasletras.uol.com.br/autores/HusaniKamau

Salve reflexivo do Subsolo!
 
"O sono da Razão produz monstros" - Goya 1799

...ou fazíamos isso ou continuávamos inertes como a grande maioria dos fantoches e veríamos a vida passar diante de nós enquanto ficássemos sentados, estáticos e extáticos, observando, dizendo: "olha, ali vai minha vida." E com um pouco de consciência crítica diríamos, nessa inércia: "como sou medíocre!"

                                                                           * * *
...inertes nesse plano; sem consistência. A violência que nos aplicam, simbólica ou não, é assimilada em todos os caracteres, em todas as suas formas. A mediocridade autônoma chegou ao cume: não há mais cenas novas, não há mais ciúme; não há mais mundo, não há mais reflexão. O que há, única coisa que resiste nesse absurdo, enfim, é morte!

                                                                           * * *
...ou vivíamos isso ou debandávamos à morte, à inércia desse movimento estático... A vida passaria, sim! Mas, com um pouco de criatividade gritaríamos: "medíocres aqueles que ainda vivem o Progresso!"
Husani Kamau