sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Racismo cínico e Vitimização do agressor


No caso do goleiro do Santos, Aranha, uma coisa é sintomática: o preto que não age como “pai Tomás” é rechaçado e, numa inversão, transformado em agressor. Aranha agora está sendo visto, mesmo que não tão descaradamente, como o “ponta de lança” da situação: ao não “desculpar” a vítima, ele se torna pessoa cruel, insensível, intolerante, não compreende a situação e, por isso, é desacreditado, sendo culpado por sua não-reciprocidade. Há duas questões importantes nisso: 1º) o racismo no Brasil é tão velado que quando surge, surge como aberração, como patologia e, por isso, o diálogo – à moda deles – deve ser aceito e o acordo que envolve a aceitação da desculpa por parte do agredido deve ser ratificado (caso contrário, ele se inverte e o agredido perde seus créditos morais. Imagine um caso simples: alguém é, digamos, estuprado; o estuprador pede desculpas e quando o agredido não aceita é visto como culpado da consequência da situação, sendo que poderia ter acabado com o problema caso tivesse aceito as desculpas do agressor. No fim, aceitando o pedido de desculpas, o agressor sai, pelo menos em relação à sua “honra” e sua consciência, satisfeito e imune); 2º) o racismo é sempre um caso individual – o agressor age por impulso e o agredido deve agir racionalmente – isto é, não há um contexto, uma estrutura social e histórica por detrás da agressão; há apenas duas pessoas (nesse caso) que se agridem (mutuamente, segundo o raciocínio dos “apaziguadores”).
Existe um racismo estrutural: ele acompanha a história social de constituição da sociedade brasileira. Por isso, ele está em todos os lugares sem estar em nenhum local definido. Um tipo “espiritual” que compõem as mentes das pessoas antes mesmo de elas virem ao mundo, antes de nascerem. Não é o branco que é racista: ele, sem dúvida, é um dos polos irradiadores mais fortes e visíveis; mas o racismo é tão impregnado na constituição da sociedade e da individualidade que ele “desaparece” quanto mais forte fica. A moça que, sem querer, “deu a cara à tapa”, além de não ser um caso isolado, talvez não seja mais racista que o Pelé, por exemplo. É claro que existe uma diferença: o Pelé tem a pele preta, mas para por aí. Ser preto, no Ocidente (para não limitar ao Brasil), vai além da cor da pele. Ser preto é constituir uma vontade “negativa”: ter a pele preta é contingente, não se escolhe a cor com que se vai nascer e viver para sempre. Ao contrário, ser Preto é uma questão de escolha: é a escolha de criar uma identidade que se identifica, de pronto, com a resistência que é viver a cada dia tendo que defender algo que se construiu à duras penas. A identidade do Preto é a todo o momento atacada – temos que defender nosso cabelo, nossas escolhas, tanto as escolhas simples quanto as mais complexas, defender nosso corpo e etc. – e, sendo atacada essa identidade, ser Preto se torna questão de resistir tentando assegurar quem se é sem sucumbir, o que é difícil em demasia. E a resistência é a negação da harmonia pré-estabelecida na estrutural social que beneficia quem sobrevive à custa da violência do racismo (e de outras). Isto é: resistir é ser posto, por quem manda, na posição de agressor da harmonia do todo, da boa convivência, da cordialidade. E sendo agressor da cordialidade, não deve ser digno de respeito. Quando, ao contrário, o sujeito com a pele preta nega a existência do racismo, ele se torna um agressor por excelência: quem vai discordar de um preto que não se vê rebaixado pelo racismo e nega a existência dele? Ele é o discursador perfeito para o caso. No entanto, ele pode ser preto, mas não é Preto.
Pelo fato de ser estrutural, o sujeito racista não se vê como racista. Ele age, consciente ou não, de acordo com o que é orquestrado. O Preto, que assim se designa, e não consegue enxergar para além da condição do racismo direto (aquele no qual o racista tem uma face definida), sucumbe ao racismo. As causas do racismo vão para além do ato pronto e acabado: se o racista “não existe” ou não aparece, não significa que não exista o racismo. Em outras palavras, ser contra o racismo mas ser de direita, por exemplo, apoiar o sistema social opressor, é, contraditoriamente, ser racista sem o saber (ou sabendo e fingindo não saber, que talvez seja pior). Estruturalmente, os pretos foram usados na Colônia para gerar riqueza, ao mesmo tempo em que eram inferiorizados; na passagem para o sistema social capitalista, o preto é usado para... gerar riquezas, e é inferiorizado servindo como “bode expiatório” da situação vigente: ele é culpado até mesmo quando é vítima (aliás, grosso modo, a situação da mulher e do homossexual não é muito diferente, neste caso).

Punir o sujeito concreto que cometeu um ato racista não acaba com o racismo. É exemplar; o sujeito deve ser punido pois cometeu um crime. Mas não altera a situação “abstrata” da estrutura racista. Contudo, não o punir é ratificar o racismo abstrato (este estrutural) e o concreto (cometido por pessoas nos mais variados modos). Mas a punição não deve extrapolar a legalidade: o racista deve pagar pelo crime de racismo e não com pena de morte e etc., não deve pagar com a vida, com sua existência individual e de sua família, sua pessoa e etc.. Caso pensemos assim, estamos dando um tiro no pé: ratificamos a vingança sob o pseudônimo de “justiça”, da mesma forma que a estrutura racista quer reduzir maioridade penal para se vingar do seu reflexo no espelho, o seu outro que é sua sombra perversa; todavia, como uma bela sombra, é a imagem desfigurada de si mesmo. O caso da punição deve ser educativo, não vingativo. Ainda assim, é necessário que ela aconteça, que a lei seja cumprida, que a punição seja dada. Ela, reiterando, por si só não é educativa. Deve vir acompanhada de um processo estrutural de modificação da situação racista. E é necessário que ela aconteça para que a vítima não seja transformada – como já está sendo – em agressor. E não seja tratada como vítima no sentido do “coitadismo”: ser vítima não deve rebaixar o indivíduo ao plano inferior de “vítima em todos os casos”. Da mesma forma ser agressor não deve, por um lado, colocar a veste do diabo na pessoa e, por outro, tentar tirá-lo de sua culpa: se assim fosse, o agressor ganharia as graças do público, seria visto como aquele que merece cuidados e atenção. Isso não deve ser aceito em nenhuma hipótese e por ninguém que queira receber o adjetivo “humano”. 

Subsolo!