sábado, 15 de outubro de 2016

Fragmento #4: Ode ao Cinismo – ou – História sem Prisma


Dizer que se trabalha com o coração, por amor ou vocação, é desconhecer o que significa o trabalho e o coração. Chamar de sofista, em tal época, é anacrônico e injusto. É preciso colorir o material do pensamento, e, para isso, o próprio pensamento deve ser prismático, como aquele que, à força bruta, quebra os tons de cinza da vida cotidiana. Onde não opera o prisma histórico que deixa a superfície e se embrenha nas entranhas encarniçadas da História, opera o cinismo. Tal qual Fortunato (“A Causa Secreta” – Machado de Assis), que se ri e deleita de sua desgraça, sadicamente, o cinismo está incrustado na alma dúbia do brasileiro – descendente de senhor de engenho, ainda que escravo, pequeno-burguês, embora não capitalista. É dia de festejar, tal como se soleniza o sábado de aleluia e se reverencia o Judas de pano. O Real da História é escondido atrás do sorriso amarelo de pavor e dos parabéns ocos do dia. O pavor dos fantasmas do Real – fantasmas mais-que-reais – faz do miserável do dia, expressão forte da miséria geral, um Rei sem precedentes. “O Rei está nu” – é necessário que alguém grite!
O educador – achincalhado-exaltado do dia, e só deste dia – somente poderia ser educado na medida em que rompesse com a própria educação.

Subsolo!


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Fragmento #3: Filosofia


Há dois tipos de filosofia: aquela que incide na realidade e com ela se envolve de forma crítica, impondo sua força crítica que, ao mesmo tempo, é produto da realidade sem se vencer pelas “adversidades do conteúdo” fatídico do presente; e aquela que paira sobre a realidade, como um saco plástico que “sobrevoa”, pensando ser o sobrevoo sua autonomia, sem perceber que é levada pelos ventos. Esta, por definição, sente-se livre. É, por isto mesmo, coisificada e somente revela a incapacidade do pensamento: o “filósofo” sucumbe à realidade na mesma medida em que pensa esmagá-la entre os dedos que segura a caneta. Quem, por ossificação de si mesmo, se refere como pensador, prescinde da prática e a vê como desligada da reflexão: filosofia só é quando tende a se superar; é crítica da realidade efetiva, não sua serva. Bois em pasto pensam tanto, com exímia seriedade, sobre suas liberdades e agraciam o pastor, quanto aquele que se isenta e cria uma realidade paralela: o mote é não hipostasiar palavras, mas imobilizar a realidade e seus conceitos prescritos na letra do texto, na posição privilegiada e cordial da universidade... Très bien! Seguramente, vale mais a repetição distópica – que dá segurança ao sujeito do discurso bonito –, que a errância da experiência, rechaçada pelos pensadores que buscam porto seguro na “crítica” da segurança. A seriedade bovina tem medo da águia que alça voo ao amanhecer; medo de quem não é de pasto. 


Subsolo!