quarta-feira, 13 de abril de 2016

Traumas de infância


Pequeno contexto
Na pequena vila de Dom Henrique Fernandes, situada a oeste da grande cidade, fechada em si mesma, vivia aquele menino que, perdendo-se inteiramente nos livros, não sabia se perder nas pessoas.

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Não sabendo que era triste, tornou-se arrogante.

“Não se pode, nem se deve, confiar nas pessoas, sejam elas quem forem. A grande lição da vida, e digo da vida coletiva, é aquela que os livros ensinam. A letra viva destes é mais que o elixir por onde se deve guiar o espírito. Toda cidade, toda pessoa de bom grado, deveria saber disto.” “– Mas você não pode se isolar, querido. Não pode pensar que não há nada que salve nas pessoas. Filho! Talvez se abrisse mão dessas ideias que cria poderia enxergar melhor”. “– A paciência do conceito! A Paciência. Paciência, senhora.”

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Dizia consigo mesmo o homem, que dantes havia sido aquele menino mal resolvido, inculcado com um mundo, que as pessoas não atingiriam, nem de resvalo, o clímax daquela Ópera chamada vida. Paciência: Eis seu grande mistério! Resolveu tornar-se bom exteriormente. Aliás, bom já o era desde criança, bom em demasia. Mudemos a palavra: resolveu tornar-se humano. Rebaixou-se dos céus e veio ter com a ralé que, no entanto, agora seriam seus pobres-diabos, talvez de fato, seus convivas de mais alta cotidianidade. Tratava-os, no passar do tempo, com toda compreensão disponível no universo. Não deixava de ouvi-los um minuto sequer. Atento a tudo e todos, ouvia mais que falava. E com isso desfrutava de bons momentos. Seu grupo mais íntimo, aqueles que sempre lhe estavam ao redor, admirava-no fielmente. Homem sóbrio, inteligente e bondoso, era referência viva e humana para os demais, mesmo quando dizia coisas escapulidas incompreensíveis. Sua paciência se dava naturalmente aos outros. Quando muito, questionava-os de forma delicada e amigável. Nunca os destratava. Pelo contrário, tratava-os como mereciam – tudo ao nível e ao gosto do outro –, sem o pedantismo moral dos grandes – ao qual, como firmemente se sabe pelo que sobrou de seu Livro Pessoal de notas esparsas, pertencia no mais alto escalão. Sempre disposto a sondar, sem rudeza, o espírito de seus interlocutores, nunca os fazia sentir o incômodo da palavra dura e necessária, tampouco deixava transparecer qualquer coisa que não fosse aquilo que, de fato, aparecia aos demais: sua letra e espírito coincidiam. Paciência! Sua grande virtude era esta, mãe da humildade e da tolerância. Homem de bem, cidadão exemplar e amigo até daqueles que não conhecia mais ou menos profundamente, nunca se deixava abalar pelas palavras mortas e sem critério dos menos letrados. Paciência! Sua grande virtude era somente sua, um para-si intocável.

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Em seus diários tentava, depois de adulto, retratar sua exímia e peculiar infância. Com acurada escrita, descrevia até os detalhes de eventos praticamente irrelevantes para a maioria dos mortais. Tanto é que, apesar da descrição detalhista, nunca datava e nem havia ordem nas folhas: abria seu livro e a página que estivesse em branco recebia a tinta, estivesse onde estivesse. “Nem mamãe, nem papai. Ninguém escapa.” ... “Toda a solidez do mundo se dá a partir da solidez das ideias. Não há nada no homem que seja sólido se não participa da eternidade, das ideias. Tal como Aquiles, é preferível a morte na guerra ao ficar fora da eternidade, longe das letras.” ... “O ranço que sentem por quem é grande, muito maior que eles, é incrível! Fruto de suas frustrações parasitárias. São desprezíveis em um nível profundo.” ... “Conviver com tais indivíduos é medíocre, é morte em estado puro! Nunca chegarão aos pés dos grandes.” ... “Ainda que ninguém saiba, há um plano maior e mais poderoso do qual somente participarão aqueles libertos, conceituados e relevantes. Somente aqueles nascidos com o dom poderão participar. Aqui neste lugar não há nada. Nada para um grande. ‘Poderosos os que são invencíveis; invencíveis os que são grandiosos. Medíocres aqueles que são inferiores por natureza’.[1]

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No diário, além das ideias e criações que beiravam ao bizarro, havia notas mais realistas e concretas sobre suas perdas. Todavia, não as retratava como perdas propriamente ditas. Antes, acumulava como experiência do espírito e cultura superior. Os relatos, mesmo que esparsos, diziam respeitos aos castigos e a uma espécie de ódio que sentia por seus pais por estes não compreenderem sua grandeza e o punirem em infância. Havia, ainda, mágoas reiteradamente escritas em várias passagens sobre a falta de aproveitamento próprio pela dependência que tinha em relação aos seus pais. Justificava-as elucubrando sobre a necessidade da linha torta para o caminho dos superiores. Dizia que eles não compreendiam suas altas destrezas e não o levaram a sério, fazendo com que ficasse preso ao “mediocrisismo” – neologismo do próprio diário – do comum e daquela vila de Dom Henrique. Dizia, ainda – e aqui colocamos literalmente: “Somente os caipiras apreciam a vileza de tal estância!”. Embora tenha dito isto, e parecesse se assegurar muito das palavras, vivia feliz quando de sua guinada ao convívio. Talvez seja explicável por conta de sua guinada ter sido relativamente, levando em conta as condições medíocres dadas – segundo ele mesmo –, favorável por assumir a posição daquele que era amado por todos – mas sem reciprocidade alguma, vale ressaltar.

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Ao que tudo indica, visto seu trágico fim ainda em vida, todo seu percurso estava marcado por um hedonismo narcisista irreparável. Suas fixações, na infância, por ideias de gente grande – anal, diria aquele austríaco –, frustraram suas pretensões. Sua vida adulta, marcada à ferro em brasa por fragmentos de infância não superados, girava em torno – tal como na infância – de um teoria das menos mirabolantes, ainda que pensasse firmemente ter sido das melhores já que copiava pobre e descaradamente O Príncipe e Ricardo III sem nunca admitir. Um tanto quanto simplista. Consistia no seguinte, e aqui colocamos o escrito do autor ipsis litteris:
“Há duas categorias de pessoas: aquelas que nasceram grandes e destinadas a serem servidas e os demais, destinados a tudo menos reinar. No primeiro caso, existem poucos – e aqui neste pedaço do todo não há mais ninguém. O mundo é um todo completo e não muito complexo. Os que servem precisam dos grandes espíritos; os grandes, no entanto, devem sempre desprezar os pequenos, pois são desprezíveis, e fazer uso deles mais simbólico-espiritual que prático. O tratamento paciente e de aparência humilde para com os pequenos é para que, por um lado, achem que sairão vencedores em algum momento. Os grandes, em uso legítimo de seus dons e funções naturais, devem parecer amigos para que sejam venerados, deixando assim que os pequenos descubram, ainda que indiretamente, que possuem um dos destinados a reinar no meio deles. Não há remédio para a plebe. E como não há remédio, devem fazer uso de todas suas forças, ainda que medíocres e fracos, para impressionar O grande. O reconhecimento do Grande é a maior virtude popular; o Grande, por si mesmo, acresce a si toda a veneração fazendo-se maior. Não há devolutiva. Os pequenos não mudam de tamanho, são por natureza assim. Portanto, não há que agradá-los, ao menos que seja em aparência para que insuflem cada vez mais o grande e seu reinado sobre tudo.”
Ao largo da contradição da teoria, uma afronta ao “grande” o pôs por terra, e seu fim inescapável, criado por si mesmo desde muito, não teve remédio.

Pequeno desfecho
Não sabendo de fato sobre as pulsações do convívio, um estrangeiro deu o golpe, ainda que involuntariamente, que o desgraçaria para todo sempre. Estrangeiro, não sabedor das coisas, tal como Wilhelm Tell, não se curvou, e isto bastou para que todo trauma ancorado no espírito desde sempre viesse à tona sem rodeios. Bradou por todos os cantos das coisas que o angustiava, rogou praga para todos após colocar a culpa neles. Debateu-se consigo, interiorizou-se. Acabou-se em vida, para o resto dos dias. Descobriu-se e negou a si mesmo. E, sem saber que era gente, chafurdou na tristeza.





[1] Escrito em latim no diário, provavelmente uma citação.


Subsolo!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O dono da bola


– Mas quem disse que você vai jogar?

Prelúdio de um fim de partida

O tipo psicológico do dono da bola, depois de crescido, é permeado pelo ressentimento e pelo sentimento de mando recalcado que, vez ou outra, explode já que não se contém. Se na infância montou em seus supostos pares, tal como Brás Cubas, e deles fez cavalos, nunca que tal atitude, marca indelével do caráter, poderia ser adormecida para sempre – ainda que o dono do sentimento – e da bola – tente constantemente usar do artifício superficial da humildade. No fim da partida ele sempre ganha, ainda que tenha perdido, no grito e por sua autoridade conferida por sua posição. A propriedade que encarnou outrora na bola, agora é mundo – ainda que seja o mundo limitado, tal como Itaguaí de Bacamarte, no qual ele vive: seu campo. Seus pares são somente os submissos, que, todavia, o odeiam e o veneram. O medo de não poder jogar o jogo natural da vida, que aquele controla e universaliza a partir de sua própria noção de partida, faz que os outros sintam um medo natural. Amigo de ninguém e de todos, o dono da bola é um sequelado de si mesmo: sua maior vantagem e glória é síntese de sua patologia mais profunda. Sempre joga, ainda que seja ruim, e sempre aponta o dedo para os demais, inferioriza-os por, na mesma mão, sua inveja e incapacidade. A bola – agora seus títulos e posição social na academia ou no universo da política bairrista dos corredores e dos bares chiques – sempre lhe conferiu um status que não possuía por nascimento: nasceu sem dom, ainda que privilegiado pelas circunstâncias e pelos craques de sua família. Ressentido por não ter ultrapassado seu pai, mostra toda sua capacidade de mandar e desmandar mediado pelo poder conferido pela bola. Feitor, seus títulos honoríficos – ou mesmo oníricos –, é a chibata com a qual açoita duas vezes a si mesmo quando a joga para trás no movimento de castigar os inferiores que elegeu por si. Seus pais e avós são os grandes culpados por suas sequelas, não consegue – e seus sonhos recorrentes trazem monstros – ultrapassá-los: foram grandes demais...

Uma partida de rua

Você é feio! Não quero você no meu time! “– Mas ele é bom, não dá pra o deixar jogar no outro time.” – A feiura somente aparece aos olhos despercebidos. O menino mimado, dono da bola, sempre teve na educação da rua sua mais bela feição: nunca aprendeu a perder nem a ver beleza nos desiguais. Na rua, o primeiro jogo é sempre dele. Enquanto ganha, todos do seu lado são os melhores amigos. Na virada, quando os times se desmembram e formam-se outros – tal como o brinquedo de Nietzsche que se desconstrói para se reconstruir diferente –, todos aqueles que antes mereciam as maiores glórias vindas do Rei, agora são os macacos pobres que jogam descalços. – Seu preto safado! Pé rapado! Na rua o corro come. O único branco corre. Esconde-se em seu ressentimento de concreto: sua casa, também ressentida, de ornamento da classe média em pleno seio da periferia. Seus pais se acham pequeno-burgueses e descem e sobem a rua sem falar com os vizinhos, tratam de si mesmos como se vivessem nos bairros que, segundo sua visão, são os apropriados para gente como eles. A periferia, aquela rua, aquela casa? São meros acidentes e passageiros num futuro que se anuncia de glória...

Tapa na cara

Vocês são meus melhores amigos! Não sei como vai ser a mudança que meu pai tanto diz. Não quero ir embora daqui! – O pai sempre prometia casa nova. E ele, claro, não queria sair de onde era Rei: ninguém, na sã consciência defronte à árvore da sabedoria ou na nau dos loucos, quer se igualar, rebaixando a si mesmo, aos seus pares. Seus contatos com o mundo do seu grado, na escola particular do bairro, não se dá com iguais: as vantagens que conta, que contam uns aos outros, o fazem diferentes: – Na minha rua os moleques me respeitam e têm medo de mim. São todos sangue bons, ainda que tenham uns neguinhos lá que vivem querendo me pegar. Mas meus amigos de verdade sempre resolvem as tretas por mim. “– Comigo acontece igual. Vix! No meu prédio só tem otário!” Vantagens por vantagens, todos saem sorridentes – e isolados em si mesmos: mônadas completas e amorfas. Consigo mesmos, no entanto, remoem-se por saber que nada daquilo é verdade... O ressentimento e o medo são suas forças que os fazem impor medo. O tabefe que vem de dentro, expressão de sua propriedade interna, é expressão de sua propriedade externa: ódio, imposição e sarcasmo pelo sofrimento dos demais: sua maior derrota é sua vitória plena.   

Títulos, cargos e...

Olha cara, não te quero mais na minha equipe. Não quero mais ver sua cara, não quero mais suas opiniões sobre como fazer meu trabalho. Você não sabe nada e quer me dizer o que fazer? Pode pegar suas coisas e sumir daqui. Não volte. Da adolescência conturbada, o dono da bola volta de sua viagem ao submundo dos títulos e diplomas com a humildade estampada na parte de fora de seu coldre personificado. A vida adulta é recheada de relacionamentos mal resolvidos, de amores que não deram pé. Toda sua personalidade de homem humilde que sempre adorou os pobres e luta por eles é fruto de sua confusão ressentida que pune seu dono. Quanto mais luta pelos pobres, mais pobres quer que fiquem: vale seu posto. Qualquer pobre que se emancipe, especialmente com a ajuda dele, é um centímetro a mais do espinho envenenado que se finca em seu coração. Sua face de bom moço se altera, entrevada com todo rancor de sua indisposição, sua frustração perante o mundo que não é seu de todo, que deve ser partilhado, é expressão de seu ódio bilateral. – Para você que lê estas linhas, este conto meio sem pé nem cabeça, saiba que se passou há muito tempo. As falas são as que se reteram na mente do narrador, e que talvez sejam falsas em suas linhas ainda que verdadeiras em sua essência. O conto, que parece um subterfúgio para analisar a psique do indivíduo, na verdade somente expõe o que havia de mais interno nas expressões da personagem: são expressões, nada de análises, de teorias. Deixemos isto ao Simão, se é que ele ainda vive por aí. Este conto, então, é apenas a expressão do visto, não do teorizado. Quem seria eu para falar, sem títulos ou cargos, sem critérios e fora da academia? Apenas conto do jeito que me é transmitido pela memória. Adiante!


Personagem principal, ainda que subterfúgio: a bola   


A bola, ainda que pareça objeto inanimado e sem importância, simples subterfúgio para um início de conto, é peça chave. Não a bola da realidade, aquela que foi substituída por outra, e por outra, pois sempre estourava nas lanças e cacos de vidros dos portões e dos muros. A bola mesma, aquela inflada no ego de seu dono e que não para de inflar, ainda que estoure veias e artérias engendrando derrames e surtos autoritários daquele seu dono que mal sabe perder ainda que tenha perdido sempre, a bola, então, é a outra, sinônimo e imagem daquela do jogo. Cabe essa explicação para você que parou para ler isto, pois, como se sabe, nenhuma bola pode passar em vão, sem nome ou sem explicação. Quando era a da rua, às vezes se perdia e o corro comia. Agora, a da Academia... Ah! A da Academia! Do Clube privativo de alto padrão, do alto escalão do Partido... Aquela sim remonta, tanto a bola quanto o partido, às viagens oníricas de seu dono: realizam o mundo fantasmagórico, mas não sem cobrar seu preço. O dono da bola e seu caráter só se realizam quando inflados e chutados por seus pés de Fausto.
Já não há mais nada a dizer. A memória falha e a bola já nem é mais a mesma...
 [Fim das memórias que poderiam dar num conto]



 Subsolo! Autor desconhecido